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- Escrito por: Cinthya Nunes
Para a tradição Cristã, dentro dos meus parcos conhecimentos sobre o assunto, Páscoa é tempo de renascimento, de reinício. De origem hebraica, a palavra Páscoa (Pessach) significa passagem. Em termos festivos, no Brasil, é tempo das pessoas se reunirem em família ou entre amigos, aproveitando o descanso do feriado para confraternizações e alimentos especialmente preparados para a data, conforme as tradições religiosas, familiares e culturais de cada grupo.
A vida em sociedade é formada por uma teia muito complexa, ainda não desvendada por completo. Aliás, suspeito, nem minimamente. Fato é que por mais que eu leia e estude sobre o assunto, não consigo entender o que leva as pessoas a cometer barbaridades, a praticar crueldades contra animais, contra outros seres humanos, especialmente contra crianças.
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—Que cores você vê quando olha para cima, para o céu?
—Azul? Cinza? Sei lá.
—Quase isso! Parece cinza, mas é um cinza ótico, formado por várias outras cores que, juntas, formam esse tom. Mas olha direito que você ainda é capaz de encontrar essas outras cores lá no meio.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quando ela chegasse traria biscoito com mel, certeza. Não falhava nunca e ela sabia qual era o mais gostoso. Aqueles com buraquinho no meio eram os melhores, mas o mel escorria por ali. Mamãe sabe dos meus gostos e trará os quadradinhos, perfeitos no sabor também. Ela estava demorando um pouco para vir dessa vez. Preferia não chorar na frente dela, mas às vezes não conseguia ser sempre um bom menino.
Assim que Helena entrou no quarto, a passos lentos e cansados, carregando a velha bolsa com biscoitos, o sorriso de João se abriu, sem dentes. Era até engraçado vê-lo esticar os braços na direção dela, incapaz de sair da cadeira de rodas, pedindo colo, mas aquela imagem só despertava nela uma tristeza imensa.
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Tomei um susto enorme ao vê-la ali no chão, inerte, enorme. A ratazana jazia ao lado de uma das composteiras da praça. Marrom e cinza, parecia morta havia poucas horas, talvez na noite anterior. Minha primeira reação foi de asco, porque somos criados sob o conceito de que os ratos urbanos são sujos e transmitem doenças. Classificados como pragas, devem ser exterminados.
Não estou afirmando que devemos colocar os ratos para dentro de nossas casas, tampouco que não haja questões de saúde publica envolvidas, mas não consigo deixar de pensar que é paradoxal que os ratinhos de desenhos sejam tão adorados no universo infantil, haja vista o símbolo do maior e mais famoso parque de diversões do mundo, mas que sejam presenças reais tão abomináveis.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Coleciono manias. Todas inofensivas, entretanto. Ao menos, creio, a quase totalidade delas. Entre outras coisas, gosto de guardar as sementes das frutas que como. Separo, deixo secar por algum tempo e depois espalho por aí. A maior parte, vou enfiando nos vasos que lotam meu pouco espaço aberto.
Aprendi com meus avós a identificar muitas plantas pelo cheiro de suas folhas ligeiramente maceradas. As mais comuns eu conheço pelo formato do tronco e das folhas, como mangueiras, ameixeiras, pitangueiras, amoreiras, limoeiros, laranjeiras etc. Vez ou outra, no entanto, fico com dúvidas sobre a natureza do que nasce nos vasos, porque os pássaros também semeiam por essas bandas, como o trigo sarraceno que apareceu sabe-se-lá-de-onde.
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Sempre me prometi que não seria daquelas mulheres que escondem a idade, mas a cada virada de década fui tomada por diferentes sentimentos. Quando trintei, ao me tornar balzaquiana, vivi os pequenos conflitos de deixar a tenra juventude, de dizer adeus aos dourados e promissores vinte. Ao fazer quarenta anos, fiquei inconformada por estar na chamada meia idade, uma espécie de limbo onde ficam todos que não são mais considerados jovens, mas ainda não são velhos. Como disse um comediante, uma semi-velha.
Embora eu viva sob o mantra de que habitarei esse mundo por muito tempo, nunca realizei que um dia faria cinquenta anos. Era como aqueles momentos que pensamos jamais se concretizarem para além do futuro, num tempo de porvir eterno. Até ontem eram os meus pais, meus professores e amigos mais velhos que eram cinquentões, mas a roda girou e, cinco piscadelas depois, chegou a minha vez.
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Considero-me uma tia realizada. Minhas irmãs me proporcionam a alegria de conviver com quatro sobrinhos maravilhosos, protagonistas de momentos hilários e emocionantes da minha vida. Coleciono fotos de todos os sorrisos e caretas que posso captar nos momentos em que estamos juntos. Graças a eles e a uma quase (?) obsessão que tenho pelos meus pets, já são mais de doze mil fotos no meu celular.
De idades que variam de dezesseis a três anos, experimento com eles emoções que sequer sei transpor para o papel. É claro que ninguém é perfeito e todos temos nossos defeitos, mas seleciono guardar deles apenas as boas lembranças, os abraços mais carinhosos, os risos mais frouxos e as conversas mais malucas. Muitas vezes, no meio deles, sinto-me entre iguais.
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E depois da Covid-19, da guerra na Ucrânia, das eleições brasileiras, da crise econômica e de mais tantas outras coisas, agora, se não bastasse, parece que os extraterrestres resolveram dar as caras. Pois é, não está sendo fácil, como já dizia a cantora Kátia, lá entre os anos 80 e 90. E ao que indica, se não piorar, pode ficar bem curioso, para dizer o mínimo.
Sempre acreditei em vida fora do nosso planeta, a propósito. Tantas estrelas por aí e só aqui teria sido o local mais votado para colonização/infestação? Acho bem pouco provável. Se for isso, por outro lado, além de ser um desperdício, ainda é lamentável. Sem dizer que considerar o ser humano a última bolacha do pacote me parece nada humilde de nossa parte.
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Aprender sempre. Esse é um lema que adotei para minha vida. Apesar de alguns pesares, o mundo é um lugar incrível e a vida é uma experiência imperdível. Certo porém que algumas pessoas, por razões que as religiões buscam explicar, enquanto outros julgam se tratar de pura sorte (ou falta dela), experimentam vidas com muito mais sofrimento do que os demais.
Em termos bem leigos, a história é relato do aprendizado contínuo. Todos os dias há coisas novas a saber, tecnologias que surgem, métodos antigos a serem redescobertos. Simplesmente isso tudo me encanta e apenas lamento o tempo passar tão rápido enquanto ainda há tanto a descobrir.
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Nem fazia ideia de que existia um elemento com esse nome, mas descobri que um casal pode completar Bodas de Antimônio. Procurei naquele que socorre todos os ignorantes, o Google, e a definição de antimônio em nada me esclareceu. Conforme disponível na página Brasil Escola: “O antimônio, símbolo Sb e número atômico 51, é um elemento químico pertencente ao Grupo 15 (grupo do nitrogênio) da Tabela Periódica.”
Não sei vocês, mas eu não conseguiria identificar se visse um antimônio por aí só com esses dados. Li também que já foi considerado um semimetal, mas agora é classificado como metal. Taí outra coisa que eu não sabia: que existia semimetal! Ou a tabela periódica da minha época era diferente ou eu que já não me lembro mais de quase nada. Talvez as duas hipóteses.
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Delícia que era pegar a lista de materiais para descobrir quais seriam as novidades daquele ano escolar. No começo era a emoção de uma lancheira ou um estojo novo. Uma tesourinha sem pontas era fundamental. Além disso, escolhíamos o papel com o qual encaparíamos os cadernos brochuras das primeiras séries do ensino fundamental que, inclusive, na minha época sequer se chamava assim.
Não importava em que estado estivessem os usados no ano anterior, eu sempre ansiava por uma nova caixa de lápis de cor, daquelas com vinte e quatro ou trinta e seis cores, da Faber Castel. Tinham também os livros didáticos, os quais eu sempre achava bonitos, mesmo que fossem de matemática, disciplina para a qual, sem qualquer dúvida, eu jamais tive pendor. Gostava era das capas, da promessa de conhecimento e, acima de tudo, do cheiro.
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Não faz muito tempo que eu aprendi a conjugar o verbo procrastinar. Acho que passei a maior parte da vida procrastinando, mas sem nomear corretamente minha atitude. De alguns hábitos, no entanto, a gente não se livra ou ao menos, não impunemente.
Desconheço o momento em que comecei a deixar as coisas para última hora, vivendo perigosamente, porque eu me lembro de que nos primeiros anos escolares, preferia fazer as tarefas logo após as aulas, tudo para ficar com o restante do tempo livre. Em algum momento, entretanto, mudei alguma chave interna e passei a inverter a ordem das coisas.
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Alguns textos atrás eu contei aqui sobre a saga das lagartas. Encontradas no meu pequeno limoeiro, colocadas em um vidro e alimentadas às custas de muita cara de pau que tive que vestir para conseguir, aqui e ali, folhas tenras de laranjeiras e limoeiros menos frágeis do que o meu.
