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Estou certa de que ninguém aguenta mais ler ou ouvir notícias ruins e tristes. De várias formas, de modos diferentes, estamos todos doentes, mental ou fisicamente. Adoecemos como sociedade e como indivíduos. A pandemia causada pelo coronavírus não é a única culpada dessa calamidade que vivenciamos, mas piorou muitas coisas e revelou outras tantas.

Ao menos aqui no Brasil, estamos prestes a completar um ano desde que nossas vidas mudaram, desde que convivemos com a ameaça constante da doença e das ausências precoces.

o gato

Se alguém me dissesse há seis anos que um dia eu teria 5 gatos e que minha cama seria acessível a eles, eu provavelmente chamaria essa pessoa de louca. Em outros textos já escrevi sobre como a Chica Maria, meu primeiro amor felino entrou em minha vida. Até então eu nunca tinha sequer considerado ter um gato como animal de estimação.

A vida toda convive com gatos, mas era uma relação diferente. Eu os via como animais arredios, que nem sempre gostavam de carinhos e que se apegavam ao lugar e não às pessoas. Quando a Chica chegou, minúscula e subnutrida, depois de ser resgatada das ruas por onde vagava atrás de comida, precisei rever todos esses equivocados conceitos.

Carnaval

Embora em um passado distante eu tenha aproveitado os feriados de Carnaval de uma forma mais ativa, dançando e me divertindo com amigos, há muitos anos somente aproveitei os dias livres para descansar, assistir meus programas preferidos, ler meus livros e principalmente para estar em família.

Feriados, de um modo geral, principalmente para quem trabalha, estuda, costumavam sempre ser bem vistos e aguardados. Pausas necessárias para relaxar um pouco, encontrar amigos, descansar, viajar. Mesmo para aqueles que não gostam do Carnaval e da folia de Momo, o feriado prolongado podia ser vivido de modo proveitoso. Mas isso, grosso modo, ficou no passado.

abacaxi

Gosto de colocar para germinar as sementes das frutas que consumo, mesmo que a rigor não tenha onde plantar, em caráter definitivo, posteriormente. Tenho verdadeiro encantamento em observar como a vida se deixa adormecer dentro de sementes de tamanhos variados. Vejo-as como pequenas joias que podem se transformar em árvores, produzir flores e novos frutos, abrigar ninhos, ganhar o céu.

Já distribuí para vários amigos, abacateiros, mangueiras, pitangueiras, limoeiros, mamoeiros, entre outras espécies. Todos resultantes de frutos que comemos e cujas sementes foram escolhidas e reservadas. Depois de alguns dias secando, faço o processo de germinação. Algumas sementes são colocadas no algodão umedecido, enquanto outras vão para pequenos recipientes com terra, até que surjam raízes e as primeiras folhas. A seguir, planto em vasos e delas vou cuidando até que estejam em condições de serem replantados em vasos maiores ou, se tiverem sorte, na terra.

Há alguns meses, talvez logo no início da pandemia, passei a colocar frutas e sementes para pássaros, na sacada de casa, dispostos em um comedouro que improvisei, usando uma caixa de madeira dessas usadas nas feiras livres.

A ideia de atrair pássaros para o meu quintal já era antiga, mas somente quando acabei ficando mais tempo dentro de casa, ainda que involuntariamente, é que isso se tornou realidade. Já havia colocado dois daqueles bebedouros de beija-flor em uma pequena árvore que temos em um vaso e foi sucesso imediato, mas uma alimentador para pássaros maiores era um desafio, considerando os meus cinco gatos.

Todos os dias aumenta a consciência de minha ignorância. Diante de tantas coisas a aprender, de frente e de costas para tantos mistérios desse mundo, aumenta a certeza de que tudo o que sei nem de longe se aproxima de uma milésima parte do que há para saber. Nesse sentido e em tantos outros, lamento a pequena duração da existência humana. Por outro lado, diante do mal do qual a humanidade é capaz, sinto, paradoxalmente, que alguns vivem demais.

Sempre irei me recordar, enquanto for dona de meus pensamentos, de uma, entre tantas frases do meu pai, que diz que morrer ignorante é um de seus maiores temores. Quando eu era criança, entretanto, não compreendia isso, mas é porque as crianças quase sempre flertam com a eternidade e com o pensamento mágico de que o mundo é simples, pequeno e decifrável.

Depois que minha vida deu uma reviravolta há alguns meses, deixei de ser uma pessoa com mil compromissos de trabalho para me tornar outra com uma agenda bem mais flexível. Quem me conhece sabe que gosto de sair da minha zona de conforto e de experimentar coisas novas. Assim, com tempo e curiosidade, aventurei-me em mais um curso, agora de Ilustração de Livro infantil.

Pra começo de conversar eu descobri logo na primeira aula que eu não sabia de verdade sobre o que era o curso! Aprendi que livro ilustrado não é a mesma coisa que livro com ilustrações. Eu tinha vivido na escuridão da ignorância até aquele momento e saber a diferença foi uma revelação que mudou toda a forma como eu vejo livros infantis. Em resumo, de forma muito simples, posso dizer que um livro com ilustração é aquele em que no meio do texto há desenhos, ilustrações isoladas, enquanto um livro ilustrado é aquele no qual o ilustrador é tão autor quanto o escritor, pois os desenhos também contam, em seu ritmo, a estória.

Há alguns meses, convidada por uma amiga, eu me inscrevi em um workshop de focaccia. Nos últimos anos tenho feito alguns cursos de pães, a maior parte com fermentação natural e em um deles cheguei a fazer uma focaccia, uma espécie de pizza com massa grossa, que usualmente tem recheio de tomate cereja com alecrim e sal grosso ou de calabresa.

Nunca tinha tentado fazer uma sozinha, em casa, mas até por isso resolvi fazer o curso, que começou às 9 e acabou às 16h. O professor era o Alex, da Padoca do Alex (@padocadoalex, no instagram), do Rio de Janeiro. Carioca bem-humorado e muito paciente para ensinar as quatorze mulheres e os três homens presentes, o Alex é uma simpatia. Embora eu tenha ficado meio cansada após tantas horas em pé, valeu muito a pena.

Houve um tempo em que eu gostava de brincar o Carnaval. Algo entre minha adolescência e juventude. Esperava ansiosa pelos dias nos quais passaria dançando nos clubes ao som de marchinhas e sambas clássicos. Depois de cinco dias de olhares furtivos, de alguns beijos roubados, de risadas e confissão de amores juvenis, restava a certeza de que às vezes a vida nos permite a fantasia.

Por outro lado, nunca me encantei com o Carnaval apoteótico, de luxo e luxúria, das passarelas das pequenas ou imensas sapucaís. Não aceitei Momo como meu sumo imperador e sequer assisto aos desfiles pela televisão. Não venho aqui, no entanto, fazer uma crítica aos que curtem a festa. Embora eu discorde de várias atitudes tomadas nesses dias e em função deles, acredito que a cada um apetece o que lhe é bom ou conveniente.

Como já contei aqui nesse espaço, há alguns meses eu trouxe para nossas vidas a Juju, uma cachorrinha branca que tem a aparência de um maltês de salto alto. Embora tenha cara de maltês, não tem propriamente o tamanho de um. Claramente é uma mistura entre raças, mas seja lá o que for, deu uma excelente combinação de genes, sobretudo no comportamento.

Juju é uma cachorrinha extremamente dócil com outros cães, gatos e pessoas. Gosta de carinho, é brincalhona e adora passear. Tem a estranha mania de andar pela casa nos puxando pelos calcanhares ou mordicando nossos chinelos (em nossos pés) e faz isso quase sempre que quer alguma coisa. Educada, normalmente faz xixi e cocô nos lugares certos e considerando que ainda tem 10 meses, nem faço conta das vezes nas quais ela erra. Afinal de contas, quem nunca, rs?

