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- Escrito por: Cinthya Nunes
A expressão é antiga e em desuso, mas ainda pode ser encontrada em textos literários clássicos. Usada para expressar surpresa, espanto e indignação e é perfeita para ilustrar o que sinto quando escuto as pessoas se referirem exatamente às pombas. Já escrevi vários textos sobre essas aves tão marginalizadas, alvo da ignorância, do descaso e até da maldade, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Minha história com as pombas vem de longa data, desde quando descobri, aos oito anos, que elas gostavam de fazer ninho em um fresta do telhado da casa dos meus avós, em um lugar aquecido pela proximidade de um grande forno a lenha, utilizado na pequena e humilde padaria deles. Encarregada de verificar se havia ovos ou filhotes, sempre dizia que já haviam nascido, porque neste caso poderiam crescer em paz, enquanto os ovos, no intuito de encerrar o ciclo de multiplicação das pombas, deveriam ser destruídos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A pessoa que falou isso, porém, demonstrou não ter coração, nem mesmo respeito à vida animal. Aos 21 anos, a pessoa cujo nome prefiro não registrar aqui, mas que pode ser encontrado facilmente na internet, tamanha a repercussão do caso, “cortou por cortar”, nas próprias palavras dele, as patas do cavalo que o carregara por quatorze quilômetros.
O crime, sim, pois o ato cometido é criminoso, torpe e cruel, aconteceu na cidade paulista de Bananal, no dia 16 de agosto de 2025, ano em que escrevo, com pesar, este texto. Admito que sequer sabia da existência de tal município. Após uma rápida pesquisa, descobri que se trata de uma Instância Turística, sendo a cidade mais próxima do Estado do Rio de Janeiro, com uma população, de acordo com dados do Censo de 2022, com pouco mais de nove mil habitantes.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A senhora tem preferência por algum lado? - perguntou-me a moça, olhando para os meus braços.
Com as mangas da blusa arregaçadas, sentada na cadeira de plástico, eu tiritava e não era somente pelo frio de dez graus que fazia naquele começo de manhã. A verdade é que tenho pavor de agulha. Das que furam, é claro. Das que tecem, costuram e bordam, estou sempre cercada.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Era 2020, o ano em que o mundo iniciou um período extremamente delicado e triste. A pandemia da COVID-19 nos limitava em muitas coisas. Havia o medo do desconhecido, do contato com as pessoas, mas, a despeito disso, a vida seguia tentando manter alguma normalidade, aquela possível.
E foi em um daqueles meses de angústia que, após um dos meus peixes morrer e ver o outro que ficou, sozinho no aquário, talvez sensibilizada pelo isolamento humano involuntário, coloquei duas máscaras e fui até um petshop próximo, buscar um companheiro para meu pet aquático. Voltei, correndo, com um pequeno peixe vermelho, um kinguio.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quem disse que não é possível inventar a partir do que já existe e, ainda, ter sucesso financeiro com uma reinvenção, por certo não ouvir dizer dos atuais queridinhos livros de colorir do momento, o tal “Bobbie Goods”. Os livrinhos para colorir, criados por uma ilustradora cujo apelido é “Bobbie”, protagonizado por bichinhos como cães, gatos, ursinhos e outros, colocados em cenários humanos, virou uma febre e, mais do que isso, já vendeu, só no Brasil, em pouco mais de quatro meses, mais de um milhão de exemplares.
Os livros para colorir sempre existiram e acredito que não haja um só adulto que não tenha se deparado com um deles na infância. Assim, em princípio, não há novidade no conceito. Há alguns anos foram lançados livros para adultos colorirem, com os mais variados motivos. O material mais usado, à época, eram os lápis de cor. Como sempre gostei de pintar, recebi um de presente, mas nunca pintei mais do que duas ou três páginas, porque, com lápis de cor, técnica que adoro, tudo demora muito.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Ainda que a gula possa ser um dos pecados capitais, é inegável que comer é um prazer e, diga-se de passagem, o único que, em geral, usufruímos várias vezes ao dia. Os mais antigos, inclusive, com sua inegável sabedoria, costumavam dizer que enquanto a pessoa ou até mesmo a animal, está se alimentando bem, há esperança para quase todos os males.
Sem entrar em questões estéticas de padrões irreais de beleza corpórea, uma das questões de se comer é engordar, porém. Algumas pessoas nem passam por isso, tendo ou uma genética que, neste sentido, favorece àqueles que gostam de comer um tanto a mais, ou, fazem parte daquele grupo que se satisfaz com um único pedaço de pizza e dispensam a sobremesa, mesmo que seja o tal morango do amor.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Como já afirmou Tom Jobim, o Brasil não é para amadores, para principiantes. Todos os dias há ou um escândalo novo ou uma nova treta entre políticos de boca grande, insensata e/ou de moral duvidosa. Complicado ler as notícias diárias, eis que quase nunca há espaço para os outros aspectos da vida. Houve um tempo, inclusive, em que, decidida a me tornar alheia a tudo isso, a esse mundo de interesses próprios e jogo sem regras definidas, decidi nada mais ler a respeito. Por uma ironia do destino, entretanto, naqueles caminhos que trilhamos sem planejar, vejo-me atualmente na necessidade de me aprofundar e de (tentar) entender o contexto econômico e político, nacional e internacional.
E quanto mais eu leio, escuto, estudo, mais me convenço de que as boas intenções, as lutas em prol do bem comum, são raridades, qualidade de pouquíssimos representantes da coisa publica que, de pública, quase nada tem, tamanha a apropriação que se normalizou fazer do alheio. Claro que há exceções, mas acabam se concentrando no micro, naqueles espaços menos cobiçados pela ganância, pela sanha pelo enriquecimento fácil, apadrinhado e sem vergonha na cara. Outros, ainda, imbuídos de boas propostas, recusando-se a fazer parte de esquemas duvidosos, sequer têm a chance de galgar cargos ou de realizar o que importa para a população. A todos esses, àqueles para os quais a moral, a honra e a honestidade ainda estão no cardápio, meus respeitos e admiração.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Sei que há pessoas, pouquíssimas no mundo, que não se esquecem de nada, absolutamente, daquilo que viveram. Nem sei se isso é algo necessariamente bom, porque, estou certa, todos temos momentos da vida, passagens, que desejamos esquecer, apagar. Há dores que merecem, que precisam ser enviadas a lugares inacessíveis, para que a nossa sanidade possa se manter na direção de nossos passos.
Por outro lado, sinto tanto que o tempo apague também lembranças bobas, doces, de risadas tolas entre amigos, das conversas com os avós, de tudo aquilo que aprendemos e que poderíamos usar em nosso favor. A quem, em nosso cérebro, ou em nossa alma, compete escolher o que fica e o que se vai? Talvez seja até aleatório. Talvez Freud explique; talvez ainda ninguém saiba.
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Neste momento em que escrevo, julho de 2025, minha mãe se prepara para o lançamento de seu segundo livro, resultado da reunião de textos esparsos que ela vai deitando ao papel sempre que o coração aperta pela saudade ou se expande pela alegria.
Escritos à mão, em qualquer papel que estiver disponível, ela usa das palavras para expor os sentimentos que vão se acumulando na loucura das horas, preenchendo os vazios das ausências impostas e indesejadas, ou para expressar o amor das palavras que são tímidas para escaparem pela boca ou pelos abraços. Escrever é a sua segunda língua, o refúgio que a acolhe quando o sentido das coisas se esvai.
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Nas últimas semanas, notícias sobre acidentes fatais envolvendo turistas brasileiros, em território nacional e no exterior, chocaram o Brasil. Em Santa Catarina, na cidade de Praia Grande, um balão com vinte e uma pessoas pegou fogo por conta de um maçarico, despencando pouco após deixar o chão. Treze feridos e oito mortos foi o triste saldo do passeio.
Pelo que li até o momento, as exatas causas do acidente continuam indeterminadas, mas as investigações buscam verificar se os equipamentos, sobretudo o maçarico, estavam em ordem, bem como se o piloto agiu de acordo com os protocolos aplicáveis. De uma forma ou de outra, nada trará de volta as vidas perdidas.
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O texto de hoje é um testemunho. Nem sempre minha fé é do tamanho que eu gostaria, mas se basta que seja como o grão de areia, sei que nunca me desviei de acreditar em um Deus de amor, na esperança que move os sonhos, as preces, os anseios da minha humanidade.
Cultivo o hábito de agradecer à vida, na certeza de que muitos vivem em sofrimento, em desespero. Na rotina dos dias, não raras vezes, acabamos nos esquecemos das graças vivenciadas, muitas delas, inclusive, resultado de orações pretéritas. Termos o alimento à mesa, a companhia de quem amamos, saúde e paz, são tesouros que ficam em evidência quando um deles nos ameaça escorrer pelos dedos.
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O que acontece para que uma pessoa, uma única pessoa, sobreviva a um terrível acidente aéreo, que vitimou outras 241 a bordo? O avião, um Boing 787, da Air Índia, seguia para Londres e, segundos após levantar voo em solo indiano, por motivos ainda não totalmente esclarecidos até o momento em que escrevo, caiu e, ao colidir com o solo, explodiu.