No começo eram quatorze, mas um dia empurraram a tampa do pote, que era repleto de largos furos para entrada de ar e quando me dei conta estavam passeando pelos azulejos da minha cozinha. Treze foram colocadas de volta e da outra nunca mais tive notícia ou vi vestígios.
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Argélio fez planos durante todo o ano. Comprou um calendário próprio para registrar os projetos futuros, porque um novo período requer planejamento e ele definidamente era um homem que apreciava metas traçadas e objetivos a cumprir. O caos não lhe pertencia e nem o seduzia.
Classificava os propósitos de acordo com as prioridades. Havia cores para destacar as urgências, as necessidades, as utilidades e até mesmo as esperanças. Era importante, ainda, conforme suas crenças, que os meses tivessem equilíbrio, com doses adequadas de desafios e de comodidades. A vida era bem mais fácil assim, em categorias.
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Talvez a religião que você professe, leitor, não envolva a tradição do Natal ou talvez você simplesmente tenha suas outras razões para não comemorar tal data. Em verdade, pouco importa para o que vim lhe dizer. Sim, porque ainda que você esteja lendo e eu, do lado de cá, escrevendo, é um monólogo que travo com a tela em branco, mas que dirijo a quem quer que por aqui esteja.
É claro que a simples mudança de um dígito no calendário não tem o poder de mudar nossos destinos ou de resolver as nossas pendências. Eventualmente, para a numerologia ou outras áreas pode ser determinante. Não sei. Mas acredito que somos criaturas cíclicas. Vamos abrindo e fechando ciclos enquanto podemos. E se não fazemos isso de modo consciente, a cada dia me convenço de que deveríamos fazê-lo.
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Sempre soube que dentro de mim habita uma cientista maluca. O tempo passa e essa minha outra persona não se retira e tampouco perde a curiosidade sobre todas as coisas. Embora eu goste muito do Direito, uma das minhas opções de profissão era a biologia. Criei lagartas de bicho da seda, além de besouros de várias espécies. Gostava de cavar a terra úmida para de lá retirar minhocas e todo tipo de microfauna que eu encontrasse.
Ainda sou fascinada pelo mundo em miniatura, que se move longe do alcance dos olhos e, não raras vezes, de nossas percepções e empatia. Tenho minhocário, abelhas, hotel para abelhas solitárias e, recentemente criei joaninhas. Gosto de insetos, de um modo geral, à exceção de baratas, moscas e pernilongos, o que, penso, é compreensível.
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E no começo deste mês elas apareceram, em bando. De repente, na entrada da churrasqueira aqui de casa, surgiu um enxame de abelhas. Sei identificar pouquíssimas abelhas, mas ainda assim pelos nomes populares. Descobri, estudando um pouco o tema, que são muitas as espécies de abelhas nativas sem ferrão, com subcategorias inclusive. De todo modo aquelas abelhinhas me remetiam à velhas conhecidas da infância, as tais abelhas que enroscam no cabelo.
Vieram em um sábado qualquer, sem avisar e tomaram conta do lugar. Eram muitas mesmo e, preocupada como sou com as abelhas, não queria que se aninhassem ali, porque por certo morreriam se precisássemos usar a grelha. Saí em busca de todos meus contatos de conhecedores do assunto, os meliponicultores, para saber como proceder.
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Assim que o grito de gol se fez presente na sala improvisada, o cachorrinho se assustou e fez xixi. Depois de tranquilizarmos o pobrezinho, todos passaram a torcer com mais parcimônia. Na verdade, nem houve muito o que fazer nesse sentido, já que o jogo todo teve apenas um único gol.
Dada como sou a viagens mentais pelo tempo, logo me lembrei de outras Copas do Mundo. Minhas primeiras lembranças remetem à adolescência. Vestidos com camisas amarelas, assistíamos aos jogos reunidos com amigos, em rodízio de casas. Pintávamos as unhas também com as cores da bandeira brasileira e, além de assistirmos aos chutes alheios, arriscávamos olhares furtivos para os meninos, com o coração batendo um bolão.
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Creio que já devo ter escrito quase uma dezena de textos sobre meus gatos e, lamento informar, muito provavelmente este não será o último. É que a coisa toda que envolve os gatos é um mistério. Em um dia você não tem gato nenhum e no outro já tem cinco. O fato é que somente quem vive com gatos sabe a que me refiro. Desconfio que os gatos sejam hipnotistas e que dominam nossa mente inferior com simples balançar de seus bigodes.
Eu caí nesse golpe felino meio que por acaso. Ou talvez não. Sei lá. Há sete anos eu ofereci lar temporário para um filhote encontrado vagando em um bairro de São Paulo, mas foi um caso de amor (ou dominação?) e a Chica inaugurou a dinastia dos gatos da minha vida.
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Não que eu seja terminantemente contra, mas me parece que há certo exagero nessa onda de harmonização facial que, nos casos extremos, vem transformando várias mulheres em clones loiros, esticados e com boca de pato. É claro que também não gosto de envelhecer, não fisicamente. Tenho curtido o processo de amadurecimento, pois isso tem me proporcionado mais bônus do que prejuízos, mas se eu pudesse, não hesitaria as minhas células como estavam há vinte anos. Só que não dá, simples assim.
Então, já que o caminho é só de ida, vida que segue. Sou a favor sim de intervenções plásticas, eis que em muitos casos, mais do que estéticas, são terapêuticas. E tudo fazer ajustes cá ou lá. Penso que devemos estar bem como nossos corpos e que a saúde mental se espelha na física e vice-versa. É o excesso que, creio, não é lá muito saudável.
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Vivenciei alguns momentos assustadores nessas minhas décadas vividas. Já fui assaltada a mão armada uma vez, já presenciei e estive em meio a acidentes automobilísticos, entre outras coisas. Nenhum deles, no entanto, se equipara ao pavor que sentia, quando criança, de que um dos meus pais morresse. Era comum que eu sonhasse com isso e acordasse aos prantos, mas no alívio de saber que se tratava de um sonho.
Tenho ainda a alegria da companhia de meus pais, mas durante a vida fui perdendo outras pessoas próximas, familiares e amigos, das mais diferentes causas, inclusive recentemente. Compreendo, racionalmente, a morte como a outra faceta da vida, como a ponta de uma linha cujo comprimento e espessura desconhecemos. Recebemos, de forma inconsciente, um carretel que julgamos infinito e na confusão dos nossos dias vamos desenrolando aleatoriamente o fio da existência.
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Quando Marina contou para os pais que estava de namoro firme, Seu Joca suspirou aliviado. Depois que os dois filhos mais velhos se casaram, ele e Dona Márcia sonhavam com o dia em que poderiam se mudar para a praia, para o apartamento de um único quarto, na orla de um tranquilo balneário. Tinham tudo planejado há anos, mas Marina nunca que arredava pé da casa dos pais.
—Mas que boa notícia! E quando vamos conhecer o sortudo? – disse o pai, tentando disfarçar a empolgação.
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Não sei vocês, mas para mim parece que outubro se eternizou. Segundo o dito popular agosto é o mês do cachorro louco e nunca entendi direito isso, até ler que no Brasil, as condições do clima nesse mês favorecem que as cachorras entrem no cio, deixando os machos meio loucos mesmo, sendo comuns as brigas para ver quem consegue acasalar. Talvez haja outras explicações, mas essa foi a que encontrei. Esclarecido o dito popular, aqui com meus botões eu acho que, diante de tantos animais castrados, o mês da loucura está para perder o seu pódio para outubro.
Curiosamente, os dois outubros anteriores foram meses especialmente complicados para mim, em termos de trabalho, e eu fiquei, de lá para cá, com a sensação de que esse mês fez algum trato com o calendário e surripiou uns dias de janeiro, porque as férias a gente nem vê passar mesmo e aí fica mais fácil enganar nossas sensações.
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Minha vontade hoje é de escrever sobre um tema do qual normalmente não gosto e ao qual não costumo dedicar minhas linhas. Contudo, em tempos sombrios de censura à liberdade de expressão, ainda que se tente justificar o injustificável, é com a voz presa na garganta e com as palavras amarradas nas pontas dos dedos que escreverei sobre o que ainda se pode falar.
Conforme já escrevi em outras ocasiões, eu crio abelhas sem ferrão. São abelhas pequeninas, nativas brasileiras, dóceis e inofensivas. Comprei as colmeias, que vêm em pequenas caixas de madeira e as coloquei no nosso pequeno quintal, entre as muitas flores que cultivo em vasos.
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E depois de dois anos, lá fui eu, pela primeira vez desde então, usar o metrô como meio de transporte. Como minha vida mudou de rumo um pouco antes da pandemia, eu já vinha diminuindo bastante minha frequência como forma de me locomover. Depois do coronavírus então, aí sim que, trabalhando quase cem por cento em home office, evitei o quanto pude, mas apenas por conta de receio de contágio.
Agora, passado o pior e a vida, de um jeito ou de outro, retomando seu curso, precisei ir até o centro de São Paulo e decidi que o metrô seria o jeito mais rápido. Em verdade sempre gostei. Posso ir de um lado a outro sem enfrentar trânsito, lendo ou escutando algo que me interesse, como relativa segurança. Mas a grande verdade é que gosto de observar as pessoas. Todo cronista é um curioso contumaz, aliás.