Todos os anos, ao término dos meses de férias, eu me sinto tentada a escrever sobre o tema. Talvez seja um hábito derivado dos tempos de escola, já que, naquela época, era comum que a professora nos incumbisse da tarefa de descrever como passáramos nossas férias...

Já nem me recordo quantos textos eu reinventei sobre o tema nos últimos tempos. Sem querer me repetir, mas é que, vivo pensando na diferença do que eu considerava férias “antigamente” (rs) e o que são minhas férias hoje. Não me queixo, deixo claro, mas é inevitável a comparação.

Há cerca de uns quinze dias foi oficialmente aberta a temporada de extermínio de avós. Na verdade, a coisa é um pouco mais ampla, mas os avôs e avós são os mais vitimados. Antes que o leitor pense se tratar de algum vírus específico que afete idosos eu devo advertir que não. Definitivamente, trata-se de outro fenômeno...

Exerço o magistério jurídico superior desde 1999, e embora a revelação desse fato possa permitir que se façam cálculos etários, nem daria para mentir, sobretudo tendo “infinitos” ex-alunos como testemunhas oculares do que espero, não tenha sido um crime (rs...). A relevância dessa data é no sentido de ilustrar o quanto de tempo tenho vivido a temporada de pobres velhinhos falecidos inexplicavelmente.

Na falta de título melhor para esse texto, foi essa a frase que me veio à mente. Lembrei-me de que um de meus últimos textos apelava para que São Pedro nos enviasse um pouco de abençoada chuva, para o bem das plantas, dos bichos e dos seres humanos. Por precaução, inclusive, antecipei-me no sentido de que ninguém me viesse culpar caso a água despencasse meio louca lá do céu, pois, pelo que tenho visto, ultimamente é tudo ou nada.

Pois bem, andei de fato procurando um índio para executar a dança da chuva, mas juro que não achei e que a chuva que abalou a cidade de São Paulo no final dessa semana em nada me é devida. Até faria bem pensar que disponho de algum canal direto com o dono do tempo, mas isso, no máximo, seria um “gato”... Por outro lado, a essa altura, eu estaria sendo massacrada por muitas pessoas, inclusive por mim mesma.

No começo da pandemia vivemos o desespero do desaparecimento de muitos produtos essenciais como álcool em gel, desinfetantes potentes como água sanitária, máscaras e luvas. Além disso, ainda tivemos o inexplicado sumiço de papel higiênico. Após algumas semanas o abastecimento desses itens se normalizou, bem como os seus preços. O que não sabíamos que seria artigo em falta constante era a educação.

Não que a gente tivesse uma expectativa muito alta quanto ao comportamento dos brasileiros, mas a esperança é sempre companheira dos momentos difíceis. Até consigo entender que muitas pessoas, em pânico, tenham saído correndo para comprar tudo o que lhes parecia indispensável, com medo do desconhecido e das privações. A histeria do inexplicável acaba até justificando certos comportamentos, quando não extremos.

Depois de várias semanas postergando, um belo dia resolvi tentar. Na verdade eu acabei apertando o botão de conectar meio sem querer e antes que eu pudesse desligar de pânico, ele já estava na tela do meu computador falando comigo.

__Hi. How are you?

Era tarde demais, o professor de inglês estava a postos, pronto para falar comigo, em inglês, obviamente, conectado por um aplicativo de aprendizado on-line, sentado em sua cadeira em algum lugar do mundo. Eu tinha duas alternativas, apertar o botão de desligar e fingir que aquilo nunca aconteceu ou seguir respondendo a ele.

Para

João Victor Souza Bittancout
Rua Clóvis Canto, n° 19
Jardim Shangrilá
São Paulo                                      SP 04852-008

Ainda ontem eu tinha quatro avós. Idosos eram eles e a distância etária entre nós parecia superar algumas vidas. Era como se tudo fosse eternamente distante. O tempo já os levou para sua morada eterna e hoje, ainda que isso me pareça muito estranho, eu mesma poderia ser avó, ao menos em termos de cronologia e possibilidades.

Acredito que já escrevi dezenas de textos sobre o tempo. Tenho certa fixação nele e isso só aumenta conforme avanço nos meus dias. Penso que seria maravilhoso se eu pudesse ter me congelado fisicamente nos meus 37 anos, mas minha mente e coração estão bem melhores hoje, mais sossegados, mais experientes.

Acreditei no Papai Noel até uns 8 anos de idade. Um belo dia resolvi perguntar se o bom velhinho existia mesmo. Diante da minha insistência meu pai acabou me contando, com a condição de que eu não revelasse o fato as minhas irmãs mais novas. No minuto seguinte à resposta dada eu me arrependi de ter perguntado. O mundo não era mais o mesmo. Tive muita vontade de dar com a língua nos dentes, mas cumpri o combinado.

Não tenho filhos, mas percebi que meus sobrinhos não se deixaram enganar muito tempo com essa estória de trenó voador. Em tempos de tecnologia, qualquer criança de pouca idade consegue dar um Google em “Papai Noel existe?” Enfim, complicado manter certos segredos nos dias de hoje. De toda forma não penso que há grandes prejuízos psicológicos em se acreditar no fantástico, no imaginário. Nem vou entrar no mérito da questão da cultura do consumo e adjacências, até porque é muito possível acreditar no Papai Noel e ainda assim ter presentes conscientes, porque tudo, no fim das contas, é uma questão de bom senso.

Não tenho mais estômago para assistir aos noticiários e nem mesmo para acompanhar as mídias sociais. Sinto-me tão mal, tão desalentada que tenho a sensação de que o mundo acabou e esqueceram de nos avisar. Fico com a impressão de que dia a dia os seres humanos destroem de forma irremediável a vida animal e o meio ambiente, mas que a maior parte das pessoas não ligam para isso ou fingem que não é um fato.

O misterioso, lamentável e provavelmente criminoso vazamento de óleo no litoral brasileiro, sobretudo no Nordeste, maculando praias, ceifando corais, peixes, répteis e mamíferos que já são obrigados a conviver com a sujeira infecta da dita civilização me causa asco, indignação e profunda tristeza.

vacina

Entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904, na cidade do Rio de Janeiro, então capital brasileira, ocorreu a histórica manifestação popular conhecida como a Revolta da Vacina. As pessoas, indignadas com a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, foi às ruas, recusando-se a tomar uma vacina que era feita de um líquido extraído de pústulas em vacas. Corria o boato que quem fosse vacinado ficava com aparência bovina. Em 1908, no entanto, quando a epidemia de varíola se agravou em demasia, o povo, em um movimento contrário, correu para ser vacinado.

Embora tivesse aprendido sobre isso na época da escola, há muito tempo, jamais poderia imaginar vivenciar uma situação parecida. Tudo me parecia surreal, uma realidade distante, algo fruto da ignorância das pessoas daquele início de século XX. Ninguém que eu conhecia havia nascido ou presenciado os fatos e meu pouco conhecimento do assunto vinha dos livros de História.

 olhos

Em tempos de redes sociais há a falsa impressão de que as pessoas estão com suas vidas completamente expostas, sem que haja nada mais a ser mostrado ou conhecido. Acredito, contudo, que seja exatamente o contrário. Nunca se soube tão pouco sobre o outro. Ao menos sobre a realidade dos outros. Nas redes sociais as pessoas encenam uma espécie de teatro e, competindo entre si quanto ao número de seguidores, quanto à foto mais curtida e qual a repercussão das postagens, sobre as auto ficções que criam. E no afã de tanta exposição, escondem-se do mundo real.

