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- Escrito por: Cinthya Nunes
Exibido em 1993, o filme Um Dia de Fúria, estrelado pelo excelente Michael Douglas, mostra um dia na vida de um homem perturbado emocionalmente que segue eliminando todos que se colocam no caminho dele. Curioso como alguns filmes e livros marcam nossa memória. Eu, que sou péssima para memorizar títulos, inclusive de livros, por alguma razão nunca me esqueci desse.
Resguardadas as proporções e, claro, a licença poética de um filme que exagera nos fatos (ou não?), creio que a produção tenha como um dos propósitos o de demarcar as fronteiras insólitas entre a sanidade e a insanidade nossa de cada dia. Não raro, inclusive, há notícias sobre pessoas que, rompendo uma aparente e habitual normalidade, explodem em rompantes de violência e vingança. Outras pessoas implodem e fazem a mesma coisa.
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Andando pelas ruas do meu bairro, sigo admirando os muitos ipês que todos os anos dão espetáculos de cores. Bem na rua de casa há um enorme, rosa, que inclusive já foi personagem central de vários textos meus. Na rua de cima, mas no mesmo quarteirão, há dois brancos que costumavam forrar a rua, vestindo-a de noiva, mas que depois de sofrerem uma poda mais radical, embora tenham florescido, ressentiram-se.
Sempre que saio para os curtos e diários passeios com as cachorras nesta época do ano, vou conferindo quais as árvores que mais floresceram. As mais jovens, plantadas há pouco tempo, ainda ensaiam as primeiras floradas, com promessas de futuros bem coloridos. Outros, mais velhos e imponentes, espalham suas flores e sementes de forma abundante, generosa. A árvore de frente a nossa casa, um velho e mirrado ipê amarelo, esforça-se todos os anos para dar algum colorido aos galhos retorcidos e finos, sem muito sucesso.
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Dia desses participei de uma conversa entre professores de Direito, na Universidade em que leciono, para tratarmos de aspectos jurídicos da Inteligência Artificial. Como gosto de tecnologia, já vinha estudando algumas interfaces, mas nada ainda aprofundado. Dei minha pequena contribuição, mas o que ouvi dos meus colegas, confesso, tirou-me ao menos uma noite de sono.
Descobri que a chamada inteligência artificial pode ser do tipo generativa, quando através de conexões assemelhadas àquelas que nosso cérebro faz, vai aprendendo e evoluindo.
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Certa vez uma mulher encontrou a Mentira presa em uma pequena gaiola dourada e mágica. A Verdade, sua meia-irmã, a havia deixado lá, cansada de tanto ser enganada.
A mentira, ardilosa que ela só, tratou de contar uma lorota, implorando para ser libertada. Sabia ser sedutora e usar as palavras certas. Às vezes as pessoas ouvem apenas o que querem.
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Nascido em uma família muito humilde, o menino aprendeu desde muito cedo que de um dia para outro tudo pode mudar. Num instante se tem dinheiro, status social e, no outro, é preciso vender o pão para comprar a farinha que dará lugar ao pão do dia seguinte.
Filho de pais com pouquíssima instrução formal, o menino se transformou no rapaz que usava à quase exaustão o sabonete que desejava fosse perfume. Flertou com a Igreja até o pai lhe explicou o que era celibato. Bom dançarino, contador de histórias, conquistou muitos amigos e logo foi parar no teatro amador, cuja carreira promissora foi trocada pela decisão de constituir uma família.
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Quem escreve nunca sabe ao certo como e se irá tocar as emoções de outras pessoas. O desejo da grande maioria dos escritores, penso eu, é que seus textos sejam lidos. Mesmo que o ato de escrever, em si, seja solitário e tenha por destinatário inicial o próprio escritor, não há escrita que faça sentido na ausência de leitores.
Admito que não me lembro mais de todos os textos que escrevi durante esses mais de vinte e três anos como cronista, mas guardo no melhor lugar de mim as mensagens que recebi ao longo do mesmo período, enviadas por pessoas que os leram.
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A árvore mais parece um ramalhete rosa choque em contraste com o azul do céu. Eu não me canso de admirar o imenso ipê rosa que reina absoluto sobre a rua onde moro. As flores, abundantes, enfeitam o ar em vida e, na morte, colorem o chão, amenizando a feiúra do asfalto.
É inverno, ainda que o frio, neste ano, não esteja muito seguro de si. Vacilante, mal deu as caras. A natureza não segue calendários humanos; somente respira no mesmo ritmo do planeta, no desejo de sobreviver apesar da humanidade. Não há ainda muitas flores, à exceção dos ipês que estão por quase todos os lugares.
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Padarias são lugares afetivos para mim. Assim como fazendas. Na minha infância, esses dois lugares significam família. Passei a infância dividida entre correr descalça pela terra, procurando ninhos e ovos e observar o feitio do pão. De um jeito ou de outro, tudo terminava com bolos de fubá com goiabada ou sonhos com café coado no coador de pano. Sinto saudades, daquelas irremediáveis.
Assim, enquanto não há viagens no tempo, exceto aquelas que fazemos através dos nossos sentimentos, já que não tenho uma fazenda por perto, resgato essas memórias com aquilo que tenho a mão. Não é à toa que vivo cercada de todo tipo de plantas que consigo fazer crescer em vasos e que quase sempre há um pão quente, recém-saído do forno daqui de casa.
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Gosto muito de tirar fotos, hábito que herdei dos meus pais. Desde sempre tivemos máquinas fotográficas em casa, naquele tempo jurássico antes dos celulares e suas câmeras potentes. Naqueles tempos uma boa foto só era conseguida por um golpe de sorte ou porque algum profissional a produzira. Quantas vezes, ao revelarmos as fotos, processo que talvez os mais jovens sequer saibam do que se trata, poucas eram dignas de serem colocadas nos álbuns.
De lá para cá, ainda que as câmeras fotográficas continuem existindo, a maior parte dos fotógrafos amadores faz uso é das câmeras de seus telefones celulares. Hoje é possível testar inúmeras vezes os melhores ângulos, bem como descartar com um clique e sem custos, as dezenas de imagens que não saem como se deseja.
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Perdi uma amiga recentemente. Quase minha vizinha. Passado o susto inicial, embora a tristeza seja uma constante, a família precisou tomar as providências para desocupar o imóvel onde ela morava sozinha, pois era alugado.
Esse especialmente é um dos momentos que considero mais tristes do final de uma existência: o inventário das pequenas coisas. Como advogada sou acostumada com os trâmites legais relativos aos bens de maior valor que as pessoas deixam. Providências legais que precisam ser tomadas, eis que não se leva nada físico deste mundo. Não é a isso que me refiro.
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Aqueles gritinhos soavam meio humanos, mas também pareciam ser de uma ave, mais precisamente o som emitido por papagaios. Fui até a sacada de casa, já com as habituais frutas que coloco à disposição todas as manhãs para as dezenas de maritacas, minhas visitantes constantes, quando ouço a algazarra novamente. Estiquei os olhos e vi, com espanto e alegria, que no telhado da casa da frente, dois papagaios brincavam e conversavam, empoleirados em uma antena.
Encantada, fiquei observando os dois, que me pareceram ser um casal. Depois de conversarem lá na língua deles, foram embora, rasgando o céu de uma manhã nublada e gelada. Seria possível que em plena cidade de São Paulo essas aves tão caçadas, aprisionadas e traficadas vivam livremente? Após as primas menores, as maritacas, devorarem em poucos minutos todas as frutas, tratei de fazer uma busca no google, aquele que tudo sabe.
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Há poucos dias conversávamos sobre a vida, sobre receios do futuro, sobre planos. Trocávamos tintas, cursos online, piadas, reflexões, desabafos e todo tipo de conversa no nosso grupo de três amigas. Uma amizade que surgiu ao acaso, formada pelo fato de sermos vizinhas, moradoras de uma rua de um único quarteirão, na zona sul de São Paulo.
Tivemos nossas diferenças, é claro. Até porque onde há pessoas há divergências. Mas no mais das vezes éramos risadas e cumplicidade, tal qual um grupo de apoio recíproco, cada uma com seus problemas, suas trajetórias de vida, mas sempre sobrando um ombro para suportar o peso alheio.
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Para o escritor holandês Arthur Schendel “a única amizade que vale é a que nasceu sem razão”. Não sei se concordo por completo, mas é incrível como algumas amizades realmente surgem onde menos supomos e como acham caminhos para chegar até nós. Em minha vida tive a alegria de alguns encontros desses, inesperados, de amizades não prováveis ou pensadas, mas que assumiram lugares importantes, indispensáveis.
Hoje mesmo, mudei o tema deste texto por conta de uma amizade dessas. Desde o início da semana eu tinha um assunto em mente, nascido de uma conversa com alunos, em sala de aula. Aliás, perdi as contas de quantos amigos a vida me presentou através do magistério. Nem tenho como nomeá-los aqui, porque nesse espaço não cabe o meu coração e muito menos as histórias que com eles vivi e sigo vivendo.
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—Pode passar na nossa frente. Fica à vontade.