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Admito que não gosto muito de escrever sobre política, muito menos em tempos de eleição, mas o que tenho visto, ouvido e lido nos últimos dias praticamente me arremessou para tela do computador, sem alternativa de assunto.
Considero esse pleito presidencial algo muito singular, porque os dois candidatos são, cada qual por motivos diferentes, ou muito odiados, ou muito idolatrados. Vou me reservar ao direito de não adentrar nos méritos e deméritos sobre os presidenciáveis, eis que, a esta altura das coisas, cada eleitor já deveria estar a par deles, de um lado ou de outro.
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No ano passado a tentativa não foi bem-sucedida. Ao contrário, resultou em tragédia, sem nunca termos certeza sobre o autor dos crimes. Após certa análise do local, o pessoal da rua concluiu que um gato fora o responsável por destruir o ninho dos sabiás. Já haviam nascido dois filhotes que foram brutalmente assassinados, para desolação dos pais, que ficaram ainda uns dois dias rondando os destroços do ninho.
Aqui no nosso bairro temos, por ora, o privilégio de observar, nas áreas verdes que nos cercam, ninhos de algumas aves, como beija-flores, maritacas, João-de-barro, rolinhas, bem-te-vis e, entre outros, os sabiás laranjeiras. Assim, há quase um ano um casal do seresteiro da madrugada resolveu fazer morada em uma árvore da rua.
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Quando eu vi, um pouco antes da pandemia, que nascia uma planta na área verde de um de meus locais de trabalho, soube que era uma amoreira. Incumbida que eu estava de fiscalizar a limpeza do mato que precisava ser retirado do local, orientei ao jardineiro para não retirar aquela que era promessa de frutos deliciosos.
Pouco mais de dois anos depois e a pequena planta se transformou em uma árvore alta e frondosa. Pela minha experiência anterior com amoreiras, os primeiros frutos já deveriam ter aparecido, mas ao invés deles, só notei umas estruturas parecidas com amoras atrofiadas, que após ficarem ligeiramente brancas, secavam e caiam. Estranhei, mas pensei que poderia ser algo pontual, talvez causado por falta de adubo adequado.
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—A senhora tem certeza disso? É uma decisão muito importante e nem sabemos se é o momento mais adequado.
—Nunca estive tão decidida. Foram longos setenta anos. Estou exausta. Acredito que cumpri com o combinado. Por favor, comunique que estou voltando em muito breve. Verifique a possibilidade dos cachorros irem comigo. Eles nem são daqui mesmo. Todos sabem que os cães fazem parte de uma espécie mais evoluída.
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1ª testemunha ouvida pela polícia: Osmar, cozinheiro
Sim, eu vi quando a mulher atravessou a rua. Não sei o nome dela, não senhor. Só sei que comprava feijoada aqui todo sábado. Idade? Uhum, nova ainda. Uns cinquenta e poucos? Tava sempre bem arrumada, com essas coisas de maquiagem na cara, então num dá muito para saber. Mas era bonitona.
Não sei se ela tem família aqui no bairro também. Só posso dizer que vi o acidente. E eu vi porque tava fumando ali na frente. Era hora do meu intervalo e gosto de olhar o povo que passa. Aqui neste lugar, neste bairro de gente chique é tudo diferente de lá de onde eu moro, sabe? Lá o povo grita na rua o tempo todo. É criança e cachorro para todo lado.
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Apesar de tudo, eu seria brasileira outra vez. Claro que admiro a cultura e o desenvolvimento de outros países e gostaria de morar em um lugar mais seguro, com menos desigualdade e criminalidade. Mas ainda assim, se me fosse dada a escolha, acredito que ser brasileira, no mínimo, faria parte do top cinco. Há sentimentos que não explicamos, apenas experimentamos.
Este país, de dimensões continentais, é rico das formas mais importantes. Pena ser tão pobre de tantas outras. Para além dos recursos naturais, da beleza da fauna e flora, da comida que nasce quase sem esforço, o Brasil é um gigante, embora de pés amarrados. Assim, ao invés de caminhar livremente, de avançar pelo que se chama de progresso saudável, o país tropeça a cada curto passo, vilipendiado de muitos modos.
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Todas as semanas, há vinte e dois anos, separo um tempo para escrever o texto que segue para publicação nos jornais. Em alguns momentos tenho tantos temas se anunciando e brincando de roda em minha mente que fica até difícil escolher. Há dias nos quais o texto já surge pronto, somente esperando a hora de ir para o papel. Nesse tempo todo já tive ainda, várias vezes, o famoso branco, a ausência total de inspiração.
Hoje, depois de protelar ao máximo, entendi que não nasceu em mim nenhuma ideia em específico, porque talvez eu não esteja com ânimo literário para grandes dilações. Vivemos tempos delicados, nos quais escrever sobre temas polêmicos pode gerar inimizades, mal-entendidos, cancelamentos e até processos. Complicado demais isso em ano de eleições, entre outras coisas.
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—É por causa de gente como você que eles são como são, Amanda.
—Como assim gente como eu, Luzia? O que foi que eu fiz?
—Para variar, nada. E isso é a principal causa de tudo. Vocês não entendem o nosso lado, porque para vocês tudo sempre foi muito fácil.
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Não sei se fui sempre assim, mas não gosto de vento. Exceção honrosa faço para a brisa, principalmente se for na praia, em um dia de sol, ou em tardes abafadas, prenunciando a noite amena. A brisa refresca, alivia, acalma, acaricia. O vento é outro departamento. Bagunça tudo, desde o cabelo que me entra pela boca ou me invade os olhos, até minhas ideias.
Em algum momento de minha vida o vento e eu tivemos alguma espécie de ruptura e desde então não recuperamos nosso relacionamento, talvez algo que seja definitivo, no fim das contas. Pode até ser que haja certa dose de implicância de minha parte, mas o sujeito é desaforado. Bate portas, janelas, levanta saias distraídas e rouba chapéus desprevenidos. Sem dizer que traz frio ou poeira.
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—Vêdi, eu tenho que levar uma roupa para tomar banho. Preciso de um vestido, uma calcinha e um perfume.
—Anda logo. A gente tem que sair rápido. A empregada não pode ver.
Corri para arrumar minhas coisas. Antes de sair dei uma olhada na minha irmã de um ano e meio que dormia em um dos quartos.
Minha prima e eu, minutos antes havíamos combinado de ir até a casa dela, sem que ninguém soubesse. Nossos pais haviam nos deixado sob os cuidados da mulher que ajudava minha mãe nos serviços domésticos, para irem ao velório de um familiar.
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—Vai logo! Ela vem vindo. Tira daí.
—Eu? Nem matando. Você que deixou cair. Coloca a mão lá e pega. Puxa rápido.
—Mas tem o seu xixi lá dentro. Isso é muito nojento. Ecaaaa.
Minutos antes, as duas meninas, de doze e oito anos, brincavam com o par de brincos de pressão que retiraram escondido do porta-joias da irmã mais velha. Carla, que não tinha orelhas furadas, gostava de usar brincos exagerados, afinal eram os anos oitenta e a palavra exagero parecia ter outro significado, ao menos na moda.
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Uma pequena mala já bem gasta, algumas sacolas e um cobertor popular. Sentado no ponto de ônibus há dias, ele permanece como se esquecido de partir, esperando por algo ou alguém que nunca se faz chegar.
Era alfaiate, segundo soube. Perdeu o emprego e, sem família e recursos, acabou na rua, despejado do quartinho e das esperanças que ocupava. Desde então sobrevive pelo bairro, abrigado nas estruturas de pontos de ônibus. Se bebe ou usa drogas, não demonstra. Possui semblante altivo, embora humilde. Parece constantemente mirar o horizonte, embora eu não saiba interpretar aquele olhar direcionado ao nada.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Um pouco de azul e amarelo e vai surgindo um verde. Um toque de branco e surgem tons pasteis. Alguma nuance de vermelho e a cor desejada nasce, pronta para cobrir o desenho sobre o papel, em um processo quase alquímico. Um vasinho com flores brancas de miolo amarelo como modelo e por quase duas horas, pela plataforma zoom, a professora e outros três colegas, cada um morando em um canto do Brasil, misturamos cores, pintamos e conversamos.
Horas antes e o dia não tinha sido dos melhores. Todos nós temos nossos dias ruins, afinal. Aqueles momentos em que questionamos escolhas, lamentamos a sorte ou a falta dela, além de ressuscitarmos velhos dilemas pessoais. Quase desmarquei a aula, porque não estava realmente no clima. Ainda bem que não o fiz.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
O chão está forrado delas. Juntas, formam um tapete de tom entre rosa e roxo, cobrindo de vida o asfalto, as pedras e os carros da pequena rua onde moro. Imenso, o ipê está florido como nunca o vi antes. Sobrepondo-se aos telhados dos sobradinhos, nessa pequena área ainda não dominada por arranha-céus, parece um ramalhete, contrastando com o azul desses dias claros.