O senso comum impera no sentido de que as pessoas somente mostram nas redes sociais aquilo que lhes convém, a superfície polida e reluzente de uma carapaça que usam para proteger o que realmente são. Assim, quem se dispuser a fazer comparações com o que se publica na internet, inevitavelmente irá sofrer, almejando ou invejando uma vida de mentira.

estrelas

Serão infinitas as estrelas sobre nós? Quanto de vida haverá no Universo? E quem será que nos espia do lado de lá? Desde criança me faço essas perguntas, encantada com a imensidão que a noite revela aos olhos humanos. Quando pequena, sonhava que um dia seria possível viajar até a Lua ou mesmo visitar planetinhas simpáticos, repletos de seres incríveis, de formas e cores impensáveis.

Certa vez, creio que na passagem do Cometa Halley em 1986, fui com meu pai até um observatório ao ar livre, no qual estava alocado um poderoso telescópio. Recordo-me perfeitamente da emoção que me invadiu quando pude observar a lua e os anéis de saturno. As estrelas, outrora apenas distantes pontos luminosos, também pareciam estar ao alcance das pontas dos pés.

2020

Embora seja bem clichê, todos os anos, nesses quase vinte escrevendo crônicas semanais, produzo um texto como fechamento do ciclo que se fechou. Nesses derradeiros dias de 2020 preciso admitir que não sei nem ao certo sobre o que escrever. Esse ano calou, literalmente, a voz de muitas pessoas, inclusive.

Sei que não tenho nada de inédito a dizer sobre 2020, primeiro porque já dediquei a ele alguns textos, talvez na tentativa de entendê-lo ou mesmo de desabafar e, segundo, porque muita gente, sem dúvida, tem escrito sobre isso muito melhor do que eu. Ainda assim, no entanto, cairei na tentação de dedicar ao tema mais algumas linhas.

gigi

Se tem uma coisa que aprendi sendo tutora de animais há algumas décadas, é que os danadinhos parecem escolher sempre um entre dois momentos para ficarem doentes. Acredito que com as crianças se passe o mesmo. Basta que os pais/tutores tenham recebido algum dinheiro extra ou então que estejam em um momento financeiramente mais sensível e voilà: hora de correr ao médico ou ao veterinário.

E foi assim que, há algumas semanas eu tive que correr, em plena madrugada, até o hospital veterinário mais próximo, segurando nos braços minha cachorrinha que, em um repente começara a ter convulsões. Também como acontece normalmente com as crianças, os animais parecem ter problemas de saúde aos finais de semana, feriados e, principalmente, de madrugada.

fim de ano

Tempos de pandemia, quase tudo diferente, mas apesar dos pesares o fim de ano chegou. As crianças ainda esperam o Papai Noel e os adultos vivem a tola esperança de que no derradeiro dia do ano, a mágica da mudança de um dígito na contagem ocidental do tempo possa transformar alguma coisa.

Convenções sociais à parte, há toda uma série de providências que usualmente tomamos nos finais de ano. Temos questões de todas as esferas para resolver. Uma das menos importantes, mas mais usuais é a compra de presentes para aqueles que amamos ou de mimos de agradecimento que direcionamos com gentileza para as pessoas que nos auxiliaram no decorrer de mais um ano.

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Espero que estejam todos bem nesse momento e, principalmente, nos próximos. Aqui estamos bem também. Se ficar em casa é o certo ou o errado, sinceramente não sei. Não tenho conhecimento científico ou político o suficiente para emitir uma opinião embasada, que possa ser útil para alguém. Por ora, tão somente, posso dizer que estamos em casa, já que é possível trabalhar parcialmente desse modo. Então, sem considerações de outras ordens, escreverei apenas sobre o que é viver dentro de casa o tempo todo.

Nós, humanos, somos de fato bem adaptáveis. Em pouco tempo vamos criando novas rotinas, tratando de viver de acordo com a realidade que os dias impõe. Lógico que estou me referindo, em regra, a condições razoáveis de existência, mas ainda assim, a história da humanidade comprova que, mesmo diante do caos e da necessidade absoluta, os seres humanos se reinventaram e seguem se reinventando.

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Certa dose de tempo livre permite ao espírito humano um pouco mais de capacidade reflexiva. A gente acaba sendo obrigado a pensar sobre coisas importantes e em outras nem tanto. Abaixo, algumas constatações nada científicas ou comprovadas, algumas até jocosas, sobre toda essa situação pela qual o mundo vem passando:

1. A maior parte das pessoas sequer poderia imaginar que em 2020 gastaria várias horas dando banhos demorados em frutas, legumes e até em sacos de feijão;

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Empresto para esse texto o título da célebre obra de George Orwell, publicado em 1945, mas em nada quero comparar o comportamento dos animais ao dos homens. Entretanto, o mundo vivenciava um momento de muitas perdas à época, com o fim da 2ª Guerra Mundial, à semelhança da batalha que seguimos travando, no presente, com o vírus.

Ocorreu-me que em meio a tudo isso, a par de muitas reflexões, às quais já dediquei outras linhas, há uma que é também muito relevante, sobre o papel dos animais. Inicio relembrando que, mesmo havendo divergências, o provável início do vírus se deu por conta de hábitos alimentares pouco convencionais dos chineses. Nem me refiro aos animais que são ou que eram comidos lá, até porque há uma questão cultural envolvida, mas sim quanto a práticas como comer animais ainda vivos, além de outras práticas cruéis. Então, ao menos para mim, resta uma pergunta: estaríamos todos, em alguma medida, pagando por isso, na ordem de causa e efeito do Universo?

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Comecei a fazer pães ainda adolescente, inspirada pelo meu avô paterno, Seu José, que era padeiro. Infelizmente ele faleceu antes de conseguir me ensinar os segredos de seus pães, roscas, sonhos e outras delícias. Tivemos, no entanto, o tempo do encantamento. Pude observá-lo, muitas vezes, manipulando a farinha, transformando-a em massa que, após sair do forno, era não só alimento, mas obra de arte.

Perfumados, saborosos, em diferentes formatos e tons que iam do marrom mais acentuado ao mais claro, de cascas sutis e miolo macio. Foi um caso de amor à primeira mordida com manteiga. Comer pão é um prazer ao qual me dedico com alegria. Não abuso, no entanto. Como com a moderação de quem degusta, sabedora de estar diante de um alimento milenar, global e delicioso.

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Que o vírus mudou e continuará mudando para sempre a vida da quase totalidade das pessoas, penso eu, é inegável. Somente para ficarmos em alguns aspectos menos sombrios, pensemos no uso das máscaras. Obrigatórias para todos, caseiras, profissionais ou descartáveis, esse nada desejado acessório faz parte agora da rotina daqueles que precisam sair de casa, seja a que pretexto for.

Anteriormente restrita aos profissionais ligados à saúde ou à estética, pouco usada, infelizmente, por muitos que trabalhavam com alimentação, o uso das máscaras se faz imprescindível na busca da contenção dos casos da Covid-19. Como leiga no assunto, procurei me informar e, ao que me consta, usar a máscara, em princípio, não protege diretamente a quem a usa, mas sem aos demais e, se todos usarem, a proteção se faz efetiva.

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O tão temido frio chegou. Especialmente nesse ano, em tempos de vírus, a vinda do frio prenuncia tempos mais sombrios, eis que potencialmente agrava os sintomas provocados pela Covid-19. De fato, anseio por textos nos quais esse nome nem apareça, mas por ora fica quase impossível fugir completamente do assunto.

A temática de hoje, em verdade, é sobre o frio. Não sou grande fã das temperaturas baixas, mas aprecio as boas coisas que dias frios proporcionam. Gosto de cobertores no sofá, de assistir tevê ou ler enrolada nas mantas quentinhas, com uma xícara de café ou chá fumegando por perto. De dormir um pouco mais, com a justa preguiça das primeiras horas de claridade.