O caixa não era preferencial, mas foi natural cedermos a vez ao homem idoso, de constituição um pouco frágil, que levava nas mãos um vaso de orquídeas amarelas embrulhado em papel de presente.
Por duas vezes ele recusou a gentileza, com um sorriso e um gesto para que retomássemos nosso lugar, mas na terceira, após insistirmos, ele gentilmente aceitou.
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Ela estava miando alto, lá na cozinha, daquele jeito que ela mia quando traz alguma coisa para dentro de casa. A Nina, uma de minhas gatas, frajola marombada que, segundo consta, é mestiça de uma raça de gato gigante, o Maine Coon. A aparência geral e o comportamento correspondem, mas como foi resgatada ainda muito filhote, supostamente de uma criadora ilegal, não temos exatamente como saber. Para nós é uma gigante nanica e ponto final.
Além de tudo é meu grude, aliás, junto com a outra gata frajola, a Chica, e a cachorra preta e branca, a Gigi. Para uma família de Corintianos não fanáticos isso é até engraçado. Para que vocês, leitores, tenham uma ideia do que estou falando, neste exato momento em que escrevo, Gigi e Nina estão no meu colo, uma de cada lado. Gigi porque é uma cachorra que acha que é gente e a Nina, uma gata que acha que é cachorra.
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Eu devia ter cerca de seis ou sete anos quando uma de minhas tias-avós, a Morena, como era conhecida, ensinou-me alguns pontos de bordado livre. Com agulha, linha e um pequeno bastidor, bordei em amarelo as minhas primeiras linhas. Dois anos depois eu me encontrei no tricô e no crochê, hobbys que venho cultivando desde então, deixando o bordado de lado.Quando me mudei para São Paulo, vinda do interior do estado, vendo os lindos trabalhos que a secretaria do escritório em que eu trabalhava bordava em ponto cruz, comprei linhas, tecidos, agulhas e me aventurei novamente, encantada com as formas que iam surgindo através da teia de linhas cruzadas com rigor.
Alguns anos mais tarde, aqui mesmo, na capital paulista, participei de workshops de bordado livre e, para minha surpresa, as salas estavam sempre cheias de alunas jovens, todas empolgadas com suas caixinhas de meadas, tesourinhas especiais e ideias de temas variados. Percebi, já naquela época, coisa de uns doze anos atrás, que tudo na vida é cíclico, inclusive o gosto pelas diversas expressões artísticas.
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Mal o cheiro de pipoca estourando invade a cozinha e ela já se aproxima, mesmo sem ser chamada. Fica por ali, esperando que eu separe a porção dela, sem sal ou outro tempero. Não seria nada demais se a criatura em questão não fosse a Gigi, uma de minhas cachorras. Assim como os humanos da casa, ela é fissurada por pipoca. Bastou que experimentasse uma que pulou, fugitiva, da panela, e nunca mais conseguimos comer pipoca sem que ela ficasse com cara de pidona, com olhar fixo para nossas vasilhas.
Depois de me certificar com o veterinário de que não teria problemas ela comer uma pequena porção uma vez ou outra, já virou rotina o ato de separarmos uma parte, antes de temperar a nossa. Em uma casa de pessoas que amam pipoca, faz todo sentido uma cachorra com a mesma predileção. Ou não faz sentido algum. O fato é gostamos muito de pipoca e milho aqui é gênero de primeira necessidade.
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E às vezes tudo era silêncio. Não aquele tipo de silêncio que é o avesso do barulho, mas o que representa o vazio, a ausência de palavras e de sentimentos. Naqueles momentos ela se deixava estar, parada na mesma velha cadeira de balanço, com os olhos fixos na fotografia amarelada, na imagem presa na moldura já desgastada.
Desde que o filho único partira, meses atrás, ela também se fora, embora tenha ficado. Eram somente os dois havia tempos. Na rotina das horas que agora pareciam curtas demais, ela preparava o café e o pão com manteiga como ele gostava. Planejava os almoços da semana, dando-se ao luxo de algo melhor para os domingos.
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Nem sei ao certo quantos textos já escrevi sobre o sabiá laranjeira, essa ave cantora e símbolo do Brasil. Inspirou compositores e poetas que o eternizaram e o tornaram famoso. E continua sendo fonte de inspiração. Eu mesma, todos os anos dedico ao menos uma crônica para a majestade alada.
Não é uma ave que ostente beleza ímpar, entretanto, vestido de penas marrons e alaranjadas, cor de ferrugem. Parece feito de barro, com olhos meio arregalados, atentos. Notável pelo canto longo, melancólico, aflautado, canta como quem chora de alegria ou ri de tristeza. Seu canto alcança incríveis 70 decibéis e pode ser ouvido em até um quilômetro de distância.
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Antigamente era coisa importante a gente saber qual o talher adequado para se comer determinado alimento ou em que copo tomar cada tipo de bebida. Neste quesito sempre fui uma negação e, creio, a essa altura da vida, devo continuar ignorando tudo isso lindamente. Talvez em certos meios sociais esse conhecimento tenha relevo, mas sendo franca, não me importa muito.
Por outro lado, viver em sociedade requer a adoção de algumas convenções, de regras mínimas para uma convivência civilizada. Do jeito que as coisas são, pode ser que um dia até mesmo pequenas gentilezas como pedir licença e agradecimentos fiquem fora de moda, mas, por ora, ainda demonstram educação e habilidade social.
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A menina, descalça, com os pés encardidos, brinca de pular a sujeira que há na sarjeta. Na calçada, as divisórias do concreto se travestem de amarelinha, mas o céu não se avista nem com os olhos da inocência que lhe resta. Em volta há outras crianças, todas igualmente imundas e maltrapilhas.
Cachorros sem raça definida, de grande porte, amarelos, pretos e rajados dividem a comida que se avista pelo chão ou em vasilhas abertas, expostas às moscas. São animais cujo tamanho sela o destino e a fome. São vigília, afago, companhia e solidão. Um gato ou outro igualmente se vê em meio ao caos, seguros por coleiras que os protegem da falsa liberdade.
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Ele apareceu do nada. Ao menos que eu saiba. Em pleno feriado de Páscoa e ele estava ali na frente de casa, mais especificamente na janela da sala. Enorme, cor de caramelo, o caramujo parecia um personagem de livro infantil, daqueles ilustrados. Particularmente, acho bonitos, parecidos com seres de outros mundos.
Olhei para todos os lados, no desejo de saber se ele estaria sozinho ou acompanhado de outros da mesma espécie, mas em princípio era uma criatura solitária, do tipo que carrega a casa nas costas. Tirei fotos para registrar o inusitado dele ter aparecido aqui, nesta rua sem terra ou jardins, repletas de casinhas antigas. Como gosto de dar nomes a quase tudo e na impossibilidade de conferir meu acerto, eu o chamei de Tenório. Algum motivo para isso? Na verdade, nenhum. Apenas ele tinha uma carinha boa de Tenório e assim ficou.
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Para a tradição Cristã, dentro dos meus parcos conhecimentos sobre o assunto, Páscoa é tempo de renascimento, de reinício. De origem hebraica, a palavra Páscoa (Pessach) significa passagem. Em termos festivos, no Brasil, é tempo das pessoas se reunirem em família ou entre amigos, aproveitando o descanso do feriado para confraternizações e alimentos especialmente preparados para a data, conforme as tradições religiosas, familiares e culturais de cada grupo.
A vida em sociedade é formada por uma teia muito complexa, ainda não desvendada por completo. Aliás, suspeito, nem minimamente. Fato é que por mais que eu leia e estude sobre o assunto, não consigo entender o que leva as pessoas a cometer barbaridades, a praticar crueldades contra animais, contra outros seres humanos, especialmente contra crianças.
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—Que cores você vê quando olha para cima, para o céu?
—Azul? Cinza? Sei lá.
—Quase isso! Parece cinza, mas é um cinza ótico, formado por várias outras cores que, juntas, formam esse tom. Mas olha direito que você ainda é capaz de encontrar essas outras cores lá no meio.
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Quando ela chegasse traria biscoito com mel, certeza. Não falhava nunca e ela sabia qual era o mais gostoso. Aqueles com buraquinho no meio eram os melhores, mas o mel escorria por ali. Mamãe sabe dos meus gostos e trará os quadradinhos, perfeitos no sabor também. Ela estava demorando um pouco para vir dessa vez. Preferia não chorar na frente dela, mas às vezes não conseguia ser sempre um bom menino.
Assim que Helena entrou no quarto, a passos lentos e cansados, carregando a velha bolsa com biscoitos, o sorriso de João se abriu, sem dentes. Era até engraçado vê-lo esticar os braços na direção dela, incapaz de sair da cadeira de rodas, pedindo colo, mas aquela imagem só despertava nela uma tristeza imensa.
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Tomei um susto enorme ao vê-la ali no chão, inerte, enorme. A ratazana jazia ao lado de uma das composteiras da praça. Marrom e cinza, parecia morta havia poucas horas, talvez na noite anterior. Minha primeira reação foi de asco, porque somos criados sob o conceito de que os ratos urbanos são sujos e transmitem doenças. Classificados como pragas, devem ser exterminados.