Não sei precisar há quanto tempo está aqui, mas pelo relato de alguns moradores, suponho que tenha sido plantado cerca de quinze anos atrás. Por várias vezes foi ameaçado de morte, no entanto. Vítima da cisma de alguns e da implicância gratuita de outros, já esteve com as motosserras rugindo próximas a ele por algumas vezes. Nas últimas vezes, com ajuda de amigos, consegui impedir, embora nunca saiba até quando.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Às vezes eu o persigo, mas na maior parte do tempo, é ele quem me domina. Minha relação com o sono é meio esquizofrênica, admito. Poucas vezes estivemos divorciados e, assim, houve mesmo um tempo em que sofri de certa insônia. Naqueles dias, era com desespero que aguardava pela chegada do meu amigo quase inseparável, vendo as horas se sucederem e madrugada ir se transformando em dia.
Quando o sono resolve se apossar de mim, por outro lado, tudo muda de figura. Certa vez, com um casal de amigos, fomos assistir a uma apresentação de música clássica. Era tarde da noite, estava muito frio e aquela sexta-feira fechava uma semana bem atribulada. Meu intento era o de prestigiar os músicos talentosos que se apresentavam, mas naquele misto de silêncio e som, fui sendo tragada para outro mundo e posso afirmar que foi tudo um sonho, literalmente.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A corretora estava na porta da casa de dois andares, encravada no meio de um bairro antigo da cidade. Era baixinha e estava toda vestida de preto, uniforme das corretoras de residências mágicas. Exigência do sindicato, para passar credibilidade aos futuros compradores ou inquilinos. A sociedade mágica estava cada dia mais exigente.
A família interessada naquela residência era composta de um casal e uma criança de uns cem anos de idade. Eram meio duendes e pela primeira vez naquele século, depois de passarem pela rigorosa análise documental, tinham conquistado o direito de morar na cidade grande, em meio aos humanos comuns.
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Eu escutava os murmúrios que aos poucos iam fazendo sentido. Eram orações. A procissão passava na rua de casa e da janela do quarto onde eu dormia com minhas irmãs, espiávamos as pessoas que, de madrugada, seguiam por vários quarteirões rogando ao Criador.
Os tapetes de Corpus Christi enfeitaram as ruas e de algumas cidades nas quais passei minha infância e minhas lembranças daquela época são mais afetivas do que religiosas. Sei que até hoje é uma tradição que se manteve em cidades pelo interior do Brasil, inclusive. Trazida ao Brasil no período da colonização, a prática portuguesa remete à acolhida de Jesus em Jerusalém.
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Mal eram onze da manhã e toda a família já conseguia ver que tia Nicoleta estava bêbada. Todo domingo era a mesma coisa, fazia mais de vinte anos. Ela começava a cantarolar as músicas italianas do tempo das vitrolas. Eu até já conhecia algumas de cor, de tanto ouvir. Com o rosto afogueado, a tia ficava com a voz mole, escorregadia. Parecia até que as palavras queriam fugir, cansadas daquela mesmice, mas ela não deixava.
Zia Nicoleta, poveretta, era uma mulher triste. Tudo culpa do Nonno Nino, que a proibira de se casar com o Manuel, o português dono da padaria do bairro. Nunca mais Helena quis se casar ou namorar ninguém. Era mulher de um só amor, dizia. Vivia das lembranças do primeiro beijo e da tristeza da despedida, depois do Manuel ir embora num repente, sem avisar ninguém.
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Não sou daquelas pessoas que resolvem ou agravam seus problemas através da comida. Minha relação com ela sempre foi tranquila. Aliás, caso algo esteja mal, seja dentro ou fora de mim, perco o apetite por completo. Por outro lado, entendo o conceito do que se chama modernamente de comfort food, ou em bom português, comida reconfortante.
Há alguns anos, enquanto assistia a um programa de tv, ouvi essa expressão e fui me informar sobre o assunto. Trata-se daquela comida que traz uma sensação de alívio, de conforto, que remete às coisas simples da vida, da infância. Em resumo, aquela comidinha de mãe, de vó, das tias e de todas as pessoas que, através da comida, compõem nosso universo passado de boas recordações.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Depois das três ou quatro doses da vacina e da quase total abolição do uso de máscaras, a maior parte das pessoas retomou a vida normal, seja lá o que isso significa agora. Reuniões com amigos e festividades com aglomerações foram retomadas e, em alguns momentos, é até possível esquecer a existência do flagelo chamado COVID.
Certo que diante de um cenário de crise política, alta de preços e desemprego, não há exatamente a alternativa, para grande maioria dos brasileiros, de se ficar em casa, trancado, à espera de que seja cem por cento seguro novamente. Até mesmo porque, parece-me, nunca foi e nem nunca será.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Odeio frio. Em verdade nem sei se é ódio. Apenas sinto que o frio é, em muitos sentidos, incompatível com a vida. Com a minha vida, por certo. Exageros à parte, admito que até há glamour em locais turísticos, onde o frio significa, para os que lá estão a passeio, um menu de comidas reconfortantes, boas bebidas, roupas elegantes e passeios temáticos. Disso também gosto, é claro.
O frio raiz, aquele que vem me dizer olá assim que o alarme do celular toca, dando notícias de que tenho que me aprontar para mais um dia de trabalho, já não me seduz e nem me convence das suas boas intenções. Ainda mais um frio meio fora de época como este que a maior parte do Brasil tem vivenciado neste mês de maio. Ao leitor do futuro, àquele que porventura encontre esse texto perdido em algum canto do multiverso ou esquecido na forração de uma gaveta, esclareço que estamos no ano de 2022.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Eu a encontrei no chão, no meio da calçada, quase esmagada. Era um galhinho de uma planta bem roxa, bastante usada para ornamentar canteiros. Isso foi antes da pandemia começar, nos meses que a antecederam e nos quais sequer sonhávamos com o coronavírus. Eu tinha acabado de sair de dois empregos que me garantiam, além de satisfação pessoal, certa tranquilidade financeira. Minhas ideias e sentimentos estavam se desprendendo de mim, fragmentados.
Embora fosse inverno e estivesse bem frio, fazia sol e havia céu azul. Sem saber direito o que fazer na ausência da pressa que até então me acompanhava, eu estava a caminho da natação, quando a notei. Desconheço a razão, mas me apiedei daquela planta que, metade já esmagada e ressentida pela falta de água, ainda oferecia ao mundo uma pequenina e delicada flor rosa. Mentalmente “fizemos” um combinado: se ela estivesse ali quando voltasse, eu a levaria para casa.
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Há cinco anos eu ganhei uma gatinha. Era minúscula. Pesava pouco mais de trezentos gramas. Segundo a amiga que a resgatou, bem como aos demais de uma ninhada de cinco, era mestiça de maine coon, uma espécie de gatos gigantes. Seria a terceira felina da casa. Eu esperava um gato gigante e trouxe para casa uma criaturinha que nem parecia de verdade. Demos a ela o nome de Mini.
Apesar de todos nossos esforços e dos veterinários da família, Mini viveu apenas mais algumas semanas. Tal como os outros três irmãos, era doente. Chorei demais por aquela vidinha tão frágil que não consegui salvar. Minha gigante em miniatura fora resgatada em condições muito insalubres, de total abandono. Eu esperava ter sido capaz de salvá-la, mas não fui.
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A massa escura que eu não distinguia direito era mesmo um morceguinho morto. Estava com as asas enroladas em volta do corpo, tal qual uma bolinha. Uma das cachorras olhava para ele, aparentemente sem entender do que se tratava. Impedimos, em tempo, que fizesse uma verificação com os dentes e língua.
Algumas horas antes eu havia colocado o néctar dos beija-flores e das cambacicas que, de noite, é consumido pelos muitos morceguinhos que aparecem no nosso quintal. Sempre me pergunto de onde eles vêm, pois surgem um pouco depois das 20h e, fazendo acrobacias áreas, dão rasantes pelas cabeças de quem se encontrar na pequena e verde área externa que possuímos.
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Há alguns anos venho fazendo compostagem com os resíduos orgânicos de minha cozinha. Em três caixas sobrepostas, minhas minhocas tratam de dar fim a cascas de ovos, cascas de frutas, pão seco e outras coisas, transformando tudo em humus e chorume que depois uso em meus vasos, como adubo.
Quando eu conheci o projeto que é desenvolvido em uma praça próxima de minha casa (Praça Pablo Garcia Cantero) aqui na cidade de São Paulo, descobri que há outras formas de se fazer compostagem, sem o uso dos simpáticos nematelmintos. O processo de compostagem termofílica é biológico e transforma resíduos cuja destinação seriam aterros sanitários, em compostos orgânicos ricos em nutrientes.
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Há tempos sou assombrada por ele. Não o conheço pela face, eis que tenho evitado, por décadas, encará-lo frente a frente. Acredito que ele tenha se chegado a mim bem cedo, perto dos nove anos de idade. Foi quando arrisquei meus primeiros poemas.
Descobri que sabia fazer rimas e juntá-las no que me ensinaram chamar poesia. Embora eu me orgulhasse delas, o Monstro já se fazia presente.