Ao que se sabe, o sobrevivente, um homem de 40 anos, britânico, mas de ascendência indiana, visitava a família, ao lado do irmão, que não sobreviveu. Ocupante da cadeira 11-A, ele afirma que perdeu a consciência e, ao acordar, estava cercado pelos corpos dos outros passageiros.
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A julgar pelos acontecimentos dos últimos anos, estamos à beira de uma ditadura do politicamente correto, da falta de senso e do vitimismo exacerbado. Tudo o que dissermos (e escrevermos), poderá e será utilizado contra nós, seja crime, seja piada ou seja batom. Assim, fala quem tem coragem, mas cala quem tem juízo. A condenação pode vir do povo ou do martelo, quase nada fazendo sentido.
Mas nem é sobre isso o texto de hoje, até porque é proibido se dizer exatamente o que se pensa. Resta pensar, a propósito, eis que rir logo mais será luxo de poucos. O país da piada pronta, cada dia fica mais sem graça, em todos os sentidos. Pai, afasta de mim esse cálice, já cantava o outro, mal sabendo que não era apenas vinho tinto de sangue que a taça transbordava. Esse silêncio todo me atordoa e eu já espero ver emergir o monstro na lagoa.
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Depois de um verão escaldante, durante um outono morno, o inverno resolveu se adiantar e, o frio, dar as caras. Neste momento em que escrevo, inclusive, as notícias são de neve no estado de Santa Catarina. Aqui, em São Paulo, vivenciamos noites bem frias, com dias ventosos, mas com sol na maior parte do tempo. E o paulistano, assim, não sabe nem com que roupa sai de casa, porque, não bastasse, pode aparecer uma garoa, vinda do nada, passageira.
Como faço todos os anos, tomei a vacina da gripe e, na medida do possível, cuido da saúde, mas, no fim das contas, é meio aleatório, pois nunca sabemos quando e nem como, entraremos em contato com vírus e outras perebas. Desde a pandemia, adotei o álcool gel e o nunca parei de higienizar as mãos depois de cumprimentar alguém ou de tocar em objetos fora de casa. Ficou algo automático. Ou neurótico, como preferirem.
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Ainda que eu escreva mil vezes sobre o mesmo tema, nunca será o suficiente. Simplesmente não consigo aceitar a devastação ambiental, o quanto que muitas pessoas parecem ter verdadeiro ódio das árvores. Embora acredite que não seja privilégio da cidade de São Paulo, onde vivo, aqui, em especial, isso salta aos olhos.
A sanha das construtoras é algo sem precedentes. Casas e lojas são derrubadas para construção de prédios imensos, que mudam a paisagem e encobrem o céu. Mas o pior, porém, são os quintais e suas árvores, que se vão junto, sem qualquer responsabilidade ambiental. Morada e alimento de pássaros, insetos, pequenos roedores, tudo vai ao chão em nome de uma corrida por quem destrói mais rápido. Seringueiras centenárias se despedem, em silêncio, da paisagem urbana, sem que seja possível defendê-las em um país onde o dinheiro e o poder ditam as regras. E pouquíssimas pessoas parecem se importar, ou mesmo lamentar.
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Quando comecei a dar aulas no curso de Direito, há mais de vinte e cinco anos, era imprescindível ter um mestrado. Então, no intuito de garantir meu emprego, procurei um programa de mestrado e, de um dia para o outro, eu estava perdida em meio a aulas, seminários, viagens e o pavor de uma escrita que eu não conseguia me organizar para terminar. Duas prorrogações de seis meses depois e eu decidi que precisava escrever, de um jeito ou de outro. Reuni minhas forças, minhas economias e, em pouco mais de um mês, terminei. No dia seguinte, senti um vazio imenso, sem saber exatamente, o que faria dali em diante. Quase uma ressaca de quem bebe para curar a da noite anterior, mas, ao mesmo tempo, um alívio inexplicável.
Só lamento não poder acreditar em mim mesma, porque prometi que nunca mais iria “inventar moda” e me meter nessas coisas. Mas o tempo passou e cá estou de novo, agora com o prazo para qualificar a Tese e quase louca novamente. Não só ingressei no Doutorado, como novamente procrastinei, embora, desta vez, não o tenha feito por motivos tolos. Tive minhas razões, entre excesso de trabalho, visitas de parentes e um pouco de sedução que o sofá e meus livros de ficção direcionaram a mim.
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Para você, leitor, que eventualmente pode não saber do que se trata, farei uma rápida contextualização. A “moda” agora, neste momento em que escrevo, outono de 2025, é o tal do bebê reborn, que nada mais é do que uma boneca hiper-realista, simulando um bebê. Até aí, em princípio, nada demais, exceto pelo fato de mulheres adultas as tratarem como se fossem filhos reais.
Nada contra a pessoa gostar do boneco, talvez como item de colecionador, sei lá, mas me parece um tanto estranho que mulheres, ao menos em tese, mentalmente sãs, os embalem no colo, façam encontros de “mamães” de bebês reborn, realizem festas de aniversário, levem ao hospital e, pasmem, participem de “partos” simulados. Se não for algo para conquistar os desejados cinco minutos de fama, é bem preocupante, sob o ponto de vista psicológico e psiquiátrico.
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Aprendi que a coisa mais difícil de envelhecer não é o fato em si. Quando se tem uma saúde razoável, a gente aprende a lidar com os cabelos brancos, com as rugas, com os óculos para leitura, com uma dor aqui e outra acolá. Para tudo isso há jeito e adaptação. Se não houver, ainda é possível fazer piada, já que rir é bálsamo. O complexo, o que dói, são as despedidas, é a constatação de que o tempo que traz é o mesmo que leva.
Tenho tentado viver na gratidão de cada dia, de cada hora, mas nunca estamos, de fato, preparados para as partidas, ainda mais as repentinas, as prematuras. Já entendi que as coisas acontecem num repente, em um dia qualquer. A morte não espera, necessariamente, estarmos com a roupa de ir, eis que nos arrebata de susto, enquanto fazemos nossos minúsculos planos. E talvez, penso aqui, tenha mesmo que ser assim.
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“Malandro é malandro e mané é mané”, já ensina o dito popular. A criatividade para engendrar falcatruas, golpes e toda sorte de malandragem é inversamente proporcional ao ânimo de trabalhar, para parcela da população. Trabalhar dá trabalho e trabalhar cansa. Para algumas pessoas, o crime compensa, nem que seja por um determinado período.
Não sei vocês, mas eu já me cansei de bloquear os números das dezenas de ligações diárias, nas quais uma gravação me informa sobre uma transação suspeita na minha conta de um banco do qual nunca fui correntista. Em alguns dias, quando minha paciência está em níveis de segurança, somente desligo. Em outros, porém, quando uma fúria quase assassina me possui, exercito todo meu repertório de ofensas e palavrões, esperando que, por detrás da gravação, algum desocupado possa recebe-los.
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Já faz alguns anos que, em família, deixamos de comprar ovos de Páscoa. Ano após ano, tudo o que se vê são produtos com preços altíssimos, a maior parte incompatível com a quantidade de chocolate. Muito melhor e mais acessível comprar caixas de chocolates variados. As crianças do nosso núcleo familiar já se acostumaram e, atualmente, até preferem.
Lamento, porém, que as coisas tenham tomado esse rumo. Impossível não ter saudade do tempo em que minhas irmãs e eu ganhávamos ovos de tamanhos e cores variadas, encantadas com a imensa quantidade de bombons que os recheavam. Hoje, ao contrário, os recheios são brinquedos inúteis e descartáveis ou, alternativamente, míseros quatro bombons.
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Tal qual o dilema do ovo e da galinha, não estou certa se a arte imita a vida ou a vida imita a arte. Talvez, neste último caso, sejam as duas coisas, alternadamente. Nunca imaginei, por exemplo, que o enredo do filme Jurassic Park, sobre dinossauros recriados através de tecnologia de recuperação de DNA dos gigantes extintos, pudesse se aproximar da realidade.
Embora muitos cientistas ainda não estejam convictos de que uma empresa norte americana, a Startup Colossal Biosciences tenha realizado feito semelhante ao da ficção, tivemos a ampla divulgação de que uma espécie de lobo, extinta há mais de dez mil anos, o lobo terrível, voltou a dar as caras neste mundo, na forma de três filhotes, Rômulo, Remo e Khaleesi.
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Passar pela roleta era adentrar um local mágico, um portal para um mundo diferente, no qual sons e imagens pertenciam a outras dimensões. O cinema era um encantamento sem precedentes, sobretudo em um mundo sem internet e com televisão reduzida a pouquíssimo canais e opções. Ir ao cinema era um evento social, um acontecimento digno de habitar planos e demandar preparativos especiais.
Se a memória não me falha, a primeira vez em que estive no cinema, ainda bem criança, na cidade de Lins, foi para assistir ao filme Marcelino Pão e Vinho. Sentadinha no escuro, ao lado do meu pai e de uma de minhas irmãs, chorei quando o protagonista ficou entre a vida e a morte. Enquanto devorávamos balas de sabor tutti-frutti, habitávamos também aquele mundo, atravessando a quarta parede, contagiadas pela magia da sétima arte. Décadas depois, continuo apaixonada pela imersão de sentidos que o cinema proporciona.