Não estou afirmando que devemos colocar os ratos para dentro de nossas casas, tampouco que não haja questões de saúde publica envolvidas, mas não consigo deixar de pensar que é paradoxal que os ratinhos de desenhos sejam tão adorados no universo infantil, haja vista o símbolo do maior e mais famoso parque de diversões do mundo, mas que sejam presenças reais tão abomináveis.
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Coleciono manias. Todas inofensivas, entretanto. Ao menos, creio, a quase totalidade delas. Entre outras coisas, gosto de guardar as sementes das frutas que como. Separo, deixo secar por algum tempo e depois espalho por aí. A maior parte, vou enfiando nos vasos que lotam meu pouco espaço aberto.
Aprendi com meus avós a identificar muitas plantas pelo cheiro de suas folhas ligeiramente maceradas. As mais comuns eu conheço pelo formato do tronco e das folhas, como mangueiras, ameixeiras, pitangueiras, amoreiras, limoeiros, laranjeiras etc. Vez ou outra, no entanto, fico com dúvidas sobre a natureza do que nasce nos vasos, porque os pássaros também semeiam por essas bandas, como o trigo sarraceno que apareceu sabe-se-lá-de-onde.
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Sempre me prometi que não seria daquelas mulheres que escondem a idade, mas a cada virada de década fui tomada por diferentes sentimentos. Quando trintei, ao me tornar balzaquiana, vivi os pequenos conflitos de deixar a tenra juventude, de dizer adeus aos dourados e promissores vinte. Ao fazer quarenta anos, fiquei inconformada por estar na chamada meia idade, uma espécie de limbo onde ficam todos que não são mais considerados jovens, mas ainda não são velhos. Como disse um comediante, uma semi-velha.
Embora eu viva sob o mantra de que habitarei esse mundo por muito tempo, nunca realizei que um dia faria cinquenta anos. Era como aqueles momentos que pensamos jamais se concretizarem para além do futuro, num tempo de porvir eterno. Até ontem eram os meus pais, meus professores e amigos mais velhos que eram cinquentões, mas a roda girou e, cinco piscadelas depois, chegou a minha vez.
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Considero-me uma tia realizada. Minhas irmãs me proporcionam a alegria de conviver com quatro sobrinhos maravilhosos, protagonistas de momentos hilários e emocionantes da minha vida. Coleciono fotos de todos os sorrisos e caretas que posso captar nos momentos em que estamos juntos. Graças a eles e a uma quase (?) obsessão que tenho pelos meus pets, já são mais de doze mil fotos no meu celular.
De idades que variam de dezesseis a três anos, experimento com eles emoções que sequer sei transpor para o papel. É claro que ninguém é perfeito e todos temos nossos defeitos, mas seleciono guardar deles apenas as boas lembranças, os abraços mais carinhosos, os risos mais frouxos e as conversas mais malucas. Muitas vezes, no meio deles, sinto-me entre iguais.
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E depois da Covid-19, da guerra na Ucrânia, das eleições brasileiras, da crise econômica e de mais tantas outras coisas, agora, se não bastasse, parece que os extraterrestres resolveram dar as caras. Pois é, não está sendo fácil, como já dizia a cantora Kátia, lá entre os anos 80 e 90. E ao que indica, se não piorar, pode ficar bem curioso, para dizer o mínimo.
Sempre acreditei em vida fora do nosso planeta, a propósito. Tantas estrelas por aí e só aqui teria sido o local mais votado para colonização/infestação? Acho bem pouco provável. Se for isso, por outro lado, além de ser um desperdício, ainda é lamentável. Sem dizer que considerar o ser humano a última bolacha do pacote me parece nada humilde de nossa parte.
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Aprender sempre. Esse é um lema que adotei para minha vida. Apesar de alguns pesares, o mundo é um lugar incrível e a vida é uma experiência imperdível. Certo porém que algumas pessoas, por razões que as religiões buscam explicar, enquanto outros julgam se tratar de pura sorte (ou falta dela), experimentam vidas com muito mais sofrimento do que os demais.
Em termos bem leigos, a história é relato do aprendizado contínuo. Todos os dias há coisas novas a saber, tecnologias que surgem, métodos antigos a serem redescobertos. Simplesmente isso tudo me encanta e apenas lamento o tempo passar tão rápido enquanto ainda há tanto a descobrir.
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Nem fazia ideia de que existia um elemento com esse nome, mas descobri que um casal pode completar Bodas de Antimônio. Procurei naquele que socorre todos os ignorantes, o Google, e a definição de antimônio em nada me esclareceu. Conforme disponível na página Brasil Escola: “O antimônio, símbolo Sb e número atômico 51, é um elemento químico pertencente ao Grupo 15 (grupo do nitrogênio) da Tabela Periódica.”
Não sei vocês, mas eu não conseguiria identificar se visse um antimônio por aí só com esses dados. Li também que já foi considerado um semimetal, mas agora é classificado como metal. Taí outra coisa que eu não sabia: que existia semimetal! Ou a tabela periódica da minha época era diferente ou eu que já não me lembro mais de quase nada. Talvez as duas hipóteses.
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Delícia que era pegar a lista de materiais para descobrir quais seriam as novidades daquele ano escolar. No começo era a emoção de uma lancheira ou um estojo novo. Uma tesourinha sem pontas era fundamental. Além disso, escolhíamos o papel com o qual encaparíamos os cadernos brochuras das primeiras séries do ensino fundamental que, inclusive, na minha época sequer se chamava assim.
Não importava em que estado estivessem os usados no ano anterior, eu sempre ansiava por uma nova caixa de lápis de cor, daquelas com vinte e quatro ou trinta e seis cores, da Faber Castel. Tinham também os livros didáticos, os quais eu sempre achava bonitos, mesmo que fossem de matemática, disciplina para a qual, sem qualquer dúvida, eu jamais tive pendor. Gostava era das capas, da promessa de conhecimento e, acima de tudo, do cheiro.
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Não faz muito tempo que eu aprendi a conjugar o verbo procrastinar. Acho que passei a maior parte da vida procrastinando, mas sem nomear corretamente minha atitude. De alguns hábitos, no entanto, a gente não se livra ou ao menos, não impunemente.
Desconheço o momento em que comecei a deixar as coisas para última hora, vivendo perigosamente, porque eu me lembro de que nos primeiros anos escolares, preferia fazer as tarefas logo após as aulas, tudo para ficar com o restante do tempo livre. Em algum momento, entretanto, mudei alguma chave interna e passei a inverter a ordem das coisas.
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Alguns textos atrás eu contei aqui sobre a saga das lagartas. Encontradas no meu pequeno limoeiro, colocadas em um vidro e alimentadas às custas de muita cara de pau que tive que vestir para conseguir, aqui e ali, folhas tenras de laranjeiras e limoeiros menos frágeis do que o meu.
No começo eram quatorze, mas um dia empurraram a tampa do pote, que era repleto de largos furos para entrada de ar e quando me dei conta estavam passeando pelos azulejos da minha cozinha. Treze foram colocadas de volta e da outra nunca mais tive notícia ou vi vestígios.
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Argélio fez planos durante todo o ano. Comprou um calendário próprio para registrar os projetos futuros, porque um novo período requer planejamento e ele definidamente era um homem que apreciava metas traçadas e objetivos a cumprir. O caos não lhe pertencia e nem o seduzia.
Classificava os propósitos de acordo com as prioridades. Havia cores para destacar as urgências, as necessidades, as utilidades e até mesmo as esperanças. Era importante, ainda, conforme suas crenças, que os meses tivessem equilíbrio, com doses adequadas de desafios e de comodidades. A vida era bem mais fácil assim, em categorias.
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Talvez a religião que você professe, leitor, não envolva a tradição do Natal ou talvez você simplesmente tenha suas outras razões para não comemorar tal data. Em verdade, pouco importa para o que vim lhe dizer. Sim, porque ainda que você esteja lendo e eu, do lado de cá, escrevendo, é um monólogo que travo com a tela em branco, mas que dirijo a quem quer que por aqui esteja.
É claro que a simples mudança de um dígito no calendário não tem o poder de mudar nossos destinos ou de resolver as nossas pendências. Eventualmente, para a numerologia ou outras áreas pode ser determinante. Não sei. Mas acredito que somos criaturas cíclicas. Vamos abrindo e fechando ciclos enquanto podemos. E se não fazemos isso de modo consciente, a cada dia me convenço de que deveríamos fazê-lo.
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Sempre soube que dentro de mim habita uma cientista maluca. O tempo passa e essa minha outra persona não se retira e tampouco perde a curiosidade sobre todas as coisas. Embora eu goste muito do Direito, uma das minhas opções de profissão era a biologia. Criei lagartas de bicho da seda, além de besouros de várias espécies. Gostava de cavar a terra úmida para de lá retirar minhocas e todo tipo de microfauna que eu encontrasse.