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–Mãeeee, eu quero aquele ovo grandão! Esse é feio. Nem é grande e nem é do Batman.
–Filho, esse aqui é gostoso também! É de chocolate igual ao do Batman, mas é da vaquinha feliz.
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Eu o conheceria em poucas horas. Meu coração estava aos pulos. A noite passada fora um misto de sonhos, pesadelos, de sentimentos que não posso explicar. Tudo o que eu tinha até aquele momento eram fotos. Muitas, por sinal. Ele era lindo, isso era inegável, mas eu não estava segura de como me sentiria ao vê-lo, ao tocá-lo, se chegássemos a tanto.
Acordei muitas horas antes do relógio me lembrar que aquele não era um dia qualquer. Mudei tantas vezes de roupa. Prendi e soltei meus cabelos. Escolhi perfume, óculos, sapato.
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—Pode deixar comigo. Já assisti a três vídeos no YouTube e chegou o kit de tesouras que eu encomendei. Mas pensando bem, e se ficar horrível?
—Daí eu raspo careca, ué?!
Com a garantia de que haveria uma solução em caso de fracasso, durante a pandemia me tornei cabeleireira amadora. Para alívio de todos, não criei nenhum sósia do Kojak ou, para que os mais jovens entendam, do Meu Malvado Favorito.
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— Quer dizer que agora não precisa mais usar máscara? Liberou geral?
—Não é bem isso. Não precisa mais em ambientes abertos e, nos locais fechados, só no transporte público e locais de atendimento à saúde, tipo hospital, essas coisas.
—Até que é bom isso né? Ou não é? Eu nem sei direito se fico feliz ou chateado.
—Ué, chateado por quê? Não é bom respirar livremente outra vez, sem aquele treco sufocante? Eu pelo menos estou comemorando.
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Não queria mesmo escrever sobre esse assunto. Aliás, queria fingir que a guerra entre Rússia e Ucrânia nem existisse. Tentei, confesso, o quanto pude. Evitei ao máximo ler os jornais ou acompanhar os noticiários a respeito.
Sempre tiver pavor de guerras. As aulas de história, cheia de estatísticas e número de mortos, deixavam-me arrasada.
Não entendo a maior parte dos argumentos que justificam uma guerra. Por mais que se queira explicar, no fim das contas tudo é uma questão de dinheiro, poder, dominação. Duvido é das motivações dos senhores da guerra, daqueles que se colocam confortáveis e protegidos atrás de supostas ideologias, pelas quais tantos jovens sucumbem, privados de uma vida que poderia ser muito maior.
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Comecei escrevendo poesia, mas minha prosa logo encontrou o rumo que desejava: escrever para crianças e jovens. Aventurei-me nesse caminho antes de me tornar cronista e publiquei alguns livros infantis que me deram o melhor dos retornos possíveis: leitores. Não há qualquer sentido, segundo creio, em ser um escritor que ninguém lê. Todo aquele que escreve tem, mesmo que não confessado, o desejo de que suas palavras sejam colhidas por outras pessoas, que possam fazer eco dentro de outras mentes.
Realmente perdi as contas de quantas cartinhas recebi de crianças que, juntamente com suas professoras, trabalharam meus textos nas salas de aula. Certamente foram quase duas centenas. Sei que não é um número expressivo para um escritor de sucesso, mas para mim sempre foram um presente, algo que ia muito além do que eu esperava.
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—Mas em tudo há poesia – disse-me ele, sem desgrudar os olhos do céu – a poesia mora até mesmo nas palavras e, às vezes, existe apesar delas.
Terminou assim o módulo de poesia do meu curso de escrita criativa, com frases de um professor que me trouxe de volta o apreço por um gênero do qual me afastei há vários anos.
Comecei a me expressar, na escrita, pela poesia. Gostava de formar versinhos, de brincar com rimas, de ler poesia de gente grande, repleta de imagens que me seduziam em significados que eu não era capaz de compreender.
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Polêmicas à parte sobre o autor, sempre fui encantada pela personagem Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo. Achava incrível uma boneca que falava, era inteligente, marrenta e cheia de imaginação e tudo sem ter um coração! Até noiva de um Marquês ela foi. Tudo bem que o tal nobre era um porquinho, mas para alguém feita de pano, estava de bom tamanho.
Meu fascínio pela Emília se devia principalmente ao baú que ela possuía. Quantas vezes peguei uma caixa de sapatos, na falta de algo melhor e fingi que era o meu baú de lembranças e coisas incríveis. Viajei para lugares impensados usando o pó de pirlimpimpim fabricado pelos meus devaneios. Guardava dentro do meu “baú” uma série de coisinhas inúteis, mas que eu fazia repletos de significados só meus.
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O duro foi permanecer sentada e olhando para o computador enquanto o morcego dava rasantes na minha cabeça. Tentei manter a dignidade e não gritar muito diante da plateia formada pelos meus cerca de cinquenta alunos da faculdade de Direito. Fiz o que pude, mas inevitável um gritinho ou outro, sempre que o filhote de drácula se aproximava.
Foi tudo culpa da Chica, minha gatinha frajola que, além de gulosa, é exímia caçadora. Só que ela não captura para comer e, para sorte das presas, nem para matar. Apenas, creio, tem certeza ou esperança de que irei apreciar a oferenda e, gentilmente me traz esses presentes. Chica Maria Eustáquia Borges, para citar o nome completo da bichana, é uma criatura curiosa, a propósito. Irmã mais velha dos outros quatro gatos que adotei, vivia pelas ruas quando filhote, até ser encontrada por uma aluna e vir parar aqui em casa. Não pode me ver ou me ouvir falando diante das telas do computador ou do telefone, que aparece do nada e se esfrega em minhas mãos como se não me visse há décadas.
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Foi água para todo lado. Parecia enchente, mas era “só” um dos meus aquários que explodira. Tá, ok, ele não explodiu propriamente, mas o vidro rachou de repente e a água, todos os oitenta litros, começou a sair tal a comporta de uma represa rompida. O susto foi grande, admito. Quando escutei o barulho, achei fosse uma torneira esquecida aberta, ou algo assim. Demorei um pouco para processar o ocorrido e para reagir, pois tinha dois peixes para salvar do contrário de um afogamento.
Nada entendo de astrologia, mas tenho há muito a sensação de que ser do signo de Peixes, de algum modo, atrai água. Consultei o oráculo Google e descobri, através do horário do meu nascimento, que sou Peixes com Ascendente em Peixes. E o que isso significa? Não faço a menor ideia, exceto que provoca um aguaceiro que corre pelo meu verso e pelo meu avesso. A par disso, gosto muito de água, mas a questão é outra. Sou uma espécie de ímã involuntário para esse elemento.
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“Desculpe, mas somente seres humanos podem realizar essa operação” - foi a mensagem que apareceu na tela assim que tentei me inscrever em um curso online. Era preciso clicar, inicialmente, em um campo para provar que eu não era um robô. Como me atrapalhei porque estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo, acabei por pular essa etapa, ao que fui logo advertida pelo sistema.
Eu suponho que isso se dê para evitar o envio de mensagens automáticas indevidas ou mesmo a instalação fraudulenta de programas maliciosos. Assim, ao tomarmos essa pequena precaução, em tese, o sistema nos reconheceria como seres humanos, pressupondo, portanto, que estamos realizando a operação de forma consciente.
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Gostem ou não, algumas coisas estão mudando para melhor, mesmo que a passos muito lentos. Há algumas décadas as pessoas falavam abertamente, sem qualquer risco de reprimenda, que iriam jogar filhotes de gatos dentro de um rio ou que levariam animais para longe, para que não soubessem mais como voltar. Toda forma de abandono e de crueldade parecia justificável para alguns e, o pior, na quase totalidade dos casos, não havia o menor risco de punição.
Lamento que ainda hoje haja uma parcela de pessoas indiferentes a essas práticas abomináveis e, pior, que submetem os animais a maus-tratos.
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Carnaval de rua cancelado aqui em Sampa. As centenas de blocos que já estavam autorizados vão ter que recolher a serpentina que nem foi lançada. Pago para ver. Tenho certeza de que blocos de rebeldes haverão de sambar, sub-repticiamente, por ruelas dos bairros paulistanos. Festa de máscaras, literalmente. Ao menos deveria ser.
Mas o desfile no Sambódromo está garantido por ora. Lá, por certo, afirmam as autoridades, será possível rigorosa fiscalização. Ademais, será ao ar livre e o vírus, empático, não vai contaminar ninguém. Se for Lua minguante então, sem chance. Assim como na praia, onde o vírus morre pelo sol e pelo sal. As chances de dar errado são mínimas. Para o vírus, acredito.
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Nada novo, de novo
A gente bem que gosta de pensar que um novo ano possa ser melhor do que o anterior. Por razões místicas ou religiosas, muitos de nós apostam as fichas no ciclo que se reinicia tão logo nosso planeta termine seu giro em torno do Sol. De minha parte fico sempre na torcida por melhores notícias, por esperanças que se renovem, mas já passei da idade de acreditar que só a troca de números no calendário seja suficiente para transformar as coisas.