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Enquanto eu enxugava o suor que descia pelo meu rosto e tentava dar alguma dignidade ao meu quase desfeito rabo de cavalo, observei a moça que fazia caras e bocas para o celular. Pareceu-me que buscava o melhor ângulo, olhar e sorriso. As roupas que ela vestia, nem de longe se assemelhavam à calça velha de malha e à camiseta confortável que eu vestia. Nitidamente, estávamos vestidas para eventos diferentes.
Maquiada, usando um conjunto de calça e top azul marinho, combinando com um par de tênis caros, a menina, de idade que estimo entre 20 e 30 anos, tinha um corpo escultural, ao estilo mais músculos e menos partes moles. Praticante de selfies e de exercícios pesados, pelo visto. Com a maior descrição de que fui capaz, pela curiosidade que me é inerente, prossegui acompanhando-a com o olhar.
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Acredito na terapia do riso, no poder da risada contra muitos males. Defendo o riso solto, verdadeiro, inspirado pela graça, pela alegria. Aquele nos pega de jeito, mudando as linhas dos nossos lábios, curvando a reta dos dias. Rir é bom demais. Quando conseguimos rir de algo, mesmo nos nossos piores momentos, é sinal de que ainda resta em nós a chama que mantém a vida.
Aprecio os temas sérios, é óbvio. A vida adulta é repleta deles, mas não precisa ser apenas deles. Nasci, creio, atraída pelas pessoas engraçadas. Sempre foram as minhas favoritas, a propósito. Gente que ri e sabe fazer rir, genuinamente. Nada mais bonito em um rosto, do que uma expressão feliz. Um rosto sorridente é capaz de transmitir muitos sentimentos positivos. E a gente não sorri somente com os lábios, porque o riso contagia os olhos e coloca músculos em exercício.
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O céu sempre me encantou. Os azuis dos dias ensolarados, com seus matizes variados. Outonos e primaveras são meus favoritos, mas os grises dos dias de inverno também têm seu charme. Nada, porém, desperta tanto minha curiosidade e meu sonhar quando o céu dos astros, o manto noturno.
Desde pequena, quando meu pai me ensinava sobre as constelações, lá na chácara em que moramos durante três anos, na cidade paulista de Clementina, onde a ausência de luz artificial de postes e habitações humanas, fazia ressaltar a imensidão da Via Láctea. Cruzeiro do Sul, Ursa Maior, Ursa Menor, Três Marias, Órion, eram alguns agrupamentos de estrelas que eu sabia identificar e das quais me enamorei.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Depois que nosso gatinho, meu pretinho básico, Bento Marquinho, morreu, há alguns meses, em decorrência do agravamento de uma insuficiência renal, pensei que demoraria um pouco até adicionar um novo integrante à trupe animal aqui de casa. Menos de um mês depois, porém, adotamos um filhote, uma fêmea frajola, vinda de uma ninhada resgatada por uma amiga. E assim a Lili passou a compor nossa família multiespécie.
Como somos muito preocupados com a limpeza e higienização, dá bastante trabalho manter limpa uma casa com duas cachorras e cinco gatas. Para nossa sorte, todas fazem suas necessidades nos devidos lugares, o que facilita um pouco, mas, ainda assim, dedico algumas horas, diariamente, ao cuidado e limpeza. Por isso, inclusive, criamos um limite de lotação, o qual já estava atingido. Duas semanas atrás, porém, o destino resolveu subverter as coisas.
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Joana acordou assustada. Lá fora o sol já estava a pino. A claridade invadia o quarto, esquentando-o. A sensação era de que dormira demais. Tateou ao lado da cama e não conseguiu achar o relógio, que deveria ter tocado às seis da manhã. Com certeza, estava atrasada. O filho ia perder o horário da aula e ela, o emprego. O patrão não tinha tolerância com atrasos.
Sentia o coração pulando na garganta e se levantou desesperada, indo direto ao quarto do filho de sete anos. Lucas dormia profundamente, abraçado ao urso de pelúcia preferido.
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Gosto muito de caminhar pelas ruas, observando as construções, as pessoas, os espaços verdes. Muitos dos meus textos, inclusive, nasceram de tais momentos, fossem boas ou tristes inspirações. Uma coisa, porém, tem sido uma constante, uma premissa que, embora tão óbvia, parece ter sido esquecida de forma geral.
Nunca deixei de me indignar com a falta de compaixão, de consciência coletiva e civilizatória. São lixeiras destruídas, cocô de cachorro embalado em saquinho e deixado na rua, toda espécie de lixo descartado sem critério, plantas vandalizadas, tudo como se nada importasse e, penso, para parte da população, de fato, ao que parece, não importa mesmo.
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Algumas perdas se qualificam pelo título deste texto. Talvez o tempo possa trazer algum consolo, algum alento, mas acredito mesmo que nada seja capaz de consolar o coração daqueles que perdem, de forma repentina, um ente querido, sobretudo vítima da violência.
Neste momento em que escrevo, fevereiro de 2025, o noticiário nacional reportou a morte de um ciclista, vítima de um roubo. Levou vários tiros, sem que tivesse esboçado qualquer reação. Uma vida por um celular. Parado, talvez descanso da pedalada matinal, conferia as mensagens no celular. Em uma moto, dois criminosos apareceram, mesmo após levarem o aparelho, ceifaram a vida daquele que julgava viver uma manhã qualquer, comum.
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Minha casa já foi palco de crimes bárbaros. Admito isso apenas porque sei que a lei não me atingirá com sua espada, muito embora, quando muito, eu pudesse ser acusada de algum ato culposo. Com os autores do crime sendo inimputáveis, porém, não me restava muito o que fazer. Apesar disso, sabendo que estive sem alternativas, a dor das perdas continuarão como fantasmas sobre minha cabeça, eternamente.
As duas primeiras mortes aconteceram há pouco mais de dez anos. Tudo em um dia qualquer, sem anúncios, premonições ou outro indicativo de que sairia do ordinário do trabalhar e voltar para casa. Quando chegamos, porém, somente algumas horas depois de termos saído, a cena era de total devastação. Restos mortais estavam espalhados pela área de serviço e, após muito grito e choro, encontrei os corpos, parcialmente escondidos.
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E foi em um dia 10 de fevereiro, há dezoito anos, que virei tia. Não sei sobre as demais pessoas, mas no meu caso, nunca foi algo sobre o que me detive em pensamentos. Acho que, no fim das contas, ser tia ou tio é algo que acontece, porque não se trata de algo que seja planejado por nós. Ainda assim, hoje, quatro sobrinhos depois, afirmo que foi e é uma das melhores emoções da minha vida.
Cada um deles, como nem poderia deixar de ser, é único e amado de um jeito especial. Brinco que são meus favoritos e preferidos, todos eles, no mundo todo. E é claro que tem seus defeitos, humanos que são, para os quais nem fecho os meus olhos, mas os estreito, na condescendência de um amor infinito. Pecados de tia coruja? Pode ser, mas os assumo, sem pudores ou arrependimentos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A chuva castigava a cidade naquela noite fria. Gabriel, um homem de aparência jovem apesar de seus quase dois séculos de vida, caminhava pelas ruas desertas, buscando mais um pouco do tempo que lhe escapava. Ele não era imortal, apenas um ladrão. Um ladrão do tempo.
Desde que descobrira sua estranha habilidade de absorver a força vital das pessoas através do toque, vagava pelo mundo, surrupiando minutos, horas, dias... o suficiente para manter a ilusão da juventude eterna. A culpa o corroía, mas o medo da morte o impedia de parar. Ia retirando minutos, aleatoriamente, certo de que ninguém deles daria falta.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Eu já o notara antes. Enquanto passeava com minhas cachorras, reparei em um homem que estava agachado na calçada, próximo à sarjeta. Demorei um pouco para perceber que ele se barbeava, com o auxílio de uma vasilha de água, um barbeador descartável e um pequeno espelho retangular, daqueles de moldura alaranjada.
Olhei o mais discretamente que fui capaz, pois se tratava de um morador de rua, um rosto que de certa forma já me era familiar. Em outras ocasiões, eu o vira dormindo sobre papelão, ao lado de uma caçamba de lixo, abrigado sob a marquise de um pequeno prédio residencial.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Nem sempre a inspiração vem da alegria, da curiosidade, do inusitado. A escrita também tem como musa a dor, o sofrer. Hoje é tristeza que me traz ao papel, em um ano que mal começou. Pergunto-me o que fazer dele agora, desse tempo que se deita à frente, já repleto de saudades. Não tenho, neste momento, nem respostas e nem perguntas, com o coração batendo por dever, mas em descompasso.
Doze anos nos separavam em idade. Atualmente, eram imperceptíveis, mas quando eu era uma criança e ele um jovem adulto, a distância era continental. Muito alto me parecia e, naqueles tempos, muito magro, eu o via como um gigante, o maior primo que eu ou qualquer pessoa pudesse ter. Nas minhas lembranças, eu estava sempre olhando para cima, para poder vê-lo. Era o filho do Tio Claudionor e da Tia Páscoa, o meu primo Fernandinho.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
A gente pisca e já se foi um terço do primeiro mês do ano. Do ano novo, que até dia desses era apenas uma promessa, um plano idealizado, de realizações futuras. Agora nem há desculpas possíveis, eis que o marco inicial, o pontapé primeiro das metas para uma vida melhor, já acionou o cronômetro. Então o negócio é seguir. Só que nem sempre é fácil ou simples.