Ainda sou fascinada pelo mundo em miniatura, que se move longe do alcance dos olhos e, não raras vezes, de nossas percepções e empatia. Tenho minhocário, abelhas, hotel para abelhas solitárias e, recentemente criei joaninhas. Gosto de insetos, de um modo geral, à exceção de baratas, moscas e pernilongos, o que, penso, é compreensível.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
E no começo deste mês elas apareceram, em bando. De repente, na entrada da churrasqueira aqui de casa, surgiu um enxame de abelhas. Sei identificar pouquíssimas abelhas, mas ainda assim pelos nomes populares. Descobri, estudando um pouco o tema, que são muitas as espécies de abelhas nativas sem ferrão, com subcategorias inclusive. De todo modo aquelas abelhinhas me remetiam à velhas conhecidas da infância, as tais abelhas que enroscam no cabelo.
Vieram em um sábado qualquer, sem avisar e tomaram conta do lugar. Eram muitas mesmo e, preocupada como sou com as abelhas, não queria que se aninhassem ali, porque por certo morreriam se precisássemos usar a grelha. Saí em busca de todos meus contatos de conhecedores do assunto, os meliponicultores, para saber como proceder.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Assim que o grito de gol se fez presente na sala improvisada, o cachorrinho se assustou e fez xixi. Depois de tranquilizarmos o pobrezinho, todos passaram a torcer com mais parcimônia. Na verdade, nem houve muito o que fazer nesse sentido, já que o jogo todo teve apenas um único gol.
Dada como sou a viagens mentais pelo tempo, logo me lembrei de outras Copas do Mundo. Minhas primeiras lembranças remetem à adolescência. Vestidos com camisas amarelas, assistíamos aos jogos reunidos com amigos, em rodízio de casas. Pintávamos as unhas também com as cores da bandeira brasileira e, além de assistirmos aos chutes alheios, arriscávamos olhares furtivos para os meninos, com o coração batendo um bolão.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Creio que já devo ter escrito quase uma dezena de textos sobre meus gatos e, lamento informar, muito provavelmente este não será o último. É que a coisa toda que envolve os gatos é um mistério. Em um dia você não tem gato nenhum e no outro já tem cinco. O fato é que somente quem vive com gatos sabe a que me refiro. Desconfio que os gatos sejam hipnotistas e que dominam nossa mente inferior com simples balançar de seus bigodes.
Eu caí nesse golpe felino meio que por acaso. Ou talvez não. Sei lá. Há sete anos eu ofereci lar temporário para um filhote encontrado vagando em um bairro de São Paulo, mas foi um caso de amor (ou dominação?) e a Chica inaugurou a dinastia dos gatos da minha vida.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Não que eu seja terminantemente contra, mas me parece que há certo exagero nessa onda de harmonização facial que, nos casos extremos, vem transformando várias mulheres em clones loiros, esticados e com boca de pato. É claro que também não gosto de envelhecer, não fisicamente. Tenho curtido o processo de amadurecimento, pois isso tem me proporcionado mais bônus do que prejuízos, mas se eu pudesse, não hesitaria as minhas células como estavam há vinte anos. Só que não dá, simples assim.
Então, já que o caminho é só de ida, vida que segue. Sou a favor sim de intervenções plásticas, eis que em muitos casos, mais do que estéticas, são terapêuticas. E tudo fazer ajustes cá ou lá. Penso que devemos estar bem como nossos corpos e que a saúde mental se espelha na física e vice-versa. É o excesso que, creio, não é lá muito saudável.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Vivenciei alguns momentos assustadores nessas minhas décadas vividas. Já fui assaltada a mão armada uma vez, já presenciei e estive em meio a acidentes automobilísticos, entre outras coisas. Nenhum deles, no entanto, se equipara ao pavor que sentia, quando criança, de que um dos meus pais morresse. Era comum que eu sonhasse com isso e acordasse aos prantos, mas no alívio de saber que se tratava de um sonho.
Tenho ainda a alegria da companhia de meus pais, mas durante a vida fui perdendo outras pessoas próximas, familiares e amigos, das mais diferentes causas, inclusive recentemente. Compreendo, racionalmente, a morte como a outra faceta da vida, como a ponta de uma linha cujo comprimento e espessura desconhecemos. Recebemos, de forma inconsciente, um carretel que julgamos infinito e na confusão dos nossos dias vamos desenrolando aleatoriamente o fio da existência.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quando Marina contou para os pais que estava de namoro firme, Seu Joca suspirou aliviado. Depois que os dois filhos mais velhos se casaram, ele e Dona Márcia sonhavam com o dia em que poderiam se mudar para a praia, para o apartamento de um único quarto, na orla de um tranquilo balneário. Tinham tudo planejado há anos, mas Marina nunca que arredava pé da casa dos pais.
—Mas que boa notícia! E quando vamos conhecer o sortudo? – disse o pai, tentando disfarçar a empolgação.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Não sei vocês, mas para mim parece que outubro se eternizou. Segundo o dito popular agosto é o mês do cachorro louco e nunca entendi direito isso, até ler que no Brasil, as condições do clima nesse mês favorecem que as cachorras entrem no cio, deixando os machos meio loucos mesmo, sendo comuns as brigas para ver quem consegue acasalar. Talvez haja outras explicações, mas essa foi a que encontrei. Esclarecido o dito popular, aqui com meus botões eu acho que, diante de tantos animais castrados, o mês da loucura está para perder o seu pódio para outubro.
Curiosamente, os dois outubros anteriores foram meses especialmente complicados para mim, em termos de trabalho, e eu fiquei, de lá para cá, com a sensação de que esse mês fez algum trato com o calendário e surripiou uns dias de janeiro, porque as férias a gente nem vê passar mesmo e aí fica mais fácil enganar nossas sensações.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Minha vontade hoje é de escrever sobre um tema do qual normalmente não gosto e ao qual não costumo dedicar minhas linhas. Contudo, em tempos sombrios de censura à liberdade de expressão, ainda que se tente justificar o injustificável, é com a voz presa na garganta e com as palavras amarradas nas pontas dos dedos que escreverei sobre o que ainda se pode falar.
Conforme já escrevi em outras ocasiões, eu crio abelhas sem ferrão. São abelhas pequeninas, nativas brasileiras, dóceis e inofensivas. Comprei as colmeias, que vêm em pequenas caixas de madeira e as coloquei no nosso pequeno quintal, entre as muitas flores que cultivo em vasos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
E depois de dois anos, lá fui eu, pela primeira vez desde então, usar o metrô como meio de transporte. Como minha vida mudou de rumo um pouco antes da pandemia, eu já vinha diminuindo bastante minha frequência como forma de me locomover. Depois do coronavírus então, aí sim que, trabalhando quase cem por cento em home office, evitei o quanto pude, mas apenas por conta de receio de contágio.
Agora, passado o pior e a vida, de um jeito ou de outro, retomando seu curso, precisei ir até o centro de São Paulo e decidi que o metrô seria o jeito mais rápido. Em verdade sempre gostei. Posso ir de um lado a outro sem enfrentar trânsito, lendo ou escutando algo que me interesse, como relativa segurança. Mas a grande verdade é que gosto de observar as pessoas. Todo cronista é um curioso contumaz, aliás.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Admito que não gosto muito de escrever sobre política, muito menos em tempos de eleição, mas o que tenho visto, ouvido e lido nos últimos dias praticamente me arremessou para tela do computador, sem alternativa de assunto.
Considero esse pleito presidencial algo muito singular, porque os dois candidatos são, cada qual por motivos diferentes, ou muito odiados, ou muito idolatrados. Vou me reservar ao direito de não adentrar nos méritos e deméritos sobre os presidenciáveis, eis que, a esta altura das coisas, cada eleitor já deveria estar a par deles, de um lado ou de outro.
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No ano passado a tentativa não foi bem-sucedida. Ao contrário, resultou em tragédia, sem nunca termos certeza sobre o autor dos crimes. Após certa análise do local, o pessoal da rua concluiu que um gato fora o responsável por destruir o ninho dos sabiás. Já haviam nascido dois filhotes que foram brutalmente assassinados, para desolação dos pais, que ficaram ainda uns dois dias rondando os destroços do ninho.
Aqui no nosso bairro temos, por ora, o privilégio de observar, nas áreas verdes que nos cercam, ninhos de algumas aves, como beija-flores, maritacas, João-de-barro, rolinhas, bem-te-vis e, entre outros, os sabiás laranjeiras. Assim, há quase um ano um casal do seresteiro da madrugada resolveu fazer morada em uma árvore da rua.
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Quando eu vi, um pouco antes da pandemia, que nascia uma planta na área verde de um de meus locais de trabalho, soube que era uma amoreira. Incumbida que eu estava de fiscalizar a limpeza do mato que precisava ser retirado do local, orientei ao jardineiro para não retirar aquela que era promessa de frutos deliciosos.
Pouco mais de dois anos depois e a pequena planta se transformou em uma árvore alta e frondosa. Pela minha experiência anterior com amoreiras, os primeiros frutos já deveriam ter aparecido, mas ao invés deles, só notei umas estruturas parecidas com amoras atrofiadas, que após ficarem ligeiramente brancas, secavam e caiam. Estranhei, mas pensei que poderia ser algo pontual, talvez causado por falta de adubo adequado.
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—A senhora tem certeza disso? É uma decisão muito importante e nem sabemos se é o momento mais adequado.