Como faço todos os anos, fui para o interior aqui do estado de São Paulo para passar uns dias com meus pais, irmãs e sobrinhas. Andando a pé pela cidade, notei, com tristeza, que tal qual acontece aqui na capital, há muito lixo pelas ruas, nitidamente descartado de forma negligente e impune pelas pessoas. Não há serviço de coleta que dê conta, seja lá ou cá.
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Últimos dias de 2021 e era inevitável pensar no ano que se aproximava. Para Mariana era sempre a mesma coisa. Ela sabia que nada mudaria só porque o calendário trocaria um número dali uns dias, mas ainda assim fazia planos. No dia 1º começaria o regime definitivo: zero carboidratos, muitas frutas vermelhas e suco de gabiroba. Tia Ângela tinha garantido que era tiro e queda. Se bem que o melhor seria começar no dia 03, uma segunda-feira.
Acho que nem faz muito sentido um regime começar no domingo, pensou Mariana. O churrasco na casa da tia Lila também não era propriamente um incentivo. Ela levaria pavê de uva e seria um desperdício não comer algo de que gostava tanto. Talvez ela tomasse algumas cervejas também. Cerveja contava como carboidrato? Precisava conferir esse ponto com a Tia Ângela urgentemente.
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Mais um Natal chegando e a família Nogueira, tal como nos últimos oito anos, faria o sorteio de quem desempenharia o papel de Papai Noel. Após o nascimento das gêmeas Sofia e Isa, os avós, Seu Bilu, como era mais conhecido, e Dona Joana, transformaram em tradição a visita especial do “bom velhinho” nas noites de 24 de dezembro.
Havia um sorteio envolvendo tios e primos, todos ansiosos para conferir quem teria a melhor performance. A coisa toda envolvia uma série de preparativos, pois a entrada deveria ser triunfal. As meninas, agora com 8 anos de idade, já estavam difíceis de serem enganadas. No ano anterior, o tio Agenor é que fora o contemplado e resolveu que seria um Papai Noel moderno, mas quando arriscou a primeira fala foi desmascarado pela Bisa Marieta, que aos 94 anos não sabia mais nem onde estava.
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Venho escrevendo crônicas há mais de vinte anos, semanalmente. Normalmente, quando comento tal fato com alguém, perguntam-me como faço para ter assuntos novos para tantos textos, como se fosse algo que demandasse algum esforço extra ou alguma qualidade especial. Sinto decepcionar quem pensa assim. Em verdade, trata-se apenas de uma coisa: observação. Explico-me.
Nunca vou a lugar nenhum sem observar tudo ao meu redor. O segredo, talvez, seja prestar atenção nas coisas certas, naquilo que, de ordinário, não se costuma notar. Acredito ser esse o grande trunfo do cronista: possuir olhar que se direciona para lugares, pessoas ou situações inusitadas. E assim, como a vida não se repete, como há coisas novas o tempo todo, há sempre assunto que possa ocupar de modo razoavelmente interessante, as linhas de um espaço em branco.
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Natal chegando e penso que vale a pena repassar algumas regras básicas de etiqueta e convívio. Nesse período do ano é comum trocarmos presentes com aqueles que nos são queridos, mesmo que sejam pequenos mimos. Em tempos de crise, de vacas não tão gordas, acredito que o gesto de presentear alguém mereça ao menos a consideração alheia.
Gosto muito de receber presentes e nunca deixei de valorizar todos aqueles que recebi. Por sorte sou uma pessoa que gosta de quase todo tipo de coisa. Sou uma pessoa fácil de presentear. Plantas, doces, pães, livros, papel para pintura, tintas, cosméticos, linhas, roupas, bolsas, sapatos, cursos, perfumes, bijuterias, jogos, uma poesia e até mesmo simples caixas estão entre as coisas que enchem meu coração e meus olhos.
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A menina tinha nome de gente grande: Sebastiana. Era, no entanto, bem pequena, com pouco mais de sete anos. O apelido, porém, era de gente miúda: Nena. Órfã de pai, foi deixada pela mãe aos cuidados da madrinha, mulher de posses, para que tivesse chance de uma vida melhor.
Nos anos vinte não era propriamente um escândalo que uma criança de pouca idade fosse tratada como serviçal, sobretudo em se tratando de alguém de família sem recursos. Assim, Nena, cuja mãe esperava que seria tratada como filha, como hóspede, foi incumbida de muitas e pesadas tarefas domésticas, sequer frequentando a escola. Embora seja compreensível e esperável que se lamente esse fato, essa não é uma história sobre a tristeza.
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No Brasil, há alguns meses, temos experimentado a sensação de que as coisas, aos poucos, voltam aos seus lugares. Com mais da metade da população vacinada, renasce a esperança de dias melhores, de alguma normalidade. Embora nada traga de volta os dias e as vidas perdidas, é preciso prosseguir, é necessário encontrar algum ponto de apoio para ser possível sobreviver. A história da humanidade é inegavelmente resultado da capacidade de adaptação, mesmo diante das maiores tragédias.
Contudo, esse delicado equilíbrio está em risco outra vez. No mundo todo começam as notícias sobre uma 4ª onda do vírus e ainda não há exata dimensão sobre a eficácia da vacina diante das novas investidas do atual inimigo número um dos seres humanos. Alguns países já fecham fronteiras e colocam seus cidadãos dentro de sete chaves. Enquanto aqui, no Brasil, vivemos um aparente momento de respiro, o ar puro e seguro começa a ficar escasso ao nosso redor.
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Dando sequência aos textos sobre ditados populares, escrevo hoje, por sugestão de um leitor da cidade de Bauru, sobre a expressão popular “Comigo não, violão”. No corpo do e-mail veio também um arquivo com uma música antiga, cantada por Francisco Alves, que leva o mesmo nome. A música me é vagamente familiar e talvez eu a tenha escutado quando criança, mas mesmo sem conhecer o sentido exato ou a origem da expressão, já a utilizei muitas vezes no contexto de muitas frases.
Nesse caso, creio, o significado é claro, ao menos para aqueles que já passaram dos quarenta. De acordo com dicionário informal, é frase utilizada como recusa para alguma atividade ou algo impossível. Quase como o atual (ou nem tanto?) “tô fora”. Muito provavelmente, no entanto, os mais jovens sejam incapazes de identificar o sentido dessa frase. Enquanto alguns ditos populares parecem eternizados pelo contínuo uso, outros vão desaparecendo quando perdem o contexto inicial ou, na melhor das hipóteses, perdem o sentido original.
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–Você me desculpe! Eu nem costumo usar o banheiro fora de casa, a não ser para um xixi rápido. Fico morrendo de vergonha, porque sei que a coisa está feia, mas acho que foi mesmo o acarajé que comi ontem à noite.
–Ah, sem problemas. Entendo perfeitamente. Eu mesmo só corri aqui porque achei que a essa hora os banheiros desse andar ficavam vazios, porque não vi ninguém por aqui perto. Saí apressado de casa e nem tive tempo de gastar minha meia hora regulamentar no banheiro.
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Em texto anterior escrevi sobre a origem da expressão popular “Vá plantar batatas”. Muitos ditos populares têm origens e significados bem interessantes e até engraçados. Como recebi, porém, dias depois, uma mensagem de um leitor que gostaria de saber mais sobre a frase “Vá Lamber Sabão”, resolvi ir à pesquisa pelos caminhos da internet.
Lembrei-me, ao buscar links e sites, que uma vez, quando criança, mordi um pedaço de sabão. Na verdade, de sabonete. Em formato de coração, era tão bonito, macio e cheiroso que não resisti: arrisquei uma mordidinha para descobrir que gosto tinha. A decepção foi imediata, pois o treco tinha gosto de nada e de tudo. Lavei correndo e fiquei com a boca cheia de espuma, quase raivosa.
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Gosto de ditados populares. Quase sempre são divertidos e/ou pertinentes a muitas situações reais e cotidianas. Na tradição oral, creio que vários deles acabaram sendo modificados com o passar do tempo, enquanto outros ainda são reproduzidos de forma errada, mas que, pelo uso, acabaram como versões consolidadas.
O que a maior parte das pessoas desconhece, inclusive eu, é a origem dos ditos populares. Apenas vamos reproduzindo-os, sem ideia do contexto no qual surgiram. Dia desses, enquanto comprava legumes na feira livre perto de casa, escutei uma conversa entre dois feirantes. “Ah, vai plantar batatas!”, disse um respondendo certa provocação feita pelo outro.
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Alguns talvez considerem como alienação, outros, no entanto, podem entender meu ponto de vista, mas tenho evitado, desde o início da pandemia, assistir aos noticiários de televisão e, de forma geral, as notícias mais alarmantes. Não quero com isso afirmar que esteja alheia aos acontecimentos ou que não me importe com o que se passa. Em verdade é exatamente o contrário. Atualizo-me todos os dias, de modo rápido, mas não me sinto capaz de mais do que isso.