Não sei quando você, leitor, irá ler este texto, mas acredito que mesmo que ele seja descoberto daqui a oitenta ou duzentos anos, as inquietações humanas não estejam tão diferentes a ponto de torná-lo ininteligível. Óbvio que costumes, linguagem e tecnologia serão diferentes, mas a essência humana, aquilo que habita no insondável, provavelmente se mantenha. Em resumo: vamos continuar querendo paz, boa forma física, dinheiro, amor e, talvez um robô faxineiro, que seja mais obediente, possa se somar a tudo isso.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Nem tenho certeza de como isso começou, mas durante muitos anos, na nossa família, quando aparecia uma imensa borboleta azul, minha avó paterna, a Dona Nena, falava que era o falecido marido, meu avó José, que vinha nos visitar. Se não estou errada, essa história começou ainda quando ele era vivo, e foi como como um combinado entre o casal e um outro amigo. Fato é que, em algum momento, ver uma mariposa azul em datas festivas, era sempre motivo de brincadeiras e de emoções.
Mesmo depois da partida minha avó, ficou inevitável fazermos associações e brincadeiras sobre borboletas ou mariposas azuis e parentes falecidos. Assim, no último dia de 2024, estava eu na casa dos meus pais, tal como faço todos os anos, e, pensando nas ausências mais recentes, lembrei-me de uma tia amada, a quem, neste texto, darei o fictício nome de Lúcia.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Ele tirou a última folha do calendário. Mais um ano vivido. Ou seria menos um a viver? A ordem dos fatores, neste caso, altera o produto. Podia se considerar sortudo, acumulando décadas de experiência. A mesma sina não deu sobre muitos dos amigos de infância e juventude.
Continuava usando agendas tradicionais, mesmo marcando alguns compromissos na agenda do celular. Não faltavam meios e fontes, aliás, para mantê-lo informado sobre o passar do tempo. O espelho do banheiro, o velho carrilhão na parede da sala, as fotos antigas espalhadas pela casa. Não que fossem inimigos, o tempo e ele. Davam-se bem, a propósito.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Dentro de alguns dias será Natal. Difícil não escrever sobre o assunto, sem ser repetitiva, até porque venho fazendo isso há quase vinte e cinco anos. Gosto das comemorações de fim de ano, por vários motivos. Primeiro porque simbolizam, de forma geral, uma pausa na correria das horas, um momento de confraternizações, de reencontro com a família e amigos.
É inegável que há todo um clima preparado pelo comércio para tornar a data mais rentável, estimulando as pessoas a presentear umas às outras. Consumismo exagerado à parte, admito que há certo valor afetivo em presentear e ser presenteado, essencialmente se o gesto importar mais do que o presente em si.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quando me dei conta de que os cento e oitenta livros que mal haviam chegado da gráfica não poderiam ser vendidos, eis que faltava uma página, cai no choro, frustrada. O primeiro infantil que eu terminara e publicara depois de mais de duas décadas, e a edição que eu decidira bancar estava perdida. Pensei em queimar tudo, fazendo uma fogueira com a minha decepção. Enquanto enxugava as lágrimas, porém, ocorreu-me uma ideia melhor.
Imprimi o texto faltante, encartei no livro juntamente com um desenho para colorir e, com o coração aliviado, entreguei todos para os alunos da escola Municipal Therezinha Volpato, na cidade de Taboão da Serra, da qual minha amiga Camila é a Diretora. A ideia de que, apesar do problema técnico, ele poderia ser lido por crianças que normalmente não teriam contato com minha escrita, encheu-me de legítima esperança.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Falta somente um mês para acabar o ano. Por mais que a gente saiba, intimamente, que em 1º de janeiro, seremos exatamente as mesmas pessoas e que a mudança de números não terá o poder de reiniciar nossas vidas, quase todo mundo traça metas anualmente. Culturais ou exotéricos, não sei, mas os ciclos estão aí.
O mês de dezembro, na minha experiência de vida, é um mês bem curioso. As pessoas começam a planejar alguns dias de descanso e de festas. Outros, vários dias ou semanas, a depender das possibilidades de cada um. O comércio se anima diante da chance de vender mais, os restaurantes ficam lotados com as confraternizações e, o mais paradoxal, é se come muito mais neste mês, enquanto a maioria quer um corpinho de academia para curtir o verão.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Uma banana colada com fita adesiva na parede. A banana, amarela, parecia estar madura e ser uma fruta ordinária, sem nada de especial. Assim também a fita, prateada, dessas que se pode comprar em qualquer loja de material de construção ou até papelaria. Tal composição, batizada como “Comediante”, foi vendida recentemente em Nova York, pela bagatela de trinta e cinco milhões de reais, a um empresário chinês, como uma obra de arte.
Eu me recuso a pensar que seja a única a achar tudo isso extremamente surreal. O artista responsável por inusitada arte, o italiano Maurizio Cattelan, segundo o que pesquisei, é conceituado, e produziu três delas para questionar o conceito de arte e seu valor. Se era esse o intuito, conseguiu. Como protesto artístico, talvez, atraiu a atenção necessária e comprovou seu ponto de vista.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Quando meu gatinho Bento morreu, há pouco mais de um mês, fiquei em dúvida se adotaria outro. Menos de uma semana depois, uma amiga me enviou fotos com filhotes de gatos para adoção. Minha reação automática foi responder negativamente. “Acho que não voltarei a adotar outro tão cedo”.
Percebi que minhas resoluções não são dignas de fé. Ao menos não aquelas que envolvem pets e livros. Há tempos desisti de mentir para mim mesma sobre não comprar mais livros.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Uma a uma as árvores vão caindo. O baque seco e surdo no chão, entrecortado pelo som medonho e insensível da serra elétrica. Moradas de pássaros, de abelhas, verdadeiros pulmões da natureza. Algumas pequenas, outras com décadas de vida, uma ou outra provavelmente centenária. Todas indefesas, pouco importando o porte ou a espécie. Sem pernas para correr, sem asas para voar, sem dentes para morder, nada podem diante da crueldade humana.
Esta é a imagem que tem me apavorado desde que soube da obra da Avenida Sena Madureira, próxima de minha casa, na cidade de São Paulo. Um grupo de pessoas inconformadas e preocupadas com o meio ambiente se reuniu em torno da causa. Primeiro foi tentado o diálogo, apelando-se para o bom senso, solicitando transparência, informações, justificativas. Pouco ou quase nada se conseguiu assim.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Joana tinha uma rotina pesada: acordava todos os dias antes mesmo dos passarinhos, fazia café, deixava prontas as torradas com o resto do pão do dia anterior, cozinhava um ovo para o Pedro e fazia o suco da Mariana. Ajeitava as almofadas do sofá, varria a cozinha, dava comida para o filhote de gato e para o cachorro velho e manco, sem se esquecer de um bom afago em cada um.
Se o tempo estava seco e o dia prometia ser quente, ainda molhava as plantas, elogiando aquelas que estavam mais bonitas e dando uma bronca leve nas outras. “Vocês precisam reagir. Minha parte eu faço, então tratem de melhorar”.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Fã de livros sobre crimes reais, descobri mais outra forma de consumir esse tipo de conteúdo durante a pandemia, enquanto pesquisava receitas de pão e aulas de aquarela no YouTube: os canais sobre True Crime, como também ficaram mais conhecidas no Brasil tais narrativas.
O conhecimento sobre a mente humana e seus estertores, mas principalmente os meios investigativos utilizados para fazer cessar todo mal que se esconde sob aparências inofensivas de homens e mulheres supostamente “de bem”, ou nas erráticas e quase invisíveis figuras sombrias de andarilhos e solitários taciturnos, é fascinante.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Depois de semanas de muita seca, em um ano sem estações marcadas, sem outono, inverno ou primavera, o verão já ameaça chegar antes da hora, com chuvas e vendavais, causando estragos. A falta de manutenção de árvores, de poda adequada, monitoramento de pragas, plantio de espécies próprias para os centros urbanos e mesmo o vandalismo humano, tudo contribui para que, diante de chuvas mais intensas, centenas de árvores venham abaixo.
Lamentavelmente as cenas se repetem em todo país. O descaso com o meio ambiente chega a ser criminoso, além de muito triste. Enquanto isso, quando escrevo, outubro de 2024, a Prefeitura de São Paulo segue com um projeto, havia anos engavetado, para construção de um túnel na zona sul da cidade e que, para além de implicar no corte de centenas de árvores, já provocou a concretagem da nascente de um rio e do corte de árvores centenárias ou quase centenárias.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Há poucos dias fui surpreendida com a triste notícia do falecimento do Prof. Celso Sisto. Eu estava conferindo as notificações do WhatsApp e vi que em um dos muitos grupos dos quais faço parte, várias estavam chegando. Embora a oficina de escrita para crianças já tivesse se findado há alguns meses, criamos outro grupo, agora sem o professor, para prosseguirmos trocando ideias sobre nossas iniciativas e conquistas na área. Fiquei sem acreditar quando li: “Meninas, por favor, me digam que é mentira que o Celso faleceu!”