—Nunca estive tão decidida. Foram longos setenta anos. Estou exausta. Acredito que cumpri com o combinado. Por favor, comunique que estou voltando em muito breve. Verifique a possibilidade dos cachorros irem comigo. Eles nem são daqui mesmo. Todos sabem que os cães fazem parte de uma espécie mais evoluída.
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1ª testemunha ouvida pela polícia: Osmar, cozinheiro
Sim, eu vi quando a mulher atravessou a rua. Não sei o nome dela, não senhor. Só sei que comprava feijoada aqui todo sábado. Idade? Uhum, nova ainda. Uns cinquenta e poucos? Tava sempre bem arrumada, com essas coisas de maquiagem na cara, então num dá muito para saber. Mas era bonitona.
Não sei se ela tem família aqui no bairro também. Só posso dizer que vi o acidente. E eu vi porque tava fumando ali na frente. Era hora do meu intervalo e gosto de olhar o povo que passa. Aqui neste lugar, neste bairro de gente chique é tudo diferente de lá de onde eu moro, sabe? Lá o povo grita na rua o tempo todo. É criança e cachorro para todo lado.
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Apesar de tudo, eu seria brasileira outra vez. Claro que admiro a cultura e o desenvolvimento de outros países e gostaria de morar em um lugar mais seguro, com menos desigualdade e criminalidade. Mas ainda assim, se me fosse dada a escolha, acredito que ser brasileira, no mínimo, faria parte do top cinco. Há sentimentos que não explicamos, apenas experimentamos.
Este país, de dimensões continentais, é rico das formas mais importantes. Pena ser tão pobre de tantas outras. Para além dos recursos naturais, da beleza da fauna e flora, da comida que nasce quase sem esforço, o Brasil é um gigante, embora de pés amarrados. Assim, ao invés de caminhar livremente, de avançar pelo que se chama de progresso saudável, o país tropeça a cada curto passo, vilipendiado de muitos modos.
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Todas as semanas, há vinte e dois anos, separo um tempo para escrever o texto que segue para publicação nos jornais. Em alguns momentos tenho tantos temas se anunciando e brincando de roda em minha mente que fica até difícil escolher. Há dias nos quais o texto já surge pronto, somente esperando a hora de ir para o papel. Nesse tempo todo já tive ainda, várias vezes, o famoso branco, a ausência total de inspiração.
Hoje, depois de protelar ao máximo, entendi que não nasceu em mim nenhuma ideia em específico, porque talvez eu não esteja com ânimo literário para grandes dilações. Vivemos tempos delicados, nos quais escrever sobre temas polêmicos pode gerar inimizades, mal-entendidos, cancelamentos e até processos. Complicado demais isso em ano de eleições, entre outras coisas.
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—É por causa de gente como você que eles são como são, Amanda.
—Como assim gente como eu, Luzia? O que foi que eu fiz?
—Para variar, nada. E isso é a principal causa de tudo. Vocês não entendem o nosso lado, porque para vocês tudo sempre foi muito fácil.
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Não sei se fui sempre assim, mas não gosto de vento. Exceção honrosa faço para a brisa, principalmente se for na praia, em um dia de sol, ou em tardes abafadas, prenunciando a noite amena. A brisa refresca, alivia, acalma, acaricia. O vento é outro departamento. Bagunça tudo, desde o cabelo que me entra pela boca ou me invade os olhos, até minhas ideias.
Em algum momento de minha vida o vento e eu tivemos alguma espécie de ruptura e desde então não recuperamos nosso relacionamento, talvez algo que seja definitivo, no fim das contas. Pode até ser que haja certa dose de implicância de minha parte, mas o sujeito é desaforado. Bate portas, janelas, levanta saias distraídas e rouba chapéus desprevenidos. Sem dizer que traz frio ou poeira.
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—Vêdi, eu tenho que levar uma roupa para tomar banho. Preciso de um vestido, uma calcinha e um perfume.
—Anda logo. A gente tem que sair rápido. A empregada não pode ver.
Corri para arrumar minhas coisas. Antes de sair dei uma olhada na minha irmã de um ano e meio que dormia em um dos quartos.
Minha prima e eu, minutos antes havíamos combinado de ir até a casa dela, sem que ninguém soubesse. Nossos pais haviam nos deixado sob os cuidados da mulher que ajudava minha mãe nos serviços domésticos, para irem ao velório de um familiar.
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—Vai logo! Ela vem vindo. Tira daí.
—Eu? Nem matando. Você que deixou cair. Coloca a mão lá e pega. Puxa rápido.
—Mas tem o seu xixi lá dentro. Isso é muito nojento. Ecaaaa.
Minutos antes, as duas meninas, de doze e oito anos, brincavam com o par de brincos de pressão que retiraram escondido do porta-joias da irmã mais velha. Carla, que não tinha orelhas furadas, gostava de usar brincos exagerados, afinal eram os anos oitenta e a palavra exagero parecia ter outro significado, ao menos na moda.
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Uma pequena mala já bem gasta, algumas sacolas e um cobertor popular. Sentado no ponto de ônibus há dias, ele permanece como se esquecido de partir, esperando por algo ou alguém que nunca se faz chegar.
Era alfaiate, segundo soube. Perdeu o emprego e, sem família e recursos, acabou na rua, despejado do quartinho e das esperanças que ocupava. Desde então sobrevive pelo bairro, abrigado nas estruturas de pontos de ônibus. Se bebe ou usa drogas, não demonstra. Possui semblante altivo, embora humilde. Parece constantemente mirar o horizonte, embora eu não saiba interpretar aquele olhar direcionado ao nada.
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Um pouco de azul e amarelo e vai surgindo um verde. Um toque de branco e surgem tons pasteis. Alguma nuance de vermelho e a cor desejada nasce, pronta para cobrir o desenho sobre o papel, em um processo quase alquímico. Um vasinho com flores brancas de miolo amarelo como modelo e por quase duas horas, pela plataforma zoom, a professora e outros três colegas, cada um morando em um canto do Brasil, misturamos cores, pintamos e conversamos.
Horas antes e o dia não tinha sido dos melhores. Todos nós temos nossos dias ruins, afinal. Aqueles momentos em que questionamos escolhas, lamentamos a sorte ou a falta dela, além de ressuscitarmos velhos dilemas pessoais. Quase desmarquei a aula, porque não estava realmente no clima. Ainda bem que não o fiz.
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O chão está forrado delas. Juntas, formam um tapete de tom entre rosa e roxo, cobrindo de vida o asfalto, as pedras e os carros da pequena rua onde moro. Imenso, o ipê está florido como nunca o vi antes. Sobrepondo-se aos telhados dos sobradinhos, nessa pequena área ainda não dominada por arranha-céus, parece um ramalhete, contrastando com o azul desses dias claros.
Não sei precisar há quanto tempo está aqui, mas pelo relato de alguns moradores, suponho que tenha sido plantado cerca de quinze anos atrás. Por várias vezes foi ameaçado de morte, no entanto. Vítima da cisma de alguns e da implicância gratuita de outros, já esteve com as motosserras rugindo próximas a ele por algumas vezes. Nas últimas vezes, com ajuda de amigos, consegui impedir, embora nunca saiba até quando.
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Às vezes eu o persigo, mas na maior parte do tempo, é ele quem me domina. Minha relação com o sono é meio esquizofrênica, admito. Poucas vezes estivemos divorciados e, assim, houve mesmo um tempo em que sofri de certa insônia. Naqueles dias, era com desespero que aguardava pela chegada do meu amigo quase inseparável, vendo as horas se sucederem e madrugada ir se transformando em dia.
Quando o sono resolve se apossar de mim, por outro lado, tudo muda de figura. Certa vez, com um casal de amigos, fomos assistir a uma apresentação de música clássica. Era tarde da noite, estava muito frio e aquela sexta-feira fechava uma semana bem atribulada. Meu intento era o de prestigiar os músicos talentosos que se apresentavam, mas naquele misto de silêncio e som, fui sendo tragada para outro mundo e posso afirmar que foi tudo um sonho, literalmente.
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A corretora estava na porta da casa de dois andares, encravada no meio de um bairro antigo da cidade. Era baixinha e estava toda vestida de preto, uniforme das corretoras de residências mágicas. Exigência do sindicato, para passar credibilidade aos futuros compradores ou inquilinos. A sociedade mágica estava cada dia mais exigente.
A família interessada naquela residência era composta de um casal e uma criança de uns cem anos de idade. Eram meio duendes e pela primeira vez naquele século, depois de passarem pela rigorosa análise documental, tinham conquistado o direito de morar na cidade grande, em meio aos humanos comuns.
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Eu escutava os murmúrios que aos poucos iam fazendo sentido. Eram orações. A procissão passava na rua de casa e da janela do quarto onde eu dormia com minhas irmãs, espiávamos as pessoas que, de madrugada, seguiam por vários quarteirões rogando ao Criador.
Os tapetes de Corpus Christi enfeitaram as ruas e de algumas cidades nas quais passei minha infância e minhas lembranças daquela época são mais afetivas do que religiosas. Sei que até hoje é uma tradição que se manteve em cidades pelo interior do Brasil, inclusive. Trazida ao Brasil no período da colonização, a prática portuguesa remete à acolhida de Jesus em Jerusalém.