14

Às vezes eu penso que essa folha branca a minha frente, quando inicio meus textos semanais é uma espécie de confessionário. Nesses vinte anos escrevendo semanalmente eu já contei praticamente tudo o que podia ser publicamente contado da minha vida. Não porque eu pense que minha vida seja de interesse público, mas porque acredito que dividir experiências seja uma coisa útil.

Nesses dias de quarentena, nessa confusão de sentimentos que, estou certa, ocorre com praticamente todo mundo, fica complicado escrever sobre temas não pessoais, por exemplo. Recuso-me a escrever sobre especulações quanto ao pico da epidemia, sobre qual remédio presta ou não presta, se os governantes estão certos ou errados. O que posso escrever sobre isso se nada sei? Aliás, talvez apenas que ninguém sabe coisa nenhuma, isso sim.

13

Sendo uma pessoa agitada, inquieta, várias vezes julguei interessante a ideia de meditar, de praticar algo que me ajudasse com relaxamento e concentração. Sem qualquer informação sobre, achava que a Yoga poderia ser uma opção, mas acabei não me aventurando, meio por falta de tempo e meio por falta de ânimo mesmo. A quarentena, essa experiência insólita proporcionada pelo ano de 2020, mudou isso também para mim.

A ignorância é realmente uma aliada dos piores e mais equivocados julgamentos. Acreditava que a Yoga era uma prática meio passiva, centrada em respirar, expirar, meditar e não pirar. Causava-me preguiça a ideia de ficar parada em uma única posição por longo tempo, somente vibrando e recebendo energia do universo. Tinha certeza de que não era minha praia.

12

Definitivamente, 2020 será um ano histórico, daquelas datas que se transformam em marcos e referências futuras. Infelizmente, não por bons motivos. Como criatura mortal, é natural, ainda que lamentável, que todos os anos tenhamos perdas de vidas humanas. Em 2020, no entanto, a par de todas as outras causas que roubam a existência dos homens, ainda lidamos com a tragédia do Corona Vírus.

No mundo todo já são centenas de milhares de mortes causadas pela Covid-19 e nem sabemos quando isso irá parar. A maior esperança, talvez única, reside no surgimento de uma vacina. Embora muitas estejam em fase de testes, acredito que vários meses ainda serão necessários até que possamos lidar com o Corona com mais chances de sucesso. Até lá, não fazemos ideia do alcance da doença e, para além da prevenção, buscamos contar com a proteção do Universo.

11

Os brasileiros, de modo geral, completaram pouco mais de cem dias em isolamento social recentemente. Nem sei se “pouco menos” seja expressão que se aplica, em verdade. A sensação está mais próxima de “muito mais”. Sei bem que o fato de estar sem ir a praticamente lugar nenhum há quase quatro meses, trabalhando muito menos do que gostaria e precisaria, bem como sem interagir diretamente com família e a amigos, em nada se compara com as vidas perdidas por conta da COVID-19. Ainda assim, é praticamente impossível não pensar que esse ano de 2020 está sendo único em muitos sentidos.

Em meio a tudo isso, no entanto, a vida vai tentando achar um novo normal, um jeito de prosseguir, porque, por mais triste que seja (e é!), quem está vivo, sobrevivendo, tem que continuar. Fico pensando em como deve ter sido horrível, infinitamente mais, ver as pessoas morrerem às toneladas, em tempos de grandes guerras. Agora entendo que, conforme relatos que li, sobreviver a tragédias também tenha seu preço, pois é como se fosse errado continuar sorrindo ou cavucando motivos para manter sorrisos e esperanças.

10

Para além de toda tragédia que envolve essa pandemia e da tristeza que isso envolve, a vida continua, inexoravelmente. Já escrevi sobre isso em outros textos e sempre me parece que é preciso justificar a continuidade, como se houvesse alguma culpa em prosseguir. Enfim, por mais injusto que seja, o mundo não para quando morremos, embora nosso mundo pare quando perdemos alguém querido.

Assim, enquanto os dias se sucedem, nossas células continuam seu trabalho de crescer, alheias a nossa vontade. Os cabelos e unhas que o digam. Em relação às últimas é bem mais simples resolver, já que cortá-las não exige grande habilidade na maior parte das vezes. As unhas das mãos, sobretudo, têm suas pontas facilmente extirpadas com o uso de cortadores. Claro, se a pessoa enxerga bem ou tem o mínimo de coordenação motora.

09

Dias atrás os jornais noticiaram o lamentável episódio em que um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, após ser abordado por policiais enquanto caminhava na Orla da praia de Santos, sem usar máscara, deu a velha conhecida “carteirada”. Por ocupar um cargo de tanta importância e destaque, o que se esperava dele era exatamente o contrário de desobedecer à norma legal.

Desconheço a realidade de outros países nesse quesito, mas, infelizmente, no Brasil, muitas autoridades se comportam como integrantes de uma espécie de realeza, coberta de benefícios e regalias que não se justificam diante do cenário econômico nacional. Essa situação se estende pelos três Poderes e em suas várias esferas.

08

Aqui na cidade de São Paulo, onde moro e de onde escrevo meus textos, aos poucos várias coisas vão se “normalizando”, se é que a palavra normal ainda faz algum sentido nesses dias. Ao contrário de muitas outras cidades do interior do Estado, por exemplo, o comércio por aqui, em grande parte, já está aberto.

Shopping Centers, Academias, bares e restaurantes já começam abrir com ocupação limitada e com horário reduzido. Não há mais espaço para aglomerações, filas e confraternizações públicas. Ao menos até que se tenha uma vacina devidamente testada, segura e disponível gratuitamente, viveremos um arremedo da vida que desfrutávamos.

07

A notícia de uma menina de 10 anos grávida em decorrência de estupro e outros abusos praticados pelo próprio tio trouxe à tona uma série de discussões, mobilizando diversos segmentos da sociedade. A questão, extremamente complexa, ao meu ver, requer uma reflexão que vai além de tipificar o tio como estuprador sórdido, atributo que sem dúvida lhe cai bem.

Por óbvio que qualquer sociedade evoluída tem que criminalizar e repugnar o ato monstruoso de submeter uma criança de seis anos, idade que a garota tinha quando do início dos abusos, a práticas sexuais. Uma criança não é uma mulher em tamanho pequeno, mas um ser humano em formação, tanto física quanto psicológica. Juridicamente, seja civil ou penal, é incapaz e não pode ser responsabilizada por absolutamente nada aos 10 anos de idade.

E lá vamos nós mais uma vez para outro período de eleições. Nesse ano surreal de 2020 estamos às vésperas de eleições municipais. Vereadores e prefeitos serão eleitos para, em tese, representar a população em prol dos interesses coletivos. Festa da democracia? Momento de escolhas decisivas? Infelizmente, ao que me consta, tais perguntas não possuem as respostas mais apropriadas.

Por óbvio que a democracia requer representação e que, em nosso sistema governamental, o modelo requer a escolha de pessoas para gerir a vida e o patrimônio público. A história política nacional, não só a recente, mas principalmente, não é exatamente estimulante para quem deseja ver bem preenchidos os cargos públicos eletivos.

Se eu pudesse, quando criança, teria mergulhado sem pestanejar dentro de um ninho de formigas, explorado uma colmeia de abelhas ou me escondido sob a proteção de um casulo. Nos meus devaneios, nas minhas brincadeiras fantasiosas, isso aconteceu muitas e muitas vezes. Temia até que um dia, de por conta desse desejo, uma fada qualquer me fizesse encolher tanto que jamais seria encontrada pelos meus pais. Perdida, sozinha, teria que pedir abrigo no formigueiro mais próximo.

O mundo em miniatura sempre me atraiu, principalmente aquele habitado por criaturinhas de formatos e cores incríveis. Eu era capaz de passar horas observando a lida das formigas, naquele leva e traz de coisinhas. Quando ganhei uma lupa, contemplava suas anatomias um pouco melhor, mas sempre com cuidado para que o sol não as fuzilasse através da minha lente. As lupas sempre me pareceram como mágicas janelas, as quais eu buscava abrir com minha curiosidade.