Durante os primeiros meses da pandemia, diante de todo aquele contexto e de algumas questões profissionais pessoais, resolvi encarar um curso de um ano e meio, online, de Formação de Escritores. E foi durante o curso que tive a oportunidade de fazer um módulo de escrita para crianças, ministrado pelo Celso. Gostei de cara. Comprei livros escritos por ele e passei a segui-lo nas redes sociais. Descobri que, multifacetado, ele misturava artesanato, sobretudo bordado, com literatura e ministrava oficinais sobre o melhor dos dois mundos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Há quase sete anos escrevi um texto pela chegada dele. Encontrado na rua em pleno dia 31 de dezembro, estava embaixo de um carro e veio até mim quando eu o chamei.
Magrinho, maltratado, presumi que nascera em algum quintal abandonado. Dócil, aninhou-se nas minhas mãos, como quem chega em casa. Naquele momento eu soube que, embora não tivesse planos de ter mais um gato, aquele pretinho minúsculo, com barriga grande de vermes, ficaria comigo para sempre. Pena que o sempre durou pouco.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Escrevi meu primeiro livro quando estava com 23 anos. Recém-formada, sem saber exatamente o que fazer da vida (a propósito, acho ótimo continuar não sabendo), resolvi escrever duas histórias que, havia tempos, habitavam minhas memórias. Comecei escrevendo sobre o Totó, o fiel companheiro da minha infância, cãozinho que dividiu quatorze anos de existência comigo. Logo em seguida escrevi O Príncipe Azul, uma fantasia infanto juvenil baseada em uma história que meu pai me contava para dormir. “A Batata que não queria ser assada” foi o terceiro, escrito anos depois, após uma provocação feita por minha mãe.
A experiência foi incrível, sobretudo pela troca que tive com os meus leitores mirins. Foram cartinhas recebidas por crianças que hoje já têm seus próprios filhos, todas carinhosamente guardadas. Sempre houve planos de novos livros e as histórias fervilhavam o tempo todo nas minhas ideias, mas por dezenas de motivos e até pela ausência de alguns, nunca mais, desde aquela época, voltei a publicar textos infanto-juvenis.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Estávamos no sofá quando ouvimos um apito. O som fez uma escada pela qual desci até minha infância, no tempo em que o sorveteiro passava na rua todas as tardes, anunciando sua chegada com apitos contínuos e longos. Não sei se havia um combinado prévio, uma diretriz, mas todos apitavam da mesma forma.
A criançada parecia brotar de dentro das casas, implorando aos pais por um sorvete. Geralmente, na verdade, por dois ou mais. Não importava que tivéssemos acabado de almoçar ou que fosse quase hora do jantar. Sorvete era sorvete e não precisava de ocasião ou horário para ser consumido.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Acredito que já fazia mais de 8 anos que eu não me aventurava até a Bienal do Livro de São Paulo. Embora seduzida pela chance de estar cercada de uma das coisas que mais amo na vida, os preços altos dos livros me desestimularam. A minha história com esse evento, por outro lado, é curiosa.
Eu deveria ter uns 13 anos e morava em Lins quando a escola decidiu levar algumas turmas de alunos. Nem faço ideia de qual foi o critério de escolha, mas para minha desolação, não incluía a turma em que eu estava. Minha irmã Ivy, porém, com 11 anos, estava entre os sortudos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Minha estação preferida do ano nem deu as caras em 2024. Fez que vinha, não veio e, de vingança mandou os irmãos verão e inf(verno) mandarem como garotos de recado. De tanto que ferraram com o mundo, as estações vêm quando e se querem. Agora aguente quem puder.
Queimadas criminosas praticadas por seres abjetos agravaram o problema. Tantas vidas ceifadas sem sentido, tanta colheita que deixa de virar alimento, tanto céu azul de menos, tanta doença no ar. Lamento profunda e infinitamente a pequenez de certas existências humanas. Em um mundo movido pelo dinheiro e pela sede de poder, a vida é um detalhe apenas.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
—Desculpa Chefe, eu realmente não sei o que me deu!
—Mas Pedro, meu filho, assim fica complicado para mim. As reclamações não param de chegar. Às vezes eu penso que você e Paulo tem alguma questão mal resolvida. Pode se abrir comigo. Você sabe que sou bom em escutar e que conheço os segredos de todos os corações do meu rebanho.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Nem me lembro do nome daquela vagem de feijão verde que nascia nas cercas de uma das casas da minha primeira infância, mas ainda sou capaz, tantas décadas depois, de sentir o gosto que tinham as sementes. Eu as colhia, abria e comia os feijões, tudo praticamente ao mesmo tempo. Nunca mais planta semelhante, mas é curioso como nossas memórias afetivas escolhem o que seguirá conosco e o que se perderá nas curvas das lembranças.
Ainda na infância era comum comermos o fruto amarelo ouro, quase alaranjado, do que chamávamos naquele tempo de Melão Caetano. A planta era uma trepadeira que crescia espontaneamente por vários locais e era confundida como mato. As flores amarelas estavam sempre rodeadas pelas abelhas e os frutinhos, de casca rugosa que se abria em partes iguais, eram “recheados” de sementes vermelhas, as quais comíamos sem nem pensar.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Inspirada por iniciativas semelhantes, minha mãe resolveu arrecadar livros, novos e usados, para distribuí-los como meio de incentivar a leitura. Improvisou uma caixa de papelão e a pendurou no Ipê branco que fica em frente ao portão da casa onde vive com meu pai há quase quarenta anos e onde eu também vivi durante a infância e adolescência.
Mas para garantir que as pessoas soubessem do que se tratava, não se limitou aos dizeres que escreveu na caixa, dando conta de que os livros poderiam ser levados gratuitamente. Ficou lá durante vários momentos do dia, principalmente nos horários de saída das escolas que ficam muito próximas, oferecendo livros de acordo com os gostos, na medida do possível.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Mauro sonhava em conhecer o pai. A mãe dizia que não precisava. Ela era mãe e pai e já bastava. Não bastava, mas o menino não tinha coragem de dizer isso a ela. Admirava a mãe e a amava incondicionalmente, mas tinha dentro dele aquele misto de curiosidade e de saudade de algo que nunca teve.
Marília era uma mulher forte, batalhadora. Cozinheira em um restaurante havia quase uma década, conseguia levar para casa quase todos os dias uma refeição especial, trato feito com o patrão que não gostava de desperdiçar a comida do dia e que, por preço simbólico, descontava do salário dela as duas marmitas com sobras. Aos treze anos Mauro nunca soube o que era passar fome e a mãe se gabava de dar ao filho “comida de gente rica”.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Aventuras pela Itália – 4ª parte
Ando meio com receio de que as pessoas estejam cansadas desses relatos, então encerrarei por aqui a “série” e deixarei para escrever sobre outras questões que considero dignas de serem compartilhadas em outros momentos, futuramente. Hoje, entretanto, ainda quero partilhar algumas percepções.
Entre as locais que visitamos, como o Vaticano, várias igrejas, praias pedregosas, a Fonte de Trevi, a Torre de Pisa, o que mais me chamou a atenção foram as marcas do passado, da história, registradas nas ruínas que gravaram os passos da humanidade, inclusive os vergonhosos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Aventuras pela Itália – 3ª parte
Ficamos um tanto frustrados quando descobrimos que alugar um único carro para seis pessoas seria mais caro e até inviável para podermos circular pelas ruas estreitas de várias pequenas cidades turísticas italianas. O jeito, então, foi alugarmos dois e nos dividirmos, ficando ao meu encargo ser a pessoa que iria de copiloto no carro da frente, de olho no GPS. Admito que isso me deixava um pouco tensa porque qualquer erro implicaria em desvio de rotas desconhecidas e, em alguns casos, diante de ruas sem saída, das quais só era possível sair de marcha ré.
Visitamos as cidades que demos conta de fazer, fosse pelo cansaço, fosse pelo calor excessivo e até mesmo por desconhecer tantas outras que somente agora, de volta a terras brasileiras, tomamos conhecimento. Sem dizer que até o computador parece estar de sacanagem, porque nunca recebemos tanta publicidade sobre coisas legais e únicas para serem feitas na Itália. Poxa, custava ter enviado há um mês? Enfim.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Aventuras pela Itália – 2ª parte
Conforme narrei no texto anterior, há poucas semanas voltei da minha primeira viagem à Itália e por alguns textos mais seguirei com minhas impressões sobre curiosidades e até apuros que minha família e eu passamos por lá.
Quando estávamos planejando sobre quais destinos seriam os escolhidos para serem vistos durante o período em que ficaríamos por lá, a cidade de Veneza logo surgiu como uma probabilidade. Depois de algumas controvérsias, após ler sobre e ouvir a opinião de algumas pessoas, resolvemos ir.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Aventuras pela Itália – 1ª parte
Só acreditei mesmo quando aterrissamos em Florença. A viagem à Itália deveria ter acontecido 7 anos atrás, mas assim a vida não quis. Tanta coisa aconteceu que até julgava improvável dar certo. Questões de saúde, financeiras, trabalho, mudanças de rota e a Itália foi sendo destino adiado, até que resolvi que iríamos, de um jeito ou de outro.
