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mudanca de hora

Joana acordou assustada. Lá fora o sol já estava a pino. A claridade invadia o quarto, esquentando-o. A sensação era de que dormira demais. Tateou ao lado da cama e não conseguiu achar o relógio, que deveria ter tocado às seis da manhã. Com certeza, estava atrasada. O filho ia perder o horário da aula e ela, o emprego. O patrão não tinha tolerância com atrasos.

Sentia o coração pulando na garganta e se levantou desesperada, indo direto ao quarto do filho de sete anos. Lucas dormia profundamente, abraçado ao urso de pelúcia preferido.

No rosto infantil, uma calma que havia muito ela não notava nele. Estava descansado. Quase sorria.

Era preciso acordá-lo. Teriam que sair sem tomar banho ou café da manhã. Ligaria para a escola, no caminho, dando alguma explicação que pudesse ser aceita, a mesma que teria que servir para o trabalho. Perder a única fonte de renda da família era impensável, uma tragédia.

Assim, porém, que se debruçou sobre a cama, prestes a acordar a criança, notou que o menino sonhava. Não os pesadelos de muitas noites, iniciados depois da morte prematura do pai. O que Lucas perderia de tão importante se faltasse, aos sete anos, em uma única aula? Ligaria para escola, explicando a situação.

Não poderia deixá-lo sozinho, entretanto. Ainda não sabia que horas eram, porque até o celular estava sem bateria alguma. Inexplicavelmente, o carregador estava igualmente desaparecido. Precisava de um café, antes de mais nada. Foi até a pequena cozinha do apartamento em que moravam havia dois meses, e percebeu que raramente tinha tempo de preparar uma refeição decente.

Respirou fundo e decidiu que naquele dia, ainda que por obra do destino, se daria ao luxo de viver mais lentamente. Não havia nada de urgente ou inadiável a ser feito no trabalho.

Seria sua primeira falta em anos de pontualidade extrema. Isso deveria valer alguma coisa. E se não fosse levado em conta, era sinal de que mais coisas estavam erradas em sua vida.

Enquanto o café coava preguiçoso, ela encontrou, perdido em meio às almofadas da sala, o carregador do celular. Como aquilo tinha ido parar lá, era um mistério. Resolveu, porém, num ato de rebeldia, não o ligar ao aparelho ainda. Tomaria café com as fatias de pão que, agora douradas, acabavam de pular da torradeira. Somente depois acordaria o filho, conferiria as horas, ligaria para o chefe.

Era curioso sentir os dias sem a precisão das horas. Deu-se conta de que há muito tempo era escravizada pelos ponteiros, pelos dígitos que indicavam uma vida em contagem regressiva. A liberdade, concluía, poderia vir de muitas formas, travestida em pequenos momentos. Iria se demorar dentro do pijama, embaixo do chuveiro, no abraço do filho.

Amanhã ela contaria novamente os segundos, os minutos, as horas. Por ora, viveria o tempo do dia e da noite. O momento da fome e do sono. Sentia-se uma rebelde, dentro de uma janela de paz, um oásis, ainda que fugaz. Há quanto tempo deixara de viver?

Acordou, com um abraço, imediatamente retribuído, o filho. Cada minuto ao lado dele era um prêmio, uma lembrança de outra existência igualmente amada. Fingiu, assim, somente daquela vez, não ter encontrado o relógio, escondido sob as cobertas, na cama de Lucas. Naquele dia, seria senhora de seu tempo.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e, vez ou outra, ousa ser senhora de seu tempo – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br