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covid

De início acreditávamos que seria passageiro. Teríamos que ficar por um ou dois meses recolhidos em casa, evitando contato com os amigos, tudo para que o vírus, cujo nome ainda poucos sabiam, não se alastrasse pelo território nacional. Respiramos fundo e, passado o choque inicial, fomos ajustando nossa rotina, na certeza de que as coisas se ajeitariam.

Os meses, no entanto, foram se passando e mais do que mudar a rotina, tivemos que alterar nosso modo de viver, de estudar, de nos relacionarmos com os outros. Durante um bom tempo a maior parte das pessoas respeitou as limitações e, seja para se autopreservar ou para salvaguardar seus familiares, a cautela, inicialmente, falou mais alto.

Um dia, no entanto, a população se deu conta de que o vírus não estava de brincadeira, e depois de muitas lágrimas derramadas e ausências irremediáveis sentidas, constatou-se que o mundo nunca mais seria o mesmo. Diante dessa realidade, alguns se recolheram ainda mais, outros mantiveram os cuidados básicos. Infelizmente, porém, houve quem achasse melhor debochar do vírus, desafiando-o de cara limpa, sem máscara ou qualquer outra proteção.

Vivendo em sociedade, no entanto, as escolhas individuais impactaram na dinâmica de todos. Depois de um pequeno hiato, um breve respiro, quando as esperanças abriram a golpes de facão um espaço ao sol, as pessoas relaxaram e, equivocadamente, acharam que a normalidade estava de malas prontas para voltar e foi aí que tudo começou a desabar novamente.

Infelizmente, esquecidos do bem maior, a briga de egos e de poder retardou a chegada da tão sonhada vacina. Enquanto em vários outros países muitos já foram imunizados, ainda caminhamos a passos lentos, na incerteza da vinda de doses na quantidade necessária e em tempo hábil para evitar mais baixas e o colapso da economia.

De repente abrimos os olhos e lá se vai um ano de pandemia. Ganhamos algumas coisas, mas nada que se compare ou que justifique as perdas sofridas. Adaptáveis que somos, demos um jeito e adequamos algumas atividades, mas não conseguimos nem chegar perto de resolver os problemas causados pelo coronavírus. Para muitos brasileiros a palavra de ordem é sobreviver.

Quando deveríamos estar nos despedindo desse pesadelo, na tentativa de remendarmos o que sobrou, a situação se encontra pior do que já esteve. Sonhamos com uma redenção que 2021 poderia nos trazer e agora, novamente em lockdown na imensa maioria dos estados brasileiros, já nem ousamos prever nada. Ousamos sonhar, mas em silêncio, com medo de que o vírus, em revanche, sabote nossos planos de uma normal.

Particularmente, para preservar minha saúde mental, para estar íntegra na esfera que posso controlar ainda, optei por me alienar e não acompanhar religiosamente as notícias e previsões dos 1001 especialistas que habitam as mídias. Sigo vivendo um dia de cada vez, sem grandes planos.

Depois de mais de um ano afastada da docência, retornei há duas semanas, agora online. Assumi o compromisso de direcionar aos meus quase 800 alunos apenas palavras de esperança. Os jornais já se desincumbem do restante. Sugiro que sonhem com a formatura e com os abraços que os esperam lá, ansiosos, cheios de saudades.

Há um ano éramos inocentes e em maior número. Jamais supomos que viveríamos dependentes de álcool em gel e mascarados. Há um ano sonhávamos com lugares diferentes e hoje só queremos poder voltar aos conhecidos. Pagamos pela negligência, ignorância e egoísmo de alguns. Novamente somos prisioneiros, acuados pelo fantasma do vírus. Nessas horas, sem esforço, lembro-me de relatos cinematográfico de pessoas que, durante os primeiros dias das grandes guerras mundiais, acreditavam que tudo seria passageiro, que a vida daria um jeito de ficar boa novamente...

 Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e só espera que daí a um ano tudo isso seja apenas uma lembrança de tempos difíceis – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./ www.escriturices.com.br