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Mal eram onze da manhã e toda a família já conseguia ver que tia Nicoleta estava bêbada. Todo domingo era a mesma coisa, fazia mais de vinte anos. Ela começava a cantarolar as músicas italianas do tempo das vitrolas. Eu até já conhecia algumas de cor, de tanto ouvir. Com o rosto afogueado, a tia ficava com a voz mole, escorregadia. Parecia até que as palavras queriam fugir, cansadas daquela mesmice, mas ela não deixava.
Zia Nicoleta, poveretta, era uma mulher triste. Tudo culpa do Nonno Nino, que a proibira de se casar com o Manuel, o português dono da padaria do bairro. Nunca mais Helena quis se casar ou namorar ninguém. Era mulher de um só amor, dizia. Vivia das lembranças do primeiro beijo e da tristeza da despedida, depois do Manuel ir embora num repente, sem avisar ninguém.
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Não sou daquelas pessoas que resolvem ou agravam seus problemas através da comida. Minha relação com ela sempre foi tranquila. Aliás, caso algo esteja mal, seja dentro ou fora de mim, perco o apetite por completo. Por outro lado, entendo o conceito do que se chama modernamente de comfort food, ou em bom português, comida reconfortante.
Há alguns anos, enquanto assistia a um programa de tv, ouvi essa expressão e fui me informar sobre o assunto. Trata-se daquela comida que traz uma sensação de alívio, de conforto, que remete às coisas simples da vida, da infância. Em resumo, aquela comidinha de mãe, de vó, das tias e de todas as pessoas que, através da comida, compõem nosso universo passado de boas recordações.
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Depois das três ou quatro doses da vacina e da quase total abolição do uso de máscaras, a maior parte das pessoas retomou a vida normal, seja lá o que isso significa agora. Reuniões com amigos e festividades com aglomerações foram retomadas e, em alguns momentos, é até possível esquecer a existência do flagelo chamado COVID.
Certo que diante de um cenário de crise política, alta de preços e desemprego, não há exatamente a alternativa, para grande maioria dos brasileiros, de se ficar em casa, trancado, à espera de que seja cem por cento seguro novamente. Até mesmo porque, parece-me, nunca foi e nem nunca será.
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Odeio frio. Em verdade nem sei se é ódio. Apenas sinto que o frio é, em muitos sentidos, incompatível com a vida. Com a minha vida, por certo. Exageros à parte, admito que até há glamour em locais turísticos, onde o frio significa, para os que lá estão a passeio, um menu de comidas reconfortantes, boas bebidas, roupas elegantes e passeios temáticos. Disso também gosto, é claro.
O frio raiz, aquele que vem me dizer olá assim que o alarme do celular toca, dando notícias de que tenho que me aprontar para mais um dia de trabalho, já não me seduz e nem me convence das suas boas intenções. Ainda mais um frio meio fora de época como este que a maior parte do Brasil tem vivenciado neste mês de maio. Ao leitor do futuro, àquele que porventura encontre esse texto perdido em algum canto do multiverso ou esquecido na forração de uma gaveta, esclareço que estamos no ano de 2022.
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Eu a encontrei no chão, no meio da calçada, quase esmagada. Era um galhinho de uma planta bem roxa, bastante usada para ornamentar canteiros. Isso foi antes da pandemia começar, nos meses que a antecederam e nos quais sequer sonhávamos com o coronavírus. Eu tinha acabado de sair de dois empregos que me garantiam, além de satisfação pessoal, certa tranquilidade financeira. Minhas ideias e sentimentos estavam se desprendendo de mim, fragmentados.
Embora fosse inverno e estivesse bem frio, fazia sol e havia céu azul. Sem saber direito o que fazer na ausência da pressa que até então me acompanhava, eu estava a caminho da natação, quando a notei. Desconheço a razão, mas me apiedei daquela planta que, metade já esmagada e ressentida pela falta de água, ainda oferecia ao mundo uma pequenina e delicada flor rosa. Mentalmente “fizemos” um combinado: se ela estivesse ali quando voltasse, eu a levaria para casa.
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Há cinco anos eu ganhei uma gatinha. Era minúscula. Pesava pouco mais de trezentos gramas. Segundo a amiga que a resgatou, bem como aos demais de uma ninhada de cinco, era mestiça de maine coon, uma espécie de gatos gigantes. Seria a terceira felina da casa. Eu esperava um gato gigante e trouxe para casa uma criaturinha que nem parecia de verdade. Demos a ela o nome de Mini.
Apesar de todos nossos esforços e dos veterinários da família, Mini viveu apenas mais algumas semanas. Tal como os outros três irmãos, era doente. Chorei demais por aquela vidinha tão frágil que não consegui salvar. Minha gigante em miniatura fora resgatada em condições muito insalubres, de total abandono. Eu esperava ter sido capaz de salvá-la, mas não fui.
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A massa escura que eu não distinguia direito era mesmo um morceguinho morto. Estava com as asas enroladas em volta do corpo, tal qual uma bolinha. Uma das cachorras olhava para ele, aparentemente sem entender do que se tratava. Impedimos, em tempo, que fizesse uma verificação com os dentes e língua.
Algumas horas antes eu havia colocado o néctar dos beija-flores e das cambacicas que, de noite, é consumido pelos muitos morceguinhos que aparecem no nosso quintal. Sempre me pergunto de onde eles vêm, pois surgem um pouco depois das 20h e, fazendo acrobacias áreas, dão rasantes pelas cabeças de quem se encontrar na pequena e verde área externa que possuímos.
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Há alguns anos venho fazendo compostagem com os resíduos orgânicos de minha cozinha. Em três caixas sobrepostas, minhas minhocas tratam de dar fim a cascas de ovos, cascas de frutas, pão seco e outras coisas, transformando tudo em humus e chorume que depois uso em meus vasos, como adubo.
Quando eu conheci o projeto que é desenvolvido em uma praça próxima de minha casa (Praça Pablo Garcia Cantero) aqui na cidade de São Paulo, descobri que há outras formas de se fazer compostagem, sem o uso dos simpáticos nematelmintos. O processo de compostagem termofílica é biológico e transforma resíduos cuja destinação seriam aterros sanitários, em compostos orgânicos ricos em nutrientes.
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Há tempos sou assombrada por ele. Não o conheço pela face, eis que tenho evitado, por décadas, encará-lo frente a frente. Acredito que ele tenha se chegado a mim bem cedo, perto dos nove anos de idade. Foi quando arrisquei meus primeiros poemas.
Descobri que sabia fazer rimas e juntá-las no que me ensinaram chamar poesia. Embora eu me orgulhasse delas, o Monstro já se fazia presente.
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–Mãeeee, eu quero aquele ovo grandão! Esse é feio. Nem é grande e nem é do Batman.
–Filho, esse aqui é gostoso também! É de chocolate igual ao do Batman, mas é da vaquinha feliz.
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Eu o conheceria em poucas horas. Meu coração estava aos pulos. A noite passada fora um misto de sonhos, pesadelos, de sentimentos que não posso explicar. Tudo o que eu tinha até aquele momento eram fotos. Muitas, por sinal. Ele era lindo, isso era inegável, mas eu não estava segura de como me sentiria ao vê-lo, ao tocá-lo, se chegássemos a tanto.
Acordei muitas horas antes do relógio me lembrar que aquele não era um dia qualquer. Mudei tantas vezes de roupa. Prendi e soltei meus cabelos. Escolhi perfume, óculos, sapato.
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—Pode deixar comigo. Já assisti a três vídeos no YouTube e chegou o kit de tesouras que eu encomendei. Mas pensando bem, e se ficar horrível?
—Daí eu raspo careca, ué?!
Com a garantia de que haveria uma solução em caso de fracasso, durante a pandemia me tornei cabeleireira amadora. Para alívio de todos, não criei nenhum sósia do Kojak ou, para que os mais jovens entendam, do Meu Malvado Favorito.
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— Quer dizer que agora não precisa mais usar máscara? Liberou geral?
—Não é bem isso. Não precisa mais em ambientes abertos e, nos locais fechados, só no transporte público e locais de atendimento à saúde, tipo hospital, essas coisas.
—Até que é bom isso né? Ou não é? Eu nem sei direito se fico feliz ou chateado.
—Ué, chateado por quê? Não é bom respirar livremente outra vez, sem aquele treco sufocante? Eu pelo menos estou comemorando.
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Não queria mesmo escrever sobre esse assunto. Aliás, queria fingir que a guerra entre Rússia e Ucrânia nem existisse. Tentei, confesso, o quanto pude. Evitei ao máximo ler os jornais ou acompanhar os noticiários a respeito.
Sempre tiver pavor de guerras. As aulas de história, cheia de estatísticas e número de mortos, deixavam-me arrasada.
Não entendo a maior parte dos argumentos que justificam uma guerra. Por mais que se queira explicar, no fim das contas tudo é uma questão de dinheiro, poder, dominação. Duvido é das motivações dos senhores da guerra, daqueles que se colocam confortáveis e protegidos atrás de supostas ideologias, pelas quais tantos jovens sucumbem, privados de uma vida que poderia ser muito maior.