Dizem por aí que o mundo, de uma forma geral, nunca mais será o mesmo lugar depois do Corona vírus. Eu penso que o mundo muda é o tempo todo e a cada dia que se passa, habitamos em um lugar diferente, em muitos sentidos. Não acredito, infelizmente, que estejamos caminhando para um lugar melhor, mas isso é tema para outra conversa.

O que me parece certo, mais previsível, ao menos no meu caso, é que jamais voltarei a fazer compras da mesma forma. Ir ao mercado se transformou em uma experiência bem peculiar. Mesmo superada a primeira sensação de pavor que tomou conta das pessoas no começo da pandemia, há práticas que já se encontram inseridas no cotidiano e as quais dificilmente, a médio prazo, serão abandonadas.

Pensei muitas vezes antes de me decidir sobre se escreveria ou não sobre esse assunto, mas acabei cedendo à vozinha que, dentro de mim, falou mais alto. Enfim, penso ser importante ao menos uma reflexão sobre alguns acontecimentos envolvendo a rede de supermercados Carrefour.

Em uma rápida pesquisa pela internet foi possível identificar pelo menos oito tristes episódios envolvendo a empresa. A título de exemplo, vou focar minhas considerações nos três casos mais recentes.

Muitas vezes eu tenho a impressão de que os dias se avolumam e, ao mesmo tempo, se diluem, passando tão depressa que mal me dou conta. Venho com essa sensação já há bastante tempo, mas nesse ano, em específico, isso ganhou proporções especiais e paradoxais.

Na maior parte do tempo as horas me parecem imensas, cheias de minutos infindáveis, como se os meses me aprisionassem, repetindo-se e rodando em círculos. Ao mesmo tempo, por outro lado, ontem mesmo tínhamos a triste notícia do primeiro caso de contaminação por corona vírus no Brasil e de repente choramos as quase duas centenas de milhares de mortes.

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Incrível como a vida busca prevalecer, mesmo nos ambientes mais inóspitos, mais improváveis. Plantas, animais e seres humanos parecem ter um poder especial quando o assunto é a superação, quando a única opção é a luta pela sobrevivência.

Sempre penso nisso, em como a vida abre passagem em meio à morte. Filosófica e empiricamente, no individual a morte sempre vencerá a vida, sendo mais um arremate, um acabamento da trama da vida. No entanto, no coletivo, a vida ainda é a campeã, renovando-se sempre que tudo parece perdido.

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Em várias oportunidades eu já me manifestei no sentido de gostar do lado bom que as redes sociais podem oferecer. Uma dessas vantagens é a possibilidade de poder trocar ideias, de ser um espaço democrático. Contudo, preciso registrar que tenho repensado esse meu posicionamento, sobretudo em tempos de intolerância e política.

Tenho por hábito não excluir ninguém das minhas redes sociais, mas tenho me segurado a cada dia mais para não fazer isso ou mesmo para não apagar meu perfil e simplesmente deixar a vida para o real mesmo. Ao menos, desse lado de cá da tela ainda é preciso o olho no olho.

soccer

E toca falar de futebol... Quando o assunto é esporte minha preferência é para a prática dele. Jamais fui uma pessoa sedentária e embora aprecie a boa soneca, sou agitada e não gosto de ficar quieta por muito tempo, exceto se estiver com um livro em mãos. Assim, na medida das minhas possibilidades físicas ao correr dos anos, sempre aliei aos meus dias a prática de alguma modalidade esportiva.

No caso do futebol é a mesmíssima coisa. Cheguei a integrar um time feminino nos meus tempos de colegial, o ensino médio dos dias atuais. Admito que gostava muito da emoção de correr atrás da bola, de tentar driblar a jogadora do time adversário e do indescritível de marcar um gol. De fato, posso dizer que foi uma atividade prazerosa e que deixou boas lembranças. Paradoxalmente, porém, quase não suporto assistir esporte pela televisão, principalmente futebol.

pombos

Sei que o assunto é controverso, mas preciso dizer que eu me compadeço das pombas. Aparentemente elas são agora o alvo de muitas críticas e até mesmo de ódio coletivo. Há várias questões a considerar quanto à questão de saúde pública que envolve as pombas, mas também é preciso lembrar de que são seres vivos e que, como tudo que respira, lutam pela sobrevivência.

Minha história com essas aves vem de longa data. Ainda criança eu já me definira o meu lado: era uma aliada das pombas. Sempre foram delas as minhas migalhas, os meus restos de comida. Descoberto seu local de ninhos, era comum que eu lá subisse para olhar e pegar os pequenos ovinhos brancos. Quando os pequenos filhotes nasciam, eu sempre estava por perto para deles me enamorar.

E infelizmente chegou o dia de dizer adeus. Depois de quase dezesseis anos juntos, foi a vez do Peteco se despedir desse plano. Lembro-me da primeira vez que o vi, lá na casa dos meus amigos Cláudio e Rosana. Ele era minúsculo. Lindo. Cheio de vida. Mal parecia ter pernas, de tão curtinhas que elas eram. Dois meses depois do nosso primeiro encontro ele entrou por definitivo em nossas vidas.

Quando ele chegou, já um pouco maior, era muito medroso e foi difícil conquistar a confiança dele. Nós o chamávamos, mas ele não vinha, tremendo de medo. Aos poucos, no entanto, fomos vencendo suas barreiras. Eu o colocava no colo e entoava um verso de uma canção que, em sua versão para o português dizia “se eu me apaixonar, tem que ser pra sempre, ou não vou me apaixonar”. Ele me encarava, com olhos grandes, como quem me desafiasse à paixão.

Em outros momentos já comentei que gosto do bom uso que se pode dar para as novas tecnologias. Mídias sociais e aplicativos de comunicação podem ser extremamente úteis se utilizados para coisas boas. Para além de otimizar tempo que seria gasto em longas reuniões, possibilitando troca de opiniões em tempo real, bem como para permitir que se possa estudar das mais variadas formas, ainda viabiliza reencontros impraticáveis fisicamente.

E foi através do Whatsapp que, na semana que se passou, pude reencontrar, ainda que virtualmente, meus amigos de colegial, o que os mais novos conhecem como ensino médio. Acordei em uma manhã e vi que tinha adicionada a mais um grupo entre as dezenas das quais faço parte no referido aplicativo de celular. Em poucos minutos mais e mais pessoas, cujos nomes fui reconhecendo aos poucos, foram chegando e trazendo de volta memórias de quase trinta anos atrás. E foi assim que eu me senti entrando em uma máquina do tempo virtual...

Essa semana que se passou eu me lembrei muito dessa música, lá dos meus idos de adolescência, da banda Legião Urbana. Fui convidada para uma festa na rua da minha casa. Há alguns anos uma dupla de rapazes instalou sua produtora de filmes na última casa da pequena rua de um único quarteirão em que vivo em São Paulo.

Fazer amizade com os dois foi a coisa mais fácil desse mundo, eis que além de serem pessoas muito do bem, ainda são divertidos e excelente vizinhos. Esse ano estavam comemorando oito anos da produtora que tem em sociedade e convidaram a vizinhança para festa que fariam. O figurino sugerido era anos 80, com o exagero característico da época. Para prestigiá-los aceitei o convite e fiquei pensando no que iria vestir.

Sempre que posso, esqueço-me de pensar na morte ou em envelhecer. Na verdade, evito fazê-lo, até porque nada disso adianta. O tempo não vai mudar porque eu vou me preocupar com ele, nem mesmo retroagir por essa atividade. Ao contrário, tempo será desperdiçado sendo pensado. Tempo se gasta vivendo e, na conta do tempo, não há abatimento das horas não usufruídas...

