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barracas

A imagem choca. São dezenas de barracas armadas lado a lado. Cobertores populares estão por todos os lados, vezes dobrados cuidadosamente, vezes embolados e jogados pelas calçadas.

O cheiro em geral é forte, um misto de sujeira, bebida e cigarro. Embora haja mulheres, a maioria das barracas está ocupada por homens e muitos são os cachorros, vira-latas quase sempre de porte médio, que os acompanham fielmente.

Plena quarta-feira, próximo ao meio-dia e essa é a cena que vejo ao passar pelas imediações da Praça da Sé, no centro da cidade de São Paulo. Mesmo diante da presença de algumas viaturas e policiamento ostensivo, a sensação é de insegurança e também de abandono. Não há nada de normal ou aceitável nessa situação, mas as pessoas vêm e vão, em um zigue-zague frenético.

Caminho mais um pouco pelos arredores, pois preciso ir até a farmácia dos advogados, onde os preços com descontos especiais realmente compensam a distância um pouco maior. Desde o início da pandemia essa é a quarta vez que me dirijo até a região que luta, quase em vão, para se recuperar. Entre as lojas fechadas e as placas de “aluga-se”, há uma profusão de pessoas deitadas pelas calçadas, esticando as mãos para cada passante. A prostituição nem se insinua, mas se oferece sem qualquer tipo de máscaras, à luz do dia e dos olhos.

Aperto minha bolsa contra o corpo. Uma tensão me invade e me impede de observar as coisas com mais vagar. Não há espaço para descuidos. É preciso ter cuidado por onde se pisa, pois há pernas estendidas por todos os lugares. Tento imaginar como seria aquele espaço revitalizado, sem pessoas em condição de miserabilidade, sem o odor de urina que se sobrepõe a qualquer outro aroma. Sinto inveja das gerações que conheceram uma São Paulo mais bonita, menos desigual.

Finalizo o que preciso e saio de lá o mais rápido possível. Envergonho-me da ausência de medidas, de atitudes por parte de quem gere os recursos públicos. Enquanto alguns tem auxílio moradia, outros ganham barracas para montar nas praças e viadutos. A desigualdade é escancarada e o descaso também. Impossível pensar, sem ingenuidade ou ignorância, que isso tudo não vai explodir de algum modo, espalhando a miséria para cima do tapete, ou melhor, da barraca.

Há muito tenho escrito sobre a população que sem qualquer opção de morada toma conta dos espaços públicos, escancarando as mazelas próprias e as alheias. Embora se trate de uma questão bem complexa – e não ignoro isso – já passou da hora de termos um olhar mais atento para essa realidade, pois omissão cobrará juros em um futuro próximo.

O problema, sobretudo após a pandemia, somente se agravou e não dá indícios de melhora a médio prazo. Como resultados temos milhares de pessoas em condições sub-humanas e o aumento da violência causada pelo uso de entorpecentes, pela fome, pela loucura e pelo desespero de quem não tem mais nada a perder.

No bairro onde moro a cada dia se nota um número maior de pessoas “morando” em calçadas, em parques e até mesmo em lixeiras. Uma mulher, inclusive, visivelmente usuária de drogas, instalou-se em meio a uma praça com mais de uma dezena de cães. Amarrados em cordas curtas, vivem como ela, expostos às intempéries. A praça, antes um espaço comunitário, vive imunda e entulhada de mil coisas que a mulher recolhe por aí.

Mesmo diante de dezenas de ofertas de ajuda, ela se nega a sair do local. Não doa os animais e, de acordo com nossa legislação, não pode ser retirada de lá à força. Todos sofrem, ela, os animais e as pessoas que tem suas casas ao redor ou que ali precisam passar. Alguma coisa está muito, muito errada e não adianta tentar tapar o sol com barracas de lona.

 

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e não se conforma com um mundo de barracas e palacetes – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br