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Comecei escrevendo poesia, mas minha prosa logo encontrou o rumo que desejava: escrever para crianças e jovens. Aventurei-me nesse caminho antes de me tornar cronista e publiquei alguns livros infantis que me deram o melhor dos retornos possíveis: leitores. Não há qualquer sentido, segundo creio, em ser um escritor que ninguém lê. Todo aquele que escreve tem, mesmo que não confessado, o desejo de que suas palavras sejam colhidas por outras pessoas, que possam fazer eco dentro de outras mentes.
Realmente perdi as contas de quantas cartinhas recebi de crianças que, juntamente com suas professoras, trabalharam meus textos nas salas de aula. Certamente foram quase duas centenas. Sei que não é um número expressivo para um escritor de sucesso, mas para mim sempre foram um presente, algo que ia muito além do que eu esperava.
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—Mas em tudo há poesia – disse-me ele, sem desgrudar os olhos do céu – a poesia mora até mesmo nas palavras e, às vezes, existe apesar delas.
Terminou assim o módulo de poesia do meu curso de escrita criativa, com frases de um professor que me trouxe de volta o apreço por um gênero do qual me afastei há vários anos.
Comecei a me expressar, na escrita, pela poesia. Gostava de formar versinhos, de brincar com rimas, de ler poesia de gente grande, repleta de imagens que me seduziam em significados que eu não era capaz de compreender.
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Polêmicas à parte sobre o autor, sempre fui encantada pela personagem Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo. Achava incrível uma boneca que falava, era inteligente, marrenta e cheia de imaginação e tudo sem ter um coração! Até noiva de um Marquês ela foi. Tudo bem que o tal nobre era um porquinho, mas para alguém feita de pano, estava de bom tamanho.
Meu fascínio pela Emília se devia principalmente ao baú que ela possuía. Quantas vezes peguei uma caixa de sapatos, na falta de algo melhor e fingi que era o meu baú de lembranças e coisas incríveis. Viajei para lugares impensados usando o pó de pirlimpimpim fabricado pelos meus devaneios. Guardava dentro do meu “baú” uma série de coisinhas inúteis, mas que eu fazia repletos de significados só meus.
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O duro foi permanecer sentada e olhando para o computador enquanto o morcego dava rasantes na minha cabeça. Tentei manter a dignidade e não gritar muito diante da plateia formada pelos meus cerca de cinquenta alunos da faculdade de Direito. Fiz o que pude, mas inevitável um gritinho ou outro, sempre que o filhote de drácula se aproximava.
Foi tudo culpa da Chica, minha gatinha frajola que, além de gulosa, é exímia caçadora. Só que ela não captura para comer e, para sorte das presas, nem para matar. Apenas, creio, tem certeza ou esperança de que irei apreciar a oferenda e, gentilmente me traz esses presentes. Chica Maria Eustáquia Borges, para citar o nome completo da bichana, é uma criatura curiosa, a propósito. Irmã mais velha dos outros quatro gatos que adotei, vivia pelas ruas quando filhote, até ser encontrada por uma aluna e vir parar aqui em casa. Não pode me ver ou me ouvir falando diante das telas do computador ou do telefone, que aparece do nada e se esfrega em minhas mãos como se não me visse há décadas.
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Foi água para todo lado. Parecia enchente, mas era “só” um dos meus aquários que explodira. Tá, ok, ele não explodiu propriamente, mas o vidro rachou de repente e a água, todos os oitenta litros, começou a sair tal a comporta de uma represa rompida. O susto foi grande, admito. Quando escutei o barulho, achei fosse uma torneira esquecida aberta, ou algo assim. Demorei um pouco para processar o ocorrido e para reagir, pois tinha dois peixes para salvar do contrário de um afogamento.
Nada entendo de astrologia, mas tenho há muito a sensação de que ser do signo de Peixes, de algum modo, atrai água. Consultei o oráculo Google e descobri, através do horário do meu nascimento, que sou Peixes com Ascendente em Peixes. E o que isso significa? Não faço a menor ideia, exceto que provoca um aguaceiro que corre pelo meu verso e pelo meu avesso. A par disso, gosto muito de água, mas a questão é outra. Sou uma espécie de ímã involuntário para esse elemento.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
“Desculpe, mas somente seres humanos podem realizar essa operação” - foi a mensagem que apareceu na tela assim que tentei me inscrever em um curso online. Era preciso clicar, inicialmente, em um campo para provar que eu não era um robô. Como me atrapalhei porque estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo, acabei por pular essa etapa, ao que fui logo advertida pelo sistema.
Eu suponho que isso se dê para evitar o envio de mensagens automáticas indevidas ou mesmo a instalação fraudulenta de programas maliciosos. Assim, ao tomarmos essa pequena precaução, em tese, o sistema nos reconheceria como seres humanos, pressupondo, portanto, que estamos realizando a operação de forma consciente.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Gostem ou não, algumas coisas estão mudando para melhor, mesmo que a passos muito lentos. Há algumas décadas as pessoas falavam abertamente, sem qualquer risco de reprimenda, que iriam jogar filhotes de gatos dentro de um rio ou que levariam animais para longe, para que não soubessem mais como voltar. Toda forma de abandono e de crueldade parecia justificável para alguns e, o pior, na quase totalidade dos casos, não havia o menor risco de punição.
Lamento que ainda hoje haja uma parcela de pessoas indiferentes a essas práticas abomináveis e, pior, que submetem os animais a maus-tratos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Carnaval de rua cancelado aqui em Sampa. As centenas de blocos que já estavam autorizados vão ter que recolher a serpentina que nem foi lançada. Pago para ver. Tenho certeza de que blocos de rebeldes haverão de sambar, sub-repticiamente, por ruelas dos bairros paulistanos. Festa de máscaras, literalmente. Ao menos deveria ser.
Mas o desfile no Sambódromo está garantido por ora. Lá, por certo, afirmam as autoridades, será possível rigorosa fiscalização. Ademais, será ao ar livre e o vírus, empático, não vai contaminar ninguém. Se for Lua minguante então, sem chance. Assim como na praia, onde o vírus morre pelo sol e pelo sal. As chances de dar errado são mínimas. Para o vírus, acredito.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Nada novo, de novo
A gente bem que gosta de pensar que um novo ano possa ser melhor do que o anterior. Por razões místicas ou religiosas, muitos de nós apostam as fichas no ciclo que se reinicia tão logo nosso planeta termine seu giro em torno do Sol. De minha parte fico sempre na torcida por melhores notícias, por esperanças que se renovem, mas já passei da idade de acreditar que só a troca de números no calendário seja suficiente para transformar as coisas.
Como faço todos os anos, fui para o interior aqui do estado de São Paulo para passar uns dias com meus pais, irmãs e sobrinhas. Andando a pé pela cidade, notei, com tristeza, que tal qual acontece aqui na capital, há muito lixo pelas ruas, nitidamente descartado de forma negligente e impune pelas pessoas. Não há serviço de coleta que dê conta, seja lá ou cá.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Últimos dias de 2021 e era inevitável pensar no ano que se aproximava. Para Mariana era sempre a mesma coisa. Ela sabia que nada mudaria só porque o calendário trocaria um número dali uns dias, mas ainda assim fazia planos. No dia 1º começaria o regime definitivo: zero carboidratos, muitas frutas vermelhas e suco de gabiroba. Tia Ângela tinha garantido que era tiro e queda. Se bem que o melhor seria começar no dia 03, uma segunda-feira.
Acho que nem faz muito sentido um regime começar no domingo, pensou Mariana. O churrasco na casa da tia Lila também não era propriamente um incentivo. Ela levaria pavê de uva e seria um desperdício não comer algo de que gostava tanto. Talvez ela tomasse algumas cervejas também. Cerveja contava como carboidrato? Precisava conferir esse ponto com a Tia Ângela urgentemente.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Mais um Natal chegando e a família Nogueira, tal como nos últimos oito anos, faria o sorteio de quem desempenharia o papel de Papai Noel. Após o nascimento das gêmeas Sofia e Isa, os avós, Seu Bilu, como era mais conhecido, e Dona Joana, transformaram em tradição a visita especial do “bom velhinho” nas noites de 24 de dezembro.
Havia um sorteio envolvendo tios e primos, todos ansiosos para conferir quem teria a melhor performance. A coisa toda envolvia uma série de preparativos, pois a entrada deveria ser triunfal. As meninas, agora com 8 anos de idade, já estavam difíceis de serem enganadas. No ano anterior, o tio Agenor é que fora o contemplado e resolveu que seria um Papai Noel moderno, mas quando arriscou a primeira fala foi desmascarado pela Bisa Marieta, que aos 94 anos não sabia mais nem onde estava.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Venho escrevendo crônicas há mais de vinte anos, semanalmente. Normalmente, quando comento tal fato com alguém, perguntam-me como faço para ter assuntos novos para tantos textos, como se fosse algo que demandasse algum esforço extra ou alguma qualidade especial. Sinto decepcionar quem pensa assim. Em verdade, trata-se apenas de uma coisa: observação. Explico-me.