Ainda que eu tente viver, quase sempre, dessa forma, é inevitável que, em determinado momento, a pessoa comece a notar que o tempo está passando, deixando um pouco mais evidentes os seus rastros, os seus caminhos pela vida. Por óbvio, não faz sentido pensar no tempo quando ele infinito, quando tudo ainda é broto e flor.

Antes que alguém pense que vou fazer uma apologia à onda de filmes sobre zumbis, já ressalto que não estou entre os fãs desse tipo de monstro. Confesso que os vampiros, lobisomens e fantasmas, de alguma forma sempre habitaram meu imaginário, suscitando não só o meu medo, mas também meu fascínio. Já com os ditos mortos vivos, daqueles que ficam caindo aos pedaços, verdes e gosmentos, a coisa é diferente.

Há nos vampiros e nos homens lobos certa dose de erotismo, de mistério e de sedução, que proporcionam a esses personagens certo quê de atraentes. O cinema e a literatura, aliás, muito já trouxeram e exploraram sobre a temática do amor estranho entre humanos e criaturas da noite. Mas falando sério, alguém consegue imaginar um romance agradável entre um vivente e alguém que vai apodrecendo, deixando pedaços pelo caminho e com muita vontade de comer seu cérebro ou um pedaço qualquer que você deixe à mostra, sem querer? Então...

Gosto de viajar e de programar as minhas viagens. Não viajo muito, no entanto. Primeiro porque não é fácil economicamente me ausentar por longos períodos. Como professora universitária, eu tenho que conciliar minhas férias com as férias escolares, período de alta temporada, o que encarece, infelizmente, quase todos os destinos. Além disso, tenho vários animais de estimação e não é tarefa simples deixá-los aos cuidados de outras pessoas por muito tempo. Tanto as viagens nacionais como as internacionais sofrem um expressivo aumento em seu custo, o que acaba dificultando viagens para locais mais distantes.

Mas a questão financeira não é o único empecilho para maiores viagens. O fato é que não fico confortável ficando afastada de casa por muito tempo. É até difícil de explicar, mas chega um ponto em que sinto legítimas saudades de casa. Fico com banzo. Sinto falta do cheiro e da maciez da minha cama, dos meus programas de televisão, dos meus bichos, dos meus livros. Em resumo: daquilo que verdadeiramente é meu, no sentido mais filosófico da coisa.

Ainda ontem eu passeava pela internet quando vi uma notícia sobre um senhor de 96 que havia escrito uma música para a esposa com quem havia sido casado por 75 anos e falecera havia um mês.

Assisti ao vídeo e, uns 10 minutos depois eu estava me acabando de tanto chorar e com meu coração pesaroso. Contava-se a história que, havendo naquela cidade um concurso de melhor música, esse senhor, que não sabia tocar ao cantar, ao invés de enviar um vídeo, mandou uma carta aos organizadores do evento, contando a sua história de amor e a homenagem que ele fazia, pela letra, àquela que fora sua companheira de tantas décadas.

Acabei, inadvertidamente, por conta do feriado, esquecendo-me de comentar sobre a Páscoa, na semana passada. Eu tinha outro texto em mente, mas quando vi, já tinha passado da hora de enviar meus singelos escritos àqueles que me fazem o favor de publicá-los.  Daí, hoje, pensando sobre o quê escrever, somente um assunto me veio à mente: ovos!

Desde que me conheço por gente tenho fascinação por ovos. E não apenas os de chocolate. Gosto tanto de admirá-los quanto gosto de comê-los. Lembro-me, assim, antes que fosse quase proibido comer ovos pela manhã, antes que o colesterol fosse uma ameaça conhecida, que meu pai, todos os dias, logo cedo, comia um ovo meio cozido, meio cru, aberto na parte de cima e salpicado com sal. Aquilo era uma gostosura, principalmente quando eu comia parte do dele, antes que ele fosse trabalhar. Se fosse hoje, o monstro da salmonela acabaria com a brincadeira. Com certeza, o mundo se tornou um lugar mais perigoso de se viver...

A cada dia que passa o que mais se ouve é que as pessoas estão desanimadas, infelizes com o que fazem, com a vida que levam, com no que se tornaram e por aí ao infinito. De fato, viver não é algo simples. Ser feliz também não, mas deveria.

Vez ou outra eu me dou ao direito de filosofar em voz alta. No caso presente, por escrito. Nesses momentos, analiso a questão da felicidade. Não creio que seja possível ser feliz o tempo todo. Não daquele tipo de felicidade que fica estampada na cara. Mas é possível viver feliz, de modo geral, de uma felicidade que se cultiva na alma. Assim, mesmo nos momentos mais difíceis, quando o corpo sente, o rosto chora, a alma está lá, dando guarida e prometendo dias melhores.

Quem me conhece sabe que meu amor pelos animais é algo que não escondo, que não disfarço e de que não me envergonho. Não me lembro de um só momento em que eu não estivesse rodeada por eles ou desejando estar. Gosto de pássaros, peixes, cães, gatos, animais silvestres, pequeninos, grandes, bonitos, feios, mansos ou ferozes. Para mim, por sinal, os animais, pela sua diversidade, são as mais belas obras da natureza.

Não sou daquele tipo de pessoa que prefere bicho a gente, mas nem o contrário. Não tenho filhos e é provável que não os tenha, e isso por opção. Tenho muitos animais em casa, o que não significa, por outro lado, que eu os considero como os filhos que não tenho. Nada contra quem, diga-se de passagem, mas não é dessa forma que os vejo. Eu os tenho como seres que amam e aos quais eu posso dar amor e aos quais devo respeito.

Diante de tantos fatos escabrosos que vem ocorrendo ultimamente, eu não tenho me sentido muito confortável para dizer que somos uma sociedade civilizada, não no sentido de que nos tratamos um ao outro com respeito, com observância aos limites alheios e à vida do próximo.

Fico imaginando se as pessoas sempre foram assim ou se, agora, tudo ficou mais visível, menos velado e mais globalizado. Se somos moldados todos do mesmo barro, porque alguns de nós são capazes de tamanhas atrocidades, de tanta indiferença e violência? Vejo tanta gente preocupada com a diferença da cor de pele, de condição econômica, de preferências por times, de sexo, de beleza, mas pouco ouço dizer de um inconformismo geral quanto a diferenças mais profundas, mais significativas, como caráter, ética, moral, bom senso, piedade...

A cada dia que passa eu tenho a percepção de que as pessoas, em geral, estão ficando menos tolerantes e impacientes. De minha parte, também não fico muito diferente, sobretudo em algumas épocas do ano. Busco, contudo, estar atenta aos meus próprios excessos, porque, no fim, a maior prejudicada serei, direta ou indiretamente, eu mesma.

O que percebo é que o nível de estresse das pessoas está muito alto. Não sei se é um fenômeno moderno ou se é mais característico das grandes cidades, mas eu não tenho a impressão de que sempre tenha sido assim. Ao meu sentir, porém, há lados positivos e negativos nessa forma de ver e agir.

Dia 08 de março se comemora o Dia Internacional da Mulher. Datas como essa me levam a muita reflexão. Primeiro que, já de cara, sou um tanto desconfiada de datas comemorativas, quando delas se esquece o significado e tudo o que resta é a versão comercial da coisa.

É sabido que as mulheres tiveram que lutar muito pelos seus direitos, eis que, historicamente, em muitas culturas, inclusive no Brasil, foram tratadas como objetos, como pessoas com direitos menores, menos aptas e menos merecedoras de respeito e proteção. Mas também é fato que tal não se deu apenas com as mulheres, mas também com as crianças, com negros, índios, com os mais fracos, com os deficientes e com qualquer um que não pudesse se impor. Não sou uma historiadora, mas creio que a história do mundo é, de fato, uma história de dominação.