Toca fazer contas, economizar, organizar. Era para sermos quatro, mas de repente iríamos em seis. Poucos meses antes algumas coisas se complicaram novamente e eu resolvi deixar para o destino. Fosse para dar certo dessa vez, daria. Aos poucos as coisas foram se equilibrando na medida do possível e chegou o dia de partirmos. Malas feitas, corações ansiosos e lá fomos nós.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Que o tempo mudou geral isso ninguém duvida. O mundo endoidou em todos os sentidos, das doidices boas e das ruins. Porque há sim doidices que são muito legais e que nos mostram que estamos no meio da evolução, da história, expectadores e protagonistas das mudanças, assim como há as péssimas, as quais nem preciso detalhar, eis que são notórias.
Assim me parece o clima, que pirou geral. É quase consenso, pelo que leio, de que é culpa dos seres humanos e de tudo o que temos feito de mal ao nosso planeta. Há ainda quem diga que temos culpa, mas que não somos os únicos responsáveis por essa bagunça, já que na época dos dinossauros nós nem estávamos por aqui e olha lá o que aconteceu com os lagartões. Enfim, sei lá.
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- Escrito por: Webmaster
Quase fim do semestre letivo e quem é professor bem sabe que essa é uma época complicada. Nestes meus vinte e cinco anos como professora universitária já posso dizer que vi e ouvi muita coisa, mas sem dúvida alguma os finais de semestre são sempre os períodos nos quais a criatividade dos alunos fica especialmente aflorada e quando até pequenos “milagres” acontecem.
Preciso ressaltar que gosto muito da docência e que, no fim das contas, acho até engraçadas as histórias que sigo quase colecionando na memória. Claro também que o professor, esse bravo e impávido guerreiro, tem seus perrengues pessoais, os quais podem se agravar diante de posturas indevidas de alunos, então é necessário pensar que em alguns momentos o aluno tem lá sua razão.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Estava cá eu pensando sobre o que escrever nesta semana, já com o tempo apertado e passado um pouco do prazo em que costumo enviar meus textos. Quase sempre me surge um assunto novo, assim de repente, enquanto caminho pelas ruas.
Hoje, porém, é um daqueles dias nos quais embora muita coisa esteja rodopiando entre minhas ideias, nada está exatamente implorando para vir ao papel.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Entre minhas orelhas há bem mais barulho do que entre meus lábios. Mas nem sempre foi assim. Impulsiva, preferia falar a ouvir. Até que a vida me impôs silêncios forçados e percebi um pouco melhor o mundo a minha volta. Foi quando me dei conta de que quase ninguém escuta o outro de verdade, ainda que ouça de forma geral. Há uma urgência em falar, porque todos querem a palavra, mesmo quando nada têm a dizer, sem nem notarem que quase ninguém está escutando.
Fico pensando que talvez seja por isso que tanta gente quer ser influencer, ter seu espaço nas redes sociais para dizer o que pensa e o que nem pensa. Há o desejo pela fama, pela notoriedade, mas me parece que, no fundo, é a pura necessidade de falar sem ser interrompido. O que não se quer e que me parece um papel em extinção é a figura do escutador, alguém que de verdade pare para entender o que se transmite, mas creio que um “escutencer” não seja “carreira” almejável.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Eu o tinha visto havia umas duas semanas. Não que eu tivesse especialmente notado o mendigo, mas sem dúvida reparei nos filhotes de cachorro que estavam com ele porque aqui no nosso bairro, infelizmente, há uma quantidade grande de pessoas em situação de rua, mas, por outro lado, não se vê animais abandonados.
Lembrei-me de que eu tinha alguns sachês sobrando, os quais eu não usaria e fiz uma pequena sacola com alguns itens também para o homem, porém embora o tivesse procurado por todo lado, não o encontrei mais. Pouco mais de uma semana depois, entretanto, nós o vimos no quarteirão de casa, acompanhado dos cães. Como ainda tinha os itens separados na sacola, fomos lá para entregá-los.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Durante toda minha vida tenho frequentado casas de repouso ou asilos de idosos, como preferirem denominar. Primeiro ia com minha mãe, depois como uma de minhas irmãs, amigos e amigas. Admito, porém, que nunca deixa de ser uma experiência que me causa sentimentos dúbios e contraditórios.
Por certo que quando se trata desse tipo de instituição é possível encontrar desde aqueles que são verdadeiros e infelizes depósitos de idosos até os que se assemelham a clubes de férias. Seja como for, assim como os abrigos para crianças, embora fosse preferível que não existissem, são necessários e, muitas vezes, a única opção possível de moradia.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Muito é dito sobre a vida ser composta por ciclos. E no fim, todos esperamos que os ciclos se sucedam, embora raramente estejamos prontos para eles. O que ninguém nos avisa é que os ciclos não mandam avisos e nem mesmo acontecem de forma datada, previsível. É mais uma coisa que ocorre de surpresa e nos encontra vivendo outros momentos. Quase nunca, portanto, há preparações e viver é uma sucessão de grandes e pequenos sustos, para o bem e para o mal.
Nascemos com a certeza de que iremos partir em algum momento, embora, até para podermos sobreviver, não temos exatamente a consciência disso, sendo algo que deixamos escondido em algum ponto de nossas mentes e almas, torcendo ou rezando, a depender das crenças pessoais, para que seja algo eternamente adiável. E mesmo sabendo que não é, buscamos viver protegidos por algumas ilusões.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Admito que tentei, mas fui incapaz de preservar neste espaço a temática ordinária dos meus escritos, sobre as pequenezas que tornam nossas vidas únicas e imensas. Estou, como creio, a imensa maioria das pessoas, arrasada diante da tragédia que assola parte do Rio Grande do Sul.
Mais de uma centena de pessoas mortas e outra centena de desaparecidos. Casas e vidas destruídas. Animais que se perderam dos donos, além de outros tantos que também pereceram sob a força das águas. Impossível manter distância emocional. Por óbvio que há uma tragédia em cada esquina do mundo acontecendo todos os dias, mas há um peso extra quando isso acontece próximo a nós, com conhecidos e amigos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Nesses dias têm sido difícil pensar em assuntos leves, naqueles temas que sempre serão minha preferência, porque enquanto os escrevo, derramando letras mais sutis sobre o papel, também me preencho das delicadezas que nos permitem uma vida menos dura.
Por outro lado, penso, quem procura por uma crônica dentro de um jornal, não quer mais do mesmo, talvez buscando um respiro em meio à inevitabilidade das notícias sobre o quanto o clima está louco, os preços estão aumentando, a violência que nunca dá descanso e por aí à fora.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Só duas pessoas compareceram ao evento. A oficina gratuita de Escrita Criativa era uma das atividades previstas em comemoração ao Dia Mundial da Criatividade e Inovação, que é celebrado no dia 21 de abril. Descobri meio por acaso e já havia me inscrito havia semanas, principalmente porque seria a poucas quadras de casa.
Fiquei constrangida ao ver que a organizadora havia feito pequenos kits e blocos de rascunho, marcadores e lápis para os participantes e, dos quinze inscritos, só duas pessoas estavam lá, entre elas eu. Duas meninas, universitárias, presentes no local para dar suporte ao evento, acabaram participando também, para dar algum volume ao curso.
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Adoro observar meus gatos dormindo. Gatos, aliás, fazem isso como ninguém, seja quando dormem sozinhos, acoplados em espaços minúsculos e nas posições mais impensáveis ou quando dormem ao lado de outro gato. Iogues, contorcionistas, malucos, os gatos são mesmo criaturas incríveis e depois que tive a chance e a sorte de amá-los, nunca mais fui a mesma.
Passei minha infância ouvindo meu pai usar a expressão “ninho de gatos” sempre que nos chamava para ficarmos, minhas irmãs e eu, aninhadas no sofá e enroladas em cobertores para assistirmos aos filmes que passavam na televisão ou nas fitas que alugávamos nas locadoras.
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Há quase três décadas venho tentando que nasça e cresça um único maracujá que seja nos quintais das casas em que morei. A planta, uma trepadeira, da qual nasce uma de minhas frutas favoritas, sobretudo para suco, mas também para bolos e doces, o maracujazeiro produz flores muito bonitas e perfumadas.
Na minha infância eram comuns os pés de maracujá nas casas dos avós e mesmo na chácara em que moramos por alguns anos. Em determinadas épocas eram tantas as frutas que até doávamos o que não dávamos conta de consumir. Até então eu somente conhecia a versão azeda do maracujá e somente vários anos mais tarde, já morando em São Paulo é que foi apresentada a frutos doces, cujas polpas deliciosas eu devoro em algumas colheradas.
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Depois de procurar o livro em todos os sites que conheço, inclusive nos de livros usados, cheguei à conclusão de que estava esgotado. Comentando sobre o fato com o professor que me indicara a obra, recebi dele a sugestão de procurar em uma biblioteca pública. Parei uns minutos para pensar, com certo estranhamento, porque nem me lembrava mais da última vez que eu estivera em uma.
Lembrei-me quase no mesmo instante de que aqui bem perto da minha casa havia uma, ao menos eu passara lá em frente várias vezes e, exceto se tivesse sido desativada, talvez eu pudesse encontrar o livro infantil que não havia sido capaz de encontrar para comprar.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Uma coisa precisa ser dita: as festas de aniversário de hoje são muito diferentes daquelas da minha infância e, por certo, das infâncias da maioria dos meus leitores habituais.