Nunca vou a lugar nenhum sem observar tudo ao meu redor. O segredo, talvez, seja prestar atenção nas coisas certas, naquilo que, de ordinário, não se costuma notar. Acredito ser esse o grande trunfo do cronista: possuir olhar que se direciona para lugares, pessoas ou situações inusitadas. E assim, como a vida não se repete, como há coisas novas o tempo todo, há sempre assunto que possa ocupar de modo razoavelmente interessante, as linhas de um espaço em branco.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Natal chegando e penso que vale a pena repassar algumas regras básicas de etiqueta e convívio. Nesse período do ano é comum trocarmos presentes com aqueles que nos são queridos, mesmo que sejam pequenos mimos. Em tempos de crise, de vacas não tão gordas, acredito que o gesto de presentear alguém mereça ao menos a consideração alheia.
Gosto muito de receber presentes e nunca deixei de valorizar todos aqueles que recebi. Por sorte sou uma pessoa que gosta de quase todo tipo de coisa. Sou uma pessoa fácil de presentear. Plantas, doces, pães, livros, papel para pintura, tintas, cosméticos, linhas, roupas, bolsas, sapatos, cursos, perfumes, bijuterias, jogos, uma poesia e até mesmo simples caixas estão entre as coisas que enchem meu coração e meus olhos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A menina tinha nome de gente grande: Sebastiana. Era, no entanto, bem pequena, com pouco mais de sete anos. O apelido, porém, era de gente miúda: Nena. Órfã de pai, foi deixada pela mãe aos cuidados da madrinha, mulher de posses, para que tivesse chance de uma vida melhor.
Nos anos vinte não era propriamente um escândalo que uma criança de pouca idade fosse tratada como serviçal, sobretudo em se tratando de alguém de família sem recursos. Assim, Nena, cuja mãe esperava que seria tratada como filha, como hóspede, foi incumbida de muitas e pesadas tarefas domésticas, sequer frequentando a escola. Embora seja compreensível e esperável que se lamente esse fato, essa não é uma história sobre a tristeza.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
No Brasil, há alguns meses, temos experimentado a sensação de que as coisas, aos poucos, voltam aos seus lugares. Com mais da metade da população vacinada, renasce a esperança de dias melhores, de alguma normalidade. Embora nada traga de volta os dias e as vidas perdidas, é preciso prosseguir, é necessário encontrar algum ponto de apoio para ser possível sobreviver. A história da humanidade é inegavelmente resultado da capacidade de adaptação, mesmo diante das maiores tragédias.
Contudo, esse delicado equilíbrio está em risco outra vez. No mundo todo começam as notícias sobre uma 4ª onda do vírus e ainda não há exata dimensão sobre a eficácia da vacina diante das novas investidas do atual inimigo número um dos seres humanos. Alguns países já fecham fronteiras e colocam seus cidadãos dentro de sete chaves. Enquanto aqui, no Brasil, vivemos um aparente momento de respiro, o ar puro e seguro começa a ficar escasso ao nosso redor.
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Dando sequência aos textos sobre ditados populares, escrevo hoje, por sugestão de um leitor da cidade de Bauru, sobre a expressão popular “Comigo não, violão”. No corpo do e-mail veio também um arquivo com uma música antiga, cantada por Francisco Alves, que leva o mesmo nome. A música me é vagamente familiar e talvez eu a tenha escutado quando criança, mas mesmo sem conhecer o sentido exato ou a origem da expressão, já a utilizei muitas vezes no contexto de muitas frases.
Nesse caso, creio, o significado é claro, ao menos para aqueles que já passaram dos quarenta. De acordo com dicionário informal, é frase utilizada como recusa para alguma atividade ou algo impossível. Quase como o atual (ou nem tanto?) “tô fora”. Muito provavelmente, no entanto, os mais jovens sejam incapazes de identificar o sentido dessa frase. Enquanto alguns ditos populares parecem eternizados pelo contínuo uso, outros vão desaparecendo quando perdem o contexto inicial ou, na melhor das hipóteses, perdem o sentido original.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
–Você me desculpe! Eu nem costumo usar o banheiro fora de casa, a não ser para um xixi rápido. Fico morrendo de vergonha, porque sei que a coisa está feia, mas acho que foi mesmo o acarajé que comi ontem à noite.
–Ah, sem problemas. Entendo perfeitamente. Eu mesmo só corri aqui porque achei que a essa hora os banheiros desse andar ficavam vazios, porque não vi ninguém por aqui perto. Saí apressado de casa e nem tive tempo de gastar minha meia hora regulamentar no banheiro.
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Em texto anterior escrevi sobre a origem da expressão popular “Vá plantar batatas”. Muitos ditos populares têm origens e significados bem interessantes e até engraçados. Como recebi, porém, dias depois, uma mensagem de um leitor que gostaria de saber mais sobre a frase “Vá Lamber Sabão”, resolvi ir à pesquisa pelos caminhos da internet.
Lembrei-me, ao buscar links e sites, que uma vez, quando criança, mordi um pedaço de sabão. Na verdade, de sabonete. Em formato de coração, era tão bonito, macio e cheiroso que não resisti: arrisquei uma mordidinha para descobrir que gosto tinha. A decepção foi imediata, pois o treco tinha gosto de nada e de tudo. Lavei correndo e fiquei com a boca cheia de espuma, quase raivosa.
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Gosto de ditados populares. Quase sempre são divertidos e/ou pertinentes a muitas situações reais e cotidianas. Na tradição oral, creio que vários deles acabaram sendo modificados com o passar do tempo, enquanto outros ainda são reproduzidos de forma errada, mas que, pelo uso, acabaram como versões consolidadas.
O que a maior parte das pessoas desconhece, inclusive eu, é a origem dos ditos populares. Apenas vamos reproduzindo-os, sem ideia do contexto no qual surgiram. Dia desses, enquanto comprava legumes na feira livre perto de casa, escutei uma conversa entre dois feirantes. “Ah, vai plantar batatas!”, disse um respondendo certa provocação feita pelo outro.
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Alguns talvez considerem como alienação, outros, no entanto, podem entender meu ponto de vista, mas tenho evitado, desde o início da pandemia, assistir aos noticiários de televisão e, de forma geral, as notícias mais alarmantes. Não quero com isso afirmar que esteja alheia aos acontecimentos ou que não me importe com o que se passa. Em verdade é exatamente o contrário. Atualizo-me todos os dias, de modo rápido, mas não me sinto capaz de mais do que isso.
Em 2020 era o terror pelo desconhecido, o medo e a tristeza das perdas. Quisera isso tivesse ficado no passado, entretanto. Nesse ano, além de tudo isso, permanecem as outras mazelas do mundo, acrescidas de mais e mais fatos horríveis. Claro que houve e há boas coisas também, pois sem elas seria impossível prosseguir, mas por vezes sinto que a maldade e a vilania ganham cada vez mais espaço, sufocando o bem que tenta sobreviver.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A quantidade de lixo pelas ruas das cidades, sobretudo em uma cidade grande como São Paulo. Pelas ruas se encontra todo tipo de descarte. Parece-me que grande parte das pessoas simplesmente não se importa. Jogam lixo pela rua como se as coisas fossem ser absorvidas pelo concreto ou pudessem desaparecer como mágica.
Sempre que posso, ao menos na rua onde vivo, recolho uma infinidade de coisas que as pessoas descartam. Tampinhas, copos, garrafas, papel, anúncios de propaganda e restos de comida. Sei de algumas pessoas no bairro que fazem o mesmo. O restante fica para a Prefeitura recolher, mas é como enxugar gelo, já que todos os dias há mais e mais.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A existência dos animais, humanos e não humanos, é marcada pela imprevisão, pela ausência de controle. Ilude-se quem acreditar no contrário. Nossos planos são meros rascunhos feitos a lápis, os quais o destino rasura e apaga quando bem lhe apraz. Não quero e não vou adentrar na discussão sobre o Divino, sobre se há ou não alguma razão para o que nos acontece, para as trilhas que somos, muitas vezes, obrigados a trilhar. Vou me restringir, assim, à experiência dos nossos dias.
Em família temos já uma tradição, depois de várias situações imprevistas, de não fazermos muitos planos. Muitas foram as vezes nas quais um dia ou dois antes de nos reunirmos, antes de alguma viagem marcada, que tivemos que reajustar nossas velas. Ou era uma das crianças doentes, ou meus pais, ou nós mesmos. Outras vezes, nossos animais de estimação precisavam de nossa atenção imediata.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Uma de minhas frutas preferidas, nativa do Brasil, o maracujá é chamado de passion fruit em inglês. Tem esse nome porque suas flores são conhecidas como “Flor da Paixão”, a Paixão de Cristo. Assim, ele é o fruto da paixão. Em tupi, maracujá quer dizer alimento dentro da cuia. Seu nome científico é passiflora edulis. Aqui em casa é sinônimo de calmante e de comida de lagarta.
Nem sei precisar de quando vem essa fixação, mas sou apaixonada pela flor do maracujá. Na chácara da minha infância colhíamos maracujás quase o ano inteiro. Depois disso, tentei por várias vezes, sem sucesso cultivá-los. As sementes germinavam, as plantas nasciam e cresciam, mas as folhas logo eram atacadas por implacáveis lagartas que em poucos dias deixavam só os talos.