O inverno ainda não se instalou oficialmente, mas ao menos aqui na capital paulista o frio já se fez anunciar. Embora a temperatura oscile um pouco, houve dias realmente bem frios, nos quais o vento fazia doer o rosto. Em dias assim, fica muito difícil não pensar naqueles que não tem como se aquecer, naqueles que vivem à margem da sociedade e até da solidariedade.

Por certo que a questão social é muito complexa e que não há uma causa única, um culpado a ser identificado. O fato é que enquanto se discutem teorias, analisam estatísticas e estratégias, pessoas e animais pagam na pele o preço da indiferença e do desamor. A fome, o medo e o desalento não esperam por decisões burocráticas, bem como a vida e a morte seguem seus próprios planos.

Ao contrário do clássico romance da escritora Maria José Dupré, esse não é um texto sobre perdas, mas sobre ganhos ou acréscimos, como se preferir. Lembro, inclusive, de que quando eu era uma aluna do hoje nomeado ensino médio, o livro figurava entre os de leitura obrigatória e embora eu sempre tenha gostado muito de ler, não gostei da tristeza que a história carregava, da dor das perdas que nos diminuem com o passar dos anos.

Retomando o mote desse texto de hoje, o caso é totalmente outro. Pois bem, como já relatei aqui, no final do ano, enquanto eu passava as festas com meus pais e irmãs, achei pela rua dois filhotinhos de gatos, ambos pretinhos e machos. Muito dóceis, foi extremamente fácil fazer com que viessem até mim. Constatado que não tinham dono e que corriam risco sozinhos pelas ruas, resolvi resgatá-los, nomeando-os provisoriamente de Benedito e Bento.

Nunca deixo de me surpreender com o fato de que vivemos em completa ilusão sobre a natureza da existência humana. Talvez até por pura falta de opção, passamos nosso tempo nesse mundo certos de sermos feitos de algum material indestrutível, como se fosse aço e não pele, sangue e osso a compor nossa forma física.

Penso também, por outro lado, que a falsa sensação de imortalidade decorra do fato de que, íntima e subconscientemente sabermos que nossa essência reside em nossa alma e essa sim é imortal. Quiçá seja esse reconhecimento que nos impulsione para frente, que nos dê a ilusão de que essa casca física é mais forte do que de fato é.

Não é minha preferência escrever sobre política. Sempre temo não ser bem entendida, mas desde já algum tempo certas atitudes vem me incomodando profundamente. Assim, diante da prisão do ex-presidente Lula, achei por bem abrir uma exceção para comentar alguns comportamentos.

Comentei em outras oportunidades nesse espaço que gosto de vários aspectos das redes sociais. Aprecio a oportunidade de reencontro e reaproximação com amigos da infância, com pessoas que vivem fisicamente distante de mim e mesmo para conhecer pessoas em grupos de interesses em comum, como, no meu caso, por exemplo, literatura e pães, entre outros.

Eu preciso confessar que sinto um certo desconforto diante dos inúmeros e variados comentários sobre a morte da vereadora do Rio de Janeiro. Embora eu tema ser mal interpretada quanto ao que vou escrever, não consigo deixar de fazê-lo.

Pode até ser que seja ignorância de minha parte, mas até então eu jamais tinha tomado conhecimento da existência dessa moça, nem mesmo do ativismo dela pelos Direitos Humanos. Acredito, ainda, que a imensa maioria dos brasileiros também não o soubesse. Registro até que é sempre lamentável, por sinal, quando alguém que defende boas causas não é tão conhecido como quem se notabiliza pelas partes do corpo que exibe em rede nacional.

E no último sábado lá fomos nós de novo para mais um passeio de trem. Dessa vez o destino foi Paranapiacaba. Situada no município de Santo André, a Vila de Paranapiacaba é um roteiro que vale pelo aspecto histórico e pela paisagem. É possível chegar até lá de carro também, mas optamos por fazer o passeio indo de trem, no expresso turístico que sai da estação da Luz, no centro antigo da cidade de São Paulo.

A estação da Luz, aliás, na plataforma de embarque dos trens proporciona a sensação de uma viagem no tempo. Restaurada, a estação é de uma beleza nostálgica. O trem para Paranapiacaba sai aos domingos, pontualmente às 8h30. As passagens precisam ser compradas com muita antecedência, cerca de quase dois meses, eis que a procura é muito grande.

Mesmo antes de aprender a ler eu já era fissurada por livros e pela mágica que são capazes de produzir assim que suas páginas são abertas. Tão logo aprendi a ler, nunca mais consegui me manter longe de um livro.  Não se passa um único dia no qual eu não tenha lido algo, sem que eu tenha me aventurado para dentro de alguma outra realidade, outro mundo ou simplesmente para vida de outras pessoas.

Acredito até que quando o assunto é livro eu tenho praticamente uma compulsão. O detalhe é que não tenho o mesmo ímpeto consumista para praticamente nada. Sou uma pessoa de gastos ponderados, que planeja e gasta de acordo com os recursos disponíveis. Contudo, perco a cabeça quando entro em alguma livraria ou mesmo banca de jornal. Ainda que eu não faça loucuras, sempre saio carregada de livros. Na pior das hipóteses (ou na melhor?) saio de lá com ao menos um exemplar.

Mais uma vez é Páscoa! Ainda ontem era Carnaval, penso. A cada dia que passa, minha percepção do tempo toma novas dimensões. Tenho a sensação constante de que o tempo se esvai de minhas mãos, sem que sequer as pessoas dele possam se dar conta completamente. Não digo isso como quem se lamenta, mas como quem constata algo irrefutável.

Então, novamente, na história do mundo cristão, é Páscoa. Penso nessa data tal como a vivenciei em minha infância, e em como a vivencio atualmente. É um paradoxo, mas tudo está tão igual e ao mesmo tempo, tão diferente. Lembro-me, com certa nostalgia, dos meus tempos de criança, nos quais nem havia tanta variedade de ovos de chocolate, muito menos ovos recheados de brinquedos.

É claro que esse texto poderia ser mais uma manifestação quanto ao atual estado de coisas. Eu poderia reiterar, mais do que já disse por aí, que não somos, enquanto população, tão inocentes quanto ao temos passado. Elegemos os políticos que aí estão ou estiveram no poder e, quando chega nossa vez de demonstrar que temos ao menos um verniz melhor, saímos por aí tentando abastecer nosso carro ou nosso carrinho de compras sem ao menos nos perguntarmos se tal conduta irá afetar o próximo.

Isso sem dizer, por óbvio, do absurdo da falta de respeito, de caráter, de solidariedade de quem saiu vendendo pelo triplo do preço toda sorte de mercadorias que já estavam em estoque, simplesmente pela chance de lucro fácil e obsceno. Assim, lamentável, por dizer o mínimo, percebermos que somos uma sociedade doente que fica esbravejando tola e inutilmente, contra a veneno que se auto inoculou. Não são poucas as vezes nas quais eu penso que não há saída, exceto uma porta de saída.

O dualismo entre homens e mulheres é uma realidade que apresenta inúmeras facetas. Machismos e feminismos à parte, há dezenas de conflitos e questões a serem analisadas que ultrapassam o simplismo. Longe de me sentir com propriedade para discutir, contudo, esses aspectos antropológicos, cabe-me a defesa da força feminina.

Dizer que as mulheres são o sexo frágil é, no mínimo, desconhecer a realidade de vida de quase todas as mulheres do mundo. Já registrando que não se trata de uma competição sobre quem faz mais ou menos, de quem é melhor, mais forte ou mais capaz, até porque acredito que somos, enquanto indivíduos, muito mais complexos do que as simplórias comparações que podem ser feitas. Somente é que é incontestável que não há um sexo frágil, tampouco que tal rótulo possa se aplicar às mulheres como um todo.