Antes que me acusem de ser nostálgica, coisa que nem nego totalmente, parto não apenas da minha opinião, mas das opiniões de muitas outras pessoas. Certo que não tenho aqui dados estatísticos e aquelas chatices todas, até porque quem é que hoje acredita completamente em pesquisas de opinião? Enfim, sigamos.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Mais de quinze anos morando perto e só recentemente fui conhecer o Planeta Inseto, integrante do Museu do Instituto Biológico. O local fica em um canto verde, muito arborizado, na região centro-sul da cidade de São Paulo e é considerado o único jardim zoológico de insetos do Brasil e da América Latina, sendo autorizado pelo IBAMA e pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
A exposição é muito interessante, um passeio enriquecedor para todos que admiram o mundo em miniatura. É possível conferir a corrida da Baratas, por exemplo, além de conferir o interior de formigueiros, encantar-se como o mimetismo do bicho-pau e até bisbilhotar o que acontece dentro de uma colmeia.
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Nossa primeira tarefa da Oficina de escrita ministrada e idealizada pelo Prof. Celso Sisto, era produzir um texto sobre por que e como surge e ressurge a escrita em cada uma de nós. O grupo formado pelo professor e mais doze mulheres, todas amantes das letras, reúne-se semanalmente de forma virtual, eis que estamos quase todos em cidades diferentes, para estudarmos a obra de Roald Dahl. Para quem não conhece, é o autor de, dentre outros muitos livros, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.
Escrever sempre foi uma urgência na minha vida. Começar aos seis já era tarde demais para alguém que via nos livros mundos inalcançáveis, cujas portas foram se abrindo conforme as letras foram fazendo sentido ao se colocarem lado a lado. Antes de saber ler e escrever, no entanto, fui uma ouvinte atenta, uma observadora por natureza e uma curiosa acima de todas as coisas.
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Estavam ali, um ao lado do outro, de olhos fechados, na calçada. Próximo deles uma vasilha com restos de comida. Um era marrom e branco e outro, branco e cinza. Como os olhinhos fechados, pareciam estar dormindo, exceto pelo fato de estarem mortos, provavelmente envenenados.
Não sei a razão pela qual as pessoas odeiam tanto os pombos. Não gostar é uma coisa e até aí tudo bem. Também não gosto de um monte de gente e vida que segue, mas odiar a ponto de matar só por matar, de forma cruel, é algo que não sou capaz e nem nunca serei capaz de aceitar.
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Não vi direito quando ele se aproximou de mim dentro da loja e tomei um susto ao notar que a voz que se dirigia a mim vinha de baixo. Era um menino pequeno, de pele morena, vestido de bermuda e camiseta.
_Oi, eu não vou fazer nada de mal para você. Não precisa ter medo de mim: sou criança.
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A caminho para participar de uma reunião de trabalho, tendo feito um percurso de metrô, segui andando o restante do percurso. Como de costume, aproveitei para observar a paisagem urbana e as pessoas que, assim como eu, em uma quarta pela manhã, circulavam rumo a algum lugar ou, quem sabe, estavam à deriva.
Já na saída do metrô fui abordada por um rapaz maltrapilho, que cheirava muito mal e que me pediu dinheiro para, supostamente, comprar comida. De fato, eu não tinha dinheiro e nem comida que pudesse dar a ele naquele momento, ao que ele me mostrou uma placa de papelão na qual estava escrito o número de uma chave pix, opção prontamente oferecida por ele, diante da minha insuficiência de recursos em espécie. Antes que eu seguisse, porque não ia fazer um pix ali no meio da rua, ele sacou um celular e o balançou na minha frente, de prontidão. Muito doido tudo isso, pensei, antes de apressar o passo.
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Conhecida por todos os moradores da rua de um único quarteirão onde moro, Marie era o tipo de vizinha que agradava sem fazer esforço algum. Dona de um charme natural, fazia amizades facilmente e era sempre bem-vinda quando aparecia para suas rotineiras visitas.
Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, dia em que escrevo, recebemos a triste notícia de que ela partiu, vitimada por um tumor que a impedia de comer e que em pouquíssimo tempo a deixou debilitada, fazendo cessar seus passeios e deixando menos alegre a vizinhança.
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Dia desses, enquanto fazia aula de inglês online com uma professora norte-americana, mencionei que o Carnaval se aproximava. Percebo que, em geral, os estrangeiros que nunca estiveram no Brasil durante tal festa popular, têm muita curiosidade sobre o que de fato acontece. Normalmente o único conhecimento que têm é derivado das imagens veiculadas na mídia internacional, bem estereotipadas, ou seja, mulheres seminuas desfilando com plumas na Sapucaí.
Assim, não é muito fácil, não com meu inglês simplório, explicar que o feriado de Carnaval não é comemorado de idêntica forma nos mais diversos estados e mesmo nos municípios do país. Tentei explicar para uma americana mais idosa que, de uma forma geral, as pessoas se fantasiam nessa época, quando se dispõem a ir aos clubes ou as ruas para dançar e quando ela me perguntou a razão da fantasia, eu dei alguma justificativa histórica, mas a pergunta permaneceu comigo por mais tempo.
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Domingo cedo resolvemos levar as cachorras para um passeio matinal. Aproveitaríamos para levar também os resíduos orgânicos acumulados durante a semana para a composteira coletiva e, no caminho ainda passaríamos no Petshop para comprar ração úmida para os gatos.
Antes de sairmos notei que o céu se fechara em nuvens e que a chuva era quase uma promessa. Aceleramos o passo, mas o ritmo acabou sendo imposto pelas cachorras que ora iam cheirando tudo, ora aceleravam como se puxadoras de bigas. Deixamos os resíduos na Praça onde ocorre a compostagem e na seguida, cortando caminho pelas árvores, entramos na loja para comprar o sachê nosso de cada dia.
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“Em São Paulo eu não vou prestar vestibular porque não quero morar lá, naquela cidade horrorosa”. Foi o que afirmei categoricamente e com convicção há mais de trinta anos enquanto pensava nas opções de lugar para começar minha vida universitária. Eu tinha verdadeira ojeriza da capital paulista, medida pelas poucas vezes que a tinha visitado na minha infância e adolescência.
Anos depois, concluído o curso de Direito, realizado em outra cidade, acabei me mudando para São Paulo, o que se deu mais por contingências da vida do que por minha escolha. Daquela vez fiquei por dois anos rezando para que cada dia passasse para que eu pudesse ir embora.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
—Mãe, isso no seu copo é cachaça?
—Que é isso menina! É groselha – respondia Madalena, enquanto segurava o copo com as duas mãos.
Parada na frente do carrinho que anunciava em letras meio apagadas o “Copão do João – a melhor batida da praia”, Madalena negava o óbvio, já com as pernas meio falhando o passo.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
_Tia, por que a Gigi (uma de minhas cachorras) não gosta de mim? – perguntou-me minha sobrinha Olívia, de 4 anos.
_Mas ela gosta, meu amor. É que ela tem medo de pessoas – respondi.
_Eu nem sou pessoa, tia.
_ Claro que é!
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- Escrito por: Cinthya Nunes
O calor inclemente desanima das incursões pelo centro da cidade. Muitas vezes eu me esqueço de como o clima no interior do estado de São Paulo pode ser diferente da capital. Visitando meus familiares para as festas de fim de ano, praticamente fiquei dentro de casa a maior parte do tempo, a salvo do sol que parece fritar a pele de quem se aventura pelas ruas.
Contudo, chocou-me ver o quanto a cidade de Lins, onde meus pais moram, está com poucas árvores, ao menos na região central. Há quarteirões inteiros sem um único espécime, o que me parece incompatível com um local tão quente. Assim, quase não há refúgios naturais para as pessoas, mas também para os animais, sobretudo os pássaros.
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E outro ano chega ao final. Mais do que a simples mudança de um número, é um ciclo que se encerra para que outro se inicie. Não me refiro a mudanças drásticas, aos pensamentos mágicos de que tudo muda com a mera alteração de um dígito no registro da história humana. O fato é que a vida é feita de ciclos. Há o dia de nascer, o tempo de crescer e, em proporções diferentes, o tempo de deixar de existir.
Difícil não me perder em reminiscências nessa época do ano. Vivemos a ilusão de que temos o poder de colocar pontos finais e de inaugurar outros parágrafos, arriscarmos novas histórias. E o paradoxal é que por mais que tudo seja contínuo, também não é. A vida nos conduz e, no desejo de conduzi-la, há distanciamentos e despedidas inevitáveis.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
E chegou mais um Natal. Independente da religião professada, eu acredito que a maior parte das famílias brasileiras tenha alguma tradição, algum costume para referida data.
Mesmo quando têm o hábito de não fazer nada de diferente nesse dia, não deixa de ser uma espécie de tradição. Assim, certas pessoas e respectivos grupos familiares possuem tradições mais marcantes, quase seculares, enquanto outras seguem variando conforme a vida se apresenta.
A essa altura já coleciono muitos Natais e embora não me lembre com exatidão de todos eles, guardo lembranças especiais de muitos. Os primeiros Natais dos quais me recordo envolviam bolinhas coloridas e passear pela cidade miniatura do Mário, na cidade de Lins, onde cresci. Encontrar os presentes dispostos embaixo da árvore era sempre um bom motivo para irmos dormir, pois o Papai Noel somente chegava nas casas onde havia o silêncio das crianças obedientes.