Em 2020 era o terror pelo desconhecido, o medo e a tristeza das perdas. Quisera isso tivesse ficado no passado, entretanto. Nesse ano, além de tudo isso, permanecem as outras mazelas do mundo, acrescidas de mais e mais fatos horríveis. Claro que houve e há boas coisas também, pois sem elas seria impossível prosseguir, mas por vezes sinto que a maldade e a vilania ganham cada vez mais espaço, sufocando o bem que tenta sobreviver.
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A quantidade de lixo pelas ruas das cidades, sobretudo em uma cidade grande como São Paulo. Pelas ruas se encontra todo tipo de descarte. Parece-me que grande parte das pessoas simplesmente não se importa. Jogam lixo pela rua como se as coisas fossem ser absorvidas pelo concreto ou pudessem desaparecer como mágica.
Sempre que posso, ao menos na rua onde vivo, recolho uma infinidade de coisas que as pessoas descartam. Tampinhas, copos, garrafas, papel, anúncios de propaganda e restos de comida. Sei de algumas pessoas no bairro que fazem o mesmo. O restante fica para a Prefeitura recolher, mas é como enxugar gelo, já que todos os dias há mais e mais.
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A existência dos animais, humanos e não humanos, é marcada pela imprevisão, pela ausência de controle. Ilude-se quem acreditar no contrário. Nossos planos são meros rascunhos feitos a lápis, os quais o destino rasura e apaga quando bem lhe apraz. Não quero e não vou adentrar na discussão sobre o Divino, sobre se há ou não alguma razão para o que nos acontece, para as trilhas que somos, muitas vezes, obrigados a trilhar. Vou me restringir, assim, à experiência dos nossos dias.
Em família temos já uma tradição, depois de várias situações imprevistas, de não fazermos muitos planos. Muitas foram as vezes nas quais um dia ou dois antes de nos reunirmos, antes de alguma viagem marcada, que tivemos que reajustar nossas velas. Ou era uma das crianças doentes, ou meus pais, ou nós mesmos. Outras vezes, nossos animais de estimação precisavam de nossa atenção imediata.
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Uma de minhas frutas preferidas, nativa do Brasil, o maracujá é chamado de passion fruit em inglês. Tem esse nome porque suas flores são conhecidas como “Flor da Paixão”, a Paixão de Cristo. Assim, ele é o fruto da paixão. Em tupi, maracujá quer dizer alimento dentro da cuia. Seu nome científico é passiflora edulis. Aqui em casa é sinônimo de calmante e de comida de lagarta.
Nem sei precisar de quando vem essa fixação, mas sou apaixonada pela flor do maracujá. Na chácara da minha infância colhíamos maracujás quase o ano inteiro. Depois disso, tentei por várias vezes, sem sucesso cultivá-los. As sementes germinavam, as plantas nasciam e cresciam, mas as folhas logo eram atacadas por implacáveis lagartas que em poucos dias deixavam só os talos.
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Eu já dormia, cansada depois de um intenso dia de trabalho. Meu marido ouviu o que parecia uma briga de gatos, já passado das duas da manhã. Como o barulho vinha de fora e nossos felinos não têm acesso à rua, ele não deu muita importância. Em nosso quarteirão há muitas casas com gatos, mas quase todos são impedidos de sair por telas colocadas nos muros e janelas. Um ou outro, no entanto, burla as barreiras e faz excursões noturnas, quando a rua está silenciosa e calma.
Muitos moradores colocam comida para os vários pássaros que voam livres pelos arredores. Apesar do descaso de alguns, o bairro é razoavelmente arborizado, com praças e parques próximos. A existência de árvores como pitangueiras, amoreiras, ameixeiras e outras frutíferas colabora para que muitas espécies de aves tenham ninhos nas redondezas.
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E por fim chegou a minha vez de tomar a segunda dose da vacina contra a COVID-19. Fiquei muito mais ansiosa e tensa na primeira dose. Em verdade até me emocionei na época. Uma sensação de quem sobreviveu para ter aquela chance, aquele respiro em meio ao turbilhão de pessoas doentes e morrendo.
A vacina que tomei não me deu efeitos colaterais, ao menos não os visíveis. Somente uma leve dor no braço. Não mudei em nada minha vida, contudo, depois da primeira dose. Continuei saindo pouco de casa e apenas o tanto quanto necessário, com as cautelas necessárias.
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Anos atrás minha gata Chica Maria trouxe, por duas vezes, para dentro de casa, um morceguinho. Segurado pela boca, mas de modo sutil, o animalzinho se livrou dela duas vezes, fazendo rasantes pela casa. Depois de algum pânico, conseguimos devolver o mamífero alado à natureza e nunca deixei de pensar que talvez ele estivesse envolvido sentimentalmente com a gata e que eu, sem querer, estava impedindo a consumação daquele amor.
O fato é que não voltei a ver outro morcego por aqui até semana passada. Temos uma pequena área aberta no quintal e lá coloco néctar para os beija-flores. Tenho o cuidado de colocar mistura própria para eles, que dura apenas um dia, não fermentando para colocar essas e outras aves em risco. Muitos são, entretanto, os consumidores da iguaria. As primeiras a aparecer são as abelhas, seguidas das pequeninas cambacicas e, por óbvio, os maravilhosos beija-flores.
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Quando nos mudamos para cá, há treze anos, para nossa casinha em um bairro residencial de São Paulo, logo notei o pequeno ipê na calçada em frente. Conversando com o antigo morador soube se tratar do amarelo. Disse a ele que essa era uma de minhas árvores favoritas, mas já fui advertida para não esperar por muitas flores.
Contando um pouco sobre a árvore, relatou-nos que embora pequena, a árvore já tinha mais de quarenta anos. Mirradinha, não se sabia o motivo, nunca dava muitas flores, ao contrário de tantos outros ipês amarelos da vizinhança. Determinados a mudar essa situação, por vários anos vertemos aos pés dela todo tipo de adubos, mas, a despeito de nossos esforços, as flores continuaram raras.
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Ela chegou em casa há poucas semanas, enfim. Tentamos arrumar um local para acomodá-la de forma adequada, como merece. Com mais de cem anos, embora ainda esteja conservada, é delicada na essência, frágil pelo tempo que carrega. Aqui não dispomos de muito espaço, mas após algumas mudanças e adaptações, foi possível recebê-la.
Olho para ela todos os dias, sobretudo pelas manhãs e fico tentando imaginar as memórias que carrega, as muitas histórias que protagonizou e os tantos fatos que por certo presenciou. Nada pode, entretanto, contar-me. Calada, altiva, permanece guardiã sigilosa de retalhos de vidas alheias.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Não tenho lembranças de outro mês de agosto em que tenha feito tanto frio. Em tempos de pandemia tudo parece mesmo fora de lugar. Os dias ventosos e secos foram substituídos por semanas bem geladas, em mais uma das inversões dos últimos anos. Os Ipês, talvez por revolta, talvez por agradecimento, floresceram mais cedo, forrando as ruas e calçadas com flores amarelas, rosas e brancas, em uma antecipação de setembro.
Sempre ouvi dizer que agosto é o mês do cachorro louco e nunca soube exatamente o que isso significava. Parecia-me que era uma forma de dizer que em agosto as coisas tendiam a dar errado, a se complicarem, como se fosse um mês mais difícil do que os demais. Quando era criança pensava que nesse período os cães eram tomados de alguma fúria em especial.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Com a intenção de propiciar alimentação de melhor qualidade nutricional para minhas cachorras, após a orientação de um veterinário especializado, substituí a ração pela comida natural. O processo não foi tão simples como eu um dia supus, mas menos complicado do que poderia ser. Trabalhoso, entretanto.
No ano passado, por conta própria, tentei substituir o sachê industrializado que elas comiam por carne de frango. Troquei de um dia para o outro, sem qualquer adaptação e o resultado foi uma horrível diarreia que durou uns três dias. Naquela época concluí, erroneamente, que elas não se adaptavam à comida natural.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quase ninguém mais revela as fotos que tira. Praticamente nem é mais preciso ou útil fazer isso. Câmeras fotográficas viraram equipamentos reservados a profissionais. Os amadores preferem as duplas ou triplas câmeras dos aparelhos de telefone mais modernos. Tem gente, desconfio, que sequer usa telefone para falar com alguém. Hoje em dia, sonho de consumo é ter um celular com memória suficiente para as muitas milhares de fotos que se vai acumulando.
Houve uma época em que surgiu um porta-retratos dinâmico, no qual as fotos digitais ficavam mudando a cada grupo de segundos. Não vi em muitas casas, contudo. Acho que a moda não pegou. Nem sei direito a razão. Eu achei legal, embora na época do lançamento fosse meio caro para uma coisa que só fazia isso. Em tempos de multimídias, todos querem mais funcionalidades.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Esse inverno tem sido especialmente gelado. Nem me lembro de outro mês de julho tão marcado por temperaturas baixas, clima seco e de ventos gelados nos últimos anos. Não sendo uma admiradora do frio, admito que é mais fácil suportá-lo trabalhando em sistema de home office.
