Enquanto eu enxugava o suor que descia pelo meu rosto e tentava dar alguma dignidade ao meu quase desfeito rabo de cavalo, observei a moça que fazia caras e bocas para o celular. Pareceu-me que buscava o melhor ângulo, olhar e sorriso. As roupas que ela vestia, nem de longe se assemelhavam à calça velha de malha e à camiseta confortável que eu vestia. Nitidamente, estávamos vestidas para eventos diferentes.
Maquiada, usando um conjunto de calça e top azul marinho, combinando com um par de tênis caros, a menina, de idade que estimo entre 20 e 30 anos, tinha um corpo escultural, ao estilo mais músculos e menos partes moles. Praticante de selfies e de exercícios pesados, pelo visto. Com a maior descrição de que fui capaz, pela curiosidade que me é inerente, prossegui acompanhando-a com o olhar.
A cada novo aparelho a que ela se dirigia na academia, uma nova foto vinha ao mundo. Aquela boca não tinha como ser natural. Ou o modelo boca de pato embebido em molho de costela vem se tornando uma tendência genética, repassada de paciente a paciente. Não que a moça fosse feia, nada disso. Parecia, em verdade, uma boneca, mas não do modelo feito para crianças brincarem.
Voltei ao que era da minha conta e tratei de acabar de fazer as minhas séries, já com o pensamento fixo no que eu iria almoçar. Hoje em dia, claramente me exercito para poder comer, acima de tudo. Ao meu lado, um rapaz alto e forte gemia enquanto puxava uma quantidade de pesos assustadora. Ri de nervoso ao pensar nos cinco quilos que quase me exaurem os braços e ombros. Foi quando percebi que um amigo o filmava enquanto ele performava. Ao final, conferindo o vídeo, ele sorriu, aparentemente satisfeito. As redes sociais deram novos contornos à existência humana. Em alguns casos, retirou os reais.
Não tenho nada contra fotos, a propósito. Só acho esquisito que a academia, bem como outros lugares, tenha se tornado muito mais um cenário para projeções de vidas que se sonham vividas, do que aquelas que são reais. Como ouvi uma mulher afirmando em vídeo, respondendo a quem a criticava pelo uso de filtros nas fotos, “quer me ver feia, vá lá em casa às 6h da manhã, porque aqui na internet eu só quero mesmo é ser bonita”.
Depois de fazer o necessário, na verdade, o que tive paciência para fazer, notei um homem, meio acima do peso, que, com muito orgulho, ostentava uma camiseta na qual se lia: “meu pré-treino é a força do ódio”. Tive até vontade de tirar uma foto, mas não levo celular, como regra, para se exercitar comigo. Até que enfim, pensei, eu me senti representada.