Embora a gente viva acreditando que ao virar o ano as coisas possam mudar, a verdade é que nem de longe isso acontece como gostaríamos. O que nos move, no fundo, é a esperança de que novos ciclos comecem e que antigos se fechem. Já escrevi sobre isso várias vezes, inclusive. Fico até pensando que fiz isso de forma inconsciente, talvez pensando em caixa alta e tentando me convencer disso.

O fato é que 2018 já gastou metade de seu primeiro mês e muito do que vejo por aí são os mesmos velhos problemas. Os pobres continuam pobres e os ricos continuam ricos. A classe média, como sempre, vive se espremendo para sobreviver, tarefa cada dia mais inglória. Passadas as festas de fim de ano, passou também o alívio de se ter superado mais uma etapa, bem como aquela sensação de que os problemas estavam pausados, meio suspensos pela animação e pela fé em dias melhores.

Essa semana o Brasil viveu um lamentável momento histórico. Nós, brasileiros, tivemos a triste tarefa de assistir mais um julgamento de um ex-Presidente da República. Independentemente de posição política, acho triste que isso esteja acontecendo. Triste não pela pessoa envolvida, de quem nunca fui sequer simpatizante e que jamais teve meu voto, mas sim porque nenhuma nação que se preze pode se orgulhar ou ficar feliz de ver aquele que um dia ocupou o mais importante cargo político, sentar-se no banco dos réus e, mais do que isso, sair de lá condenado por crimes que atingem, ainda que indiretamente, interesses de todos os cidadãos.

Eu tenho vergonha alheia pelo Lula! Vergonha por ter representado o sonho de tanta gente que nele votou e que agora tem que encarar, aceitando ou não, que ele foi condenado criminalmente, com julgamento confirmado em segunda instância. Vergonha de quem ficou alardeando que defendia os pobres, os necessitados, mas que só fez enriquecer aos seus e aos seus comparsas.

Esse texto talvez faça mais sentido para quem foi ou ainda é professor, mas, de uma forma ou de outra, todos já fomos ao menos alunos em algum momento de nossas vidas. Acredito que seja na área que for, a realidade das escolas e universidades não seja muito diferente ao final dos períodos letivos. No fim das contas, determinadas situações invariavelmente se repetem, passe o tempo que passar.

Lá já se vão quase vinte anos desde que comecei a dar aulas, mas muito antes disso eu era aluna e percebo que, de lá para cá, quase nada mudou quando o assunto é justificar o injustificável. Parece-me, tão somente, que é uma questão de perspectiva, do lugar que se ocupa, ou, falando mais diretamente, se o sujeito que dá as desculpas esfarrapadas é o aluno ou o professor.

Ele conseguira o mais difícil. Foram muitos e muitos dias à espreita, aguardando a oportunidade perfeita. Em muitos momentos ele tivera que ocultar seus verdadeiros instintos, suas reais ambições. As pessoas de fato eram muito ingênuas se não tinham se dado conta de que aquilo era certo, de que era o inevitável a ocorrer.

Por fim o dia havia chegado. Depois de uma longa espera, não apenas ele estava pronto, como a situação era a mais propícia possível. Com certeza ele não poderia ser culpado pelo resultado dos seus atos. Nem seria justo que, no fim das contas, fosse imputado a ele algum propósito menor, algum desejo que ele pudesse ter intenções escusas, quando, na verdade, tudo era muito claro: ele só desejava a liberdade, o livre arbítrio, o poder de se autodeterminar.

João sempre fora religioso e crente em Deus. Foi um daqueles meninos que todas as mães dos colegas tomavam como exemplo. Bom aluno, educado, gentil, foi um garotinho brincalhão, risonho e cheio de vida. Quando o pai adoeceu e ficou impossibilitado de trabalhar, João assumiu o papel de homem de casa e aos quinze anos passou a cuidar da padaria da família.

Dois anos depois da morte prematura do pai, seu Eulálio, aos 49 anos, João concluiu os estudos do ensino médio, trabalhando de dia e frequentando a escola à noite. Infelizmente o sonho de cursar uma faculdade teria que ficar para outro momento, outro tempo, outra vida talvez. João trabalhava com afinco e em momento algum maldizia a vida ou o destino que lhe privara de concretizar alguns sonhos. O pai, onde quer que estivesse, por certo estaria orgulhoso dele e isso lhe bastava.

Tento imaginar o quanto foi linda a cidade do Rio de Janeiro antes do descobrimento do Brasil. Todo o verde das florestas, o azul esmeralda do mar, o branco amarelado das areias, as dezenas de cores das exóticas aves, tudo isso banhado pelo amarelo dourado do sol. De fato, tivesse o poetinha passeado por lá naquela época, teria ficado sem palavras para descrever tanta beleza.

Estive uma única vez no Rio de Janeiro. Foi uma visita rápida, a trabalho. Não vi quase nada, mas o pouco que vi não me inspirou. Não dei, por certo, muitas chances à cidade maravilhosa, pois circulei por lugares feios, sujos e velhos. Não velhos como a história é velha, mas velhos como é aquilo que é abandonado. Definitivamente não me enamorei do Rio de Janeiro e nunca mais, até hoje, tive qualquer arroubo de lá voltar.

Acredito que poucos aromas são tão universalmente sedutores quanto o de pão saindo do forno e o de café recém passado. Onde quer que estejamos no mundo, esses verdadeiros perfumes são capazes de nos trazer reconhecimento, de nos transportar para lugares familiares. Particularmente, sempre associei os dois a boas e afetivas lembranças, desde as fornadas de pães nas casas dos meus avós paternos e maternos, até o cheiro de café que me saudava pelas manhãs nas quais eu ainda morava com meus pais.

Talvez seja por isso que minha refeição preferida, de longe, é o café da manhã, no qual, a despeito das modas “low carb”, não dispenso uma fatia de pão e uma xícara fervendo de café fresco. Degusto esse momento com vagar, feliz por ser capaz de fazê-lo e, nesse ato, preparo-me para mais um dia da minha história pessoal. Há alguns dias, no entanto, acresci a esse ato mais um forte sentimento.

Embora eu me considere uma pessoa ativa, que gosta de fazer muitas coisas diferentes, também aprecio dormir. Para além do fato de que uma boa noite de sono é capaz de recuperar nossas forças, de descansar nossos corpos, dormir me traz um bônus: os sonhos! Eu sonho todas as noites. Na verdade, se tiver a chance de tirar um cochilo no meio da tarde, em um final de semana, é quase certo que algum sonho venha me visitar também.

Considero os sonhos fundamentais. Através deles podemos viajar para lugares nos quais nunca estivemos e mesmo em lugares que só existem em nossas mentes. Da mesma forma, reencontramos entes queridos que já não estão nesse plano ou, conforme a crença de cada um, apenas existem em nossas lembranças e sentimentos. Sonhos nos dão asas e até nos permitem respirar sob as águas. Sonhar é desafiar o tempo, a realidade e o racional. Apesar das explicações científicas, sonhos são divinos e ponto final.

chegadas

Na semana que passou eu escrevi sobre um especial reencontro que estou vivendo através da criação de um grupo virtual, no WhatsApp. Lá reencontrei amigos de cujos nomes já nem me lembrava, bem como outros que eu aparentemente tinha deixado em algum lugar do meu coração, dormente, temporariamente esquecidos.

O engraçado é que por mais que eu saiba que todos nós agora temos feições muito diferentes daquelas que tínhamos há quase trinta anos, nos tempos em que cursávamos o colegial, atual ensino médio, eu ainda os imagino daquele modo, congelados no tempo. Trocando mensagens através do aplicado, descobri que vários deles também tem a mesma sensação.