Embora não seja a expressão da elegância ficar em casa de pijamas, meias e touca, bem melhor trabalhar assim do que ser obrigada a acordar cedinho e sair por aí parecendo uma bola com pés e cabeça. Nesses tempos pandêmicos, se for necessário aparecer em alguma câmera, basta dar uma penteada nos cabelos e fazer uso de um pouco de batom.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A imagem choca. São dezenas de barracas armadas lado a lado. Cobertores populares estão por todos os lados, vezes dobrados cuidadosamente, vezes embolados e jogados pelas calçadas.
O cheiro em geral é forte, um misto de sujeira, bebida e cigarro. Embora haja mulheres, a maioria das barracas está ocupada por homens e muitos são os cachorros, vira-latas quase sempre de porte médio, que os acompanham fielmente.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Que o tempo parece estar passando mais rápido, isso não tenho dúvidas, ainda que não possa explicar o fenômeno em termos científicos. Piscamos e lá se foi mais um dia, mais uma semana, meses, anos. O curioso é que as pessoas parecem estar cada vez mais em busca de celeridade. Tudo deve ser rápido, instantâneo.
Fácil percebermos isso em muitas coisas. O tempo é curto e há muito a se fazer ou é preciso mais tempo livre para não fazer nada? De fato não sei. Parece-me apenas que sobretudo os mais jovens perderam a capacidade de concentração, de fidelizar-se a algo por mais do que alguns minutos.
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“Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos” – Clarice Lispector
Todos agora usam máscaras. Ou melhor, quase todos. Alguns se recusam e pronto. Nada os convence da necessidade, da proteção conferida por ela. Fora a questão da saúde, as máscaras permitem uma estranha liberdade. Ninguém mais é obrigado a dar sorrisos forçados. Dá até para mostrar a língua, por exemplo, algo antes impensável em lugares públicos.
O Seu Zé da Feira, homem de aparência bruta, mas de percepções delicadas, distribui piadas a todos que se achegam de sua barraca de batatas. Com voz alegre, tem o sorriso intuído. Gosta de fazer gracinhas e por certo como estratégia de vendas, chama todas as mulheres de moça, agradando as menininhas e as nem tão meninas.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Após diversos adiamentos chegou enfim a data tão esperada. O primeiro ônibus espacial de turismo com destino à Lua partiria em poucas horas. Sem dúvida um marco histórico e com ampla cobertura internacional. Havia semanas não se falava sobre outro assunto e, sendo uma das viajantes, eu estava ansiosa, sem dormir há várias noites.
No total seríamos em cinquenta passageiros, além de cinco tripulantes. Por conta da Lei internacional de Igualdades aprovada no ano de 2.040, depois do efetivo controle da pandemia mundial causada pela Covid-26, deveria haver um número igual de passageiros por continente e a reserva de 10% dos lugares a pessoas sem recursos financeiros, sorteados entre a população de países menos desenvolvidos.
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No texto passado contei sobre o resgate que fiz de dois filhotes de sabiá laranjeira. Embora eu realmente me compadecesse dos pais que estavam pelas redondezas, estava certa de que sem conseguirem voltar ao ninho, morreriam de frio ou caçados pelos gatos que perambulam pela nossa rua durante a noite.
Contudo, depois de colocá-los em uma gaiola para evitar que fossem capturados pelos meus próprios gatos e cachorras, busquei alimentá-los com uma mistura especial através de uma seringa. Nada muito fácil, mas possível. Longe, contudo, de ser o melhor cenário para duas aves filhotes. Eu sabia que se ficassem comigo por muito tempo acabariam se tornando dependentes e talvez sequer fossem capazes de voltar à liberdade, de sobreviverem sozinhos.
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Normalmente escrevo minhas crônicas semanais às quintas-feiras, pois às sextas eu preciso enviar meu texto para os jornais nos quais publico. Assim, nas noites de quarta já estou pensando sobre o que escrever, para ir amadurecendo as ideias. Nessa quinta, entretanto, eu ainda não sabia sobre o que escrever quando o dia amanheceu, mas a vida deu um jeito nisso.
No meio da tarde resolvi sair para dar uma volta com as minhas cachorras. Um passeio curto para o bem delas e meu. Logo na saída, antes de virar a primeira esquina, notei uma avezinha no parapeito de uma janela. Vi que se tratava de um filhote de Sabiá Laranjeira, ave muito comum na região onde vivo. Muitos deles, inclusive, alimentam-se das frutas que coloco na sacada e que são disputadas com as maritacas, azulões, pombinhas e a galera da Edileuza (pomba que apresentei ou texto).
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Nessa semana completei quase um mês sem consumir qualquer tipo de carne. Embora eu já viesse reduzindo progressivamente o consumo há alguns anos, ainda comia peixes e frango. Para ser honesta nem sinto falta, apenas ainda não consegui criar um cardápio variado, nutritivo e saboroso como eu gostaria. Ovos mexidos, cozidos, fritos e omeletes tem sido os grandes protagonistas das minhas refeições.
Às sextas, dia em que vou até a feira livre que ocorre há menos de cem metros de minha casa, tenho comprado ao menos uma dúzia de ovos. Prefiro os caipiras, seja pelo sabor, seja pela esperança que tenho de que venham de galinhas criadas livres. São ovos de tamanhos irregulares e menores do que os de granja, mas também com cascas mais firmes e brilhantes.
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Desde o começo da pandemia tenho lido tantas reflexões sobre as muitas mudanças que ela trouxe à vida das pessoas. Eu mesma, em outros momentos, já arrisquei algumas linhas sobre o tema, algumas mais leves, mais otimistas, outras nem tanto, eis que tomadas pela emoção das irreparáveis perdas.
Ainda que o vírus tenha alterado, ao meu sentir, para sempre, a vida de todos nós, no mundo inteiro, em tantos sensíveis aspectos, acredito que as mudanças tenham impactos diferentes para cada um, conforme tenham sido especialmente afetados. Há lutos a serem vividos e a sobreviver, empregos a se reconquistar, sonhos a acharem par. Cada qual tem um caminho novo a percorrer, de um jeito ou de outro.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Em meu texto passado contei sobre a triste descoberta acerca de uma doença terrível, autoimune, que praticamente condenara uma de minhas cachorrinhas, a Gigi. Superado um luto inicial, comecei a procurar outras informações, tentando conectar pessoas cujos animais apresentassem o mesmo problema. Fui atrás de terapia quântica, homeopatia, reiki e ajuda espiritual. Tudo para que, ao menos ela pudesse ter os próximos poucos anos estimados, com qualidade de vida.
Na rede social Instagram localizei perfis de duas tutoras e seus cachorrinhos. Mandei mensagem e ambas me responderam rapidamente. De acordo com uma delas, a cachorrinha se encontra em tratamento, mas sem o quimioterápico que foi sugerido pela profissional que atendeu minha Gigi. Já a outra me enviou mensagem dizendo que o cachorrinho havia recebido diagnóstico errado e me pedia para contatá-la.
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Até alguns dias atrás eu não fazia a menor ideia do que significava a sigla MEG, muito menos de que a doença por ela nominada iria fazer parte do meu cotidiano. Embora seja bem clichê, a vida reserva surpresas e nem todas são boas. Em tempos de notícias dolorosas, acrescentei uma que jamais me passara pela cabeça.
Em novembro do ano passado nossa cachorrinha Gigi, então com um ano de vida, apresentou crises epiléticas e precisou ser hospitalizada por um dia. O episódio me assustou e consumiu, custando-me muitas horas e muitos recursos financeiros. Fizemos exames que não apontaram nada em específico e as crises cessaram, seguindo a vida sem maiores alterações nessa área.
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Penso que algumas coisas, certas obsessões nascem conosco. Assim, desde bebês manifestamos preferência por determinado alimento, por exemplo, enquanto parecemos abominar outros.
Talvez seja possível explicar isso através da ciência, da psicologia ou mesmo da religião. Pode ser, inclusive, que nunca tenhamos certezas nesse ponto. Fato é que, de minha parte, reconheço que trouxe comigo, sabe-se lá de onde, paixões bem definidas.
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Curiosamente, mas não de forma deliberada, meu texto anterior tratou da situação das inúmeras árvores exterminadas quase diariamente para dar lugar ao cinza dos prédios que vem transformando a paisagem do bairro onde moro. Por infelicidade, nessa semana passamos, na rua de casa, por episódio semelhante.
Quando nos mudamos para cá a rua, que tem apenas um quarteirão, era bem arborizada. Até frutíferas havia. Um lindo pé de abacateiro em uma das esquinas, fornecia frutos a qualquer um que se dispusesse a pegá-los. Na outra esquina, um pé de laranja florescia e frutificava, enchendo de perfume e cores o lugar.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Há tempos assumi que vários de meus posicionamentos não agradam e, nessa altura da minha vida, aprendi a não me importar com isso. Claro que busco respeitar as opiniões alheias e mantenho a urbanidade diante do que me incomoda. Contudo, em relação a algumas causas não abro todas as exceções.
Acredito que as pessoas nascem, em regra, como algumas paixões, com certos vínculos e aptidões que podem ou não desenvolver ao decorrer da vida. O amor pelas plantas e pelos animais me acompanha desde sempre. Talvez venha de outras vidas, para quem acredita, ou, de acordo com outras teorias, esteja impresso em meu DNA, na longa corrente hereditária dos meus antepassados.