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Leitor, não se engane. Todo personagem de livro, de série, de qualquer texto, tem inspiração em algo ou em alguém da vida real. Cada vez que nasce um protagonista, um coadjuvante, suas muitas partes já nasceram ou até já morreram no mundo real. E nem daria para ser diferente, porque a gama de possibilidades, a quantidade de tipos reais incríveis me parece ser quase infinita.
Gosto muito de observar as coisas, os lugares e as pessoas. Tento não ser indiscreta e nem parecer especialmente interessada porque para além de evitar possíveis situações embaraçosas, é bom lembrar que esse mundo anda bem esquisito e tudo pode ser interpretado de maneira enviesada. Portanto, do modo como vejo, a observação de pessoas para fins literários e para outros processos criativos é tarefa emocionante, mas permeada por riscos. Para quem se interessar, recomendo cautela.
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Quando ele despencou de cima do ar-condicionado, há alguns anos, ao menos uma das vidas ficou pelo caminho, tomando o rumo que os refis de vidas felinas tomam. Arteiro, meu pretinho básico sempre se pareceu com um molequinho, daqueles que surpreendem com feitos imaginários.
Aqui em casa ele já se camuflou de tal forma que a pessoa que deixei tomando conta quando me ausentei por uma semana afirmou categoricamente, muito constrangida, que ele havia sumido, fugido ou evaporado. Depois de enlouquecer procurando o Bento, meu gatinho de seis anos, por quase três dias, ela o encontrou dormindo no sofá da sala, como se nunca tivesse deixado de estar ali.
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A vida é mesmo surpreendente. Algumas coincidências são tão incríveis que é quase impossível reduzi-las a isso. Há quem nem acredite nelas, inclusive. Seja o que forem, deixam muito o que pensar. E foi assim que, nas últimas semanas experenciei um encontro emocionante, mesmo sem saber.
Como relatora do Tribunal de Ética da OAB fui convidada a participar da cerimônia de entrega das carteiras aos mais novos advogados, aqui em São Paulo. Para quem não sabe, trata-se de uma sessão solene, na qual os recém-aprovados na prova da OAB e inscritos na Ordem prestam compromisso de, entre outros deveres, defender a ética e honrar a advocacia. Trata-se de ato imprescindível e personalíssimo. Ou seja, tem que ir pessoalmente caso queira exercer a profissão;
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Se não estou muito cansada, sempre que faço uso de aplicativos de transporte urbano, aproveito para conversar com os motoristas. Eventualmente há alguns que optam por colocar uma música alta, deixando claro que não querem papo furado com passageiro. É preciso, assim, ficar atenta às sutilezas.
Quando, por outro lado, o motorista ou a motorista, porque há mulheres também, ainda que sejam minoria, tem postura que não me agrada, finjo falar ao telefone. Só não finjo dormir, porque, nesses casos, melhor manter os olhos bem abertos. Na semana que passou, precisando voltar para casa após um compromisso no centro de São Paulo, não quis arriscar ir até o metrô e chamei um carro de aplicativo.
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Hoje nem são mais tão populares como eram na minha infância e isso talvez se deva ao preço ou à concorrência com outras mídias, tais como vídeos e jogos de computadores.
Refiro-me aos gibis, revistas em quadrinhos que foram os responsáveis pelo amor que muitas gerações desenvolveram pela leitura.
Não me lembro direito qual foi o primeiro gibi que li, mas acredito que tenha sido algum exemplar do Tio Patinhas, do Pato Donald ou mesmo do Mickey, pois meu avô paterno, embora tivesse pouco estudo, era fã e sempre tinha alguns exemplares em mãos. Na casa dos meus avós maternos também era possível encontrá-los, mas eram de personagens mais antigos, como o Recruta Zero, Fantasma, Gasparzinho, gibis de terror e de faroeste.
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Há alguns dias, aqui em São Paulo, no meio da tarde o céu escureceu. Começou a ventar muito forte e logo raios e trovões dominaram tudo. Trabalhando em casa, corri para fechar janelas e portas, um tanto assustada com a intensidade da chuva. Nem sabia, na hora, que se tratava (segundo li) de um mini ciclone.
A coisa toda não durou meia hora, mas os estragos se projetaram por vários dias e por muitas vidas. Com a força dos ventos quase mil árvores caíram e, em uma cidade onde o cinza luta com o verde, sempre é triste saber de tantas perdas, porque com as árvores também se foram ninhos, sombra e flores.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Muito curioso o que o tempo vai fazendo conosco. Nem me refiro à questão física e estética, porque isso é assunto para outras reflexões. Quem já tiver vivido algumas décadas provavelmente entenderá melhor, porque é algo que vai acontecendo aos poucos, sem que nos demos conta. Em uma hora qualquer percebemos que não somos mais os mesmos.
E que bom isso, penso eu. Que tragédia seria passar por uma vida como uma linha estática, sem as subidas e descidas do nosso pulsar, no frigir das coisas.
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Quem ama cuida e se preocupa, sempre conhece o ser amado, seja ele gente ou bicho. Só de olhar para algum dos meus animais de estimação eu sei se há algo errado. Registro que sempre estou atenta a qualquer sinal, porque quando um animal adoece, a enfermidade costuma evoluir muito rápido e requer medidas imediatas.
Neste ano, de forma inesperada, tive que fazer uma viagem até a Alemanha. Sem que houvesse qualquer planejamento, lá fui eu viver uma das mais ricas experiências da minha vida. Em algum momento, provavelmente, narrarei sobre minha curta estada em terras germânicas, mas o fato é que tão logo voltei para casa, cansada e ainda perdida pelo fuso de cinco horas de diferença, notei que o Bento, meu gatinho preto, não estava normal.
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E tem histórias que, de tão inusitadas, mais parecem inventadas. Os escritores são devoradores de casos, ladrões de vivências alheias, com dois ouvidos a serviço de certa e inofensiva bisbilhotice. Ré confessa, cronista crônica, não desperdiço uma boa história, ainda mais uma que envolve animais, tema de predileção.
Foi assim que conheci a história do Galo Popó, um garnizé que se considera cachorro e dos bravos. Durante a pandemia, em um dia qualquer, ele apareceu, surgido sabe-se lá de onde, na porta de uma casa, em um condomínio residencial da cidade de Taquaritinga-SP. Sem ideia do que fazer com a ave, uma espécie de pinscher de penas, a dona da casa logo o ofereceu para o menino da casa da frente.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Sempre gostei de feiras livres. Gosto de andar entre as pessoas, observar as frutas, verduras e legumes frescos, de constatar a variedade de alimentos que podemos consumir de forma saudável. Isso sem dizer que muitas vezes nestes meus vinte e dois anos como cronista encontrei inspiração para novos textos em meio à movimentação das pessoas.
Hoje, inclusive, foi o caso, embora não pelas melhores razões. Gosto de comprar pastel no dia da feira, substituindo o almoço. É uma pequena regalia e exceção calórica a qual me permito em nome de viver uma vida gastronômica transgressora para quem odeia frituras em geral. Assim, aproveito o passeio com as cachorras, já passo na barraca do pastel e encomendo o meu preferido, para ser retirado mais tarde. A família de japoneses e funcionários já me conhece pelo nome e sequer preciso fazer mais do que passar, confirmar o horário e pagar.
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Com sintomas pouco conhecidos, o Brasil está entre os países com maior número de casos no mundo
Popularmente conhecida como Lepra, a Hanseníase é uma doença crônica, causada pela bactéria Mycobacterium lepral e que embora possa atingir qualquer pessoa, vitima sobretudo a população mais vulnerável. Admito que meus conhecimentos sobre a doença eram muito elementares e que desconhecia por completo a sua realidade em números.
Precisei elaborar um trabalho sobre o assunto e, como sempre, lidava com prazos que, por minha conta, estavam muito curtos. Pedi socorro para minha irmã Tricya, porque família sempre se coloca em roubadas, confessando que em três dias precisaria finalizar a pauta. Eu já havia levantado alguns dados, mas ainda faltavam opiniões de especialistas, além de depoimento de algum paciente.
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—Eu tô com esse machucado aqui, ó!
Olhei e não vi nada na perna da minha sobrinha Olívia, de quatro anos, mas ainda assim resolvi perguntar, para dar andamento na conversa:
— Meu Deus! Parece sério. Está doendo? Como você se machucou?
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- Escrito por: Cinthya Nunes
Acredito que só fui entender o significado da expressão que dá nome a esta crônica bem recentemente. Era comum ouvi-la, quando eu era criança, sempre que alguém, jocosamente, dizia que o filho não dava atenção aos pais, como se fosse filho de chocadeira. Como não tinha a real compreensão do que isso envolvida, eu ria também, até porque, por óbvio, nenhum ser humano nasceria de uma chocadeira.
Hoje essa ideia me causa profunda tristeza. O Criador, seja ele quem for, programou quase todos os nascimentos de modo a que os recém-chegados, gente ou bicho, sejam ajudados, cuidados e/ou amados por aqueles que os trazem a este nosso mundo. Embora haja aqueles que mal nascem e já estão à própria sorte, grande parte das espécies, penso eu, tem ao menos uma mãe.