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Após diversos adiamentos chegou enfim a data tão esperada. O primeiro ônibus espacial de turismo com destino à Lua partiria em poucas horas. Sem dúvida um marco histórico e com ampla cobertura internacional. Havia semanas não se falava sobre outro assunto e, sendo uma das viajantes, eu estava ansiosa, sem dormir há várias noites.

No total seríamos em cinquenta passageiros, além de cinco tripulantes. Por conta da Lei internacional de Igualdades aprovada no ano de 2.040, depois do efetivo controle da pandemia mundial causada pela Covid-26, deveria haver um número igual de passageiros por continente e a reserva de 10% dos lugares a pessoas sem recursos financeiros, sorteados entre a população de países menos desenvolvidos.

Do Brasil, portanto, éramos em dois. Lupie Borges, herdeiro de uma das maiores fortunas brasileiras, celebridade das redes sociais hífen-sexuais de realidade aumentada e eu, moradora da comunidade do Pirapaque, vendedora virtual de acessórios de ginástica mental, divorciada e mãe de dois filhos adolescentes.

Sendo honesta, até duas horas antes da partida eu sequer tinha certeza se iria mesmo. Não fazia ideia da bagagem adequada para Lua, qual roupa deveria usar lá, essas coisas. Como gastaria meu tempo durante a estadia de quinze dias? Ir à Lua nem tinha sido ideia minha. Soralice, a doida da minha filha tinha me inscrito no concurso, de olho no 2º prêmio, um carro solar.

O problema eram as regras: Soralice não as lera. Eram rígidas e o vencedor não podia desistir do prêmio, sob pena de pagar uma multa equivalente a cinco anos do meu trabalho. Gostando ou não, eu iria ao espaço. Passei por duas semanas de treinamento e tomei uns vinte tipos diferentes de vacinas.

No embarque conheci os outros passageiros, a maioria trilionária e falando línguas totalmente desconhecidas para mim. Nem chegamos perto dos ricaços, no entanto. Hologramas iam reprisando as instruções em caso de emergência. Em caso de abertura de uma das portas, deveríamos colocar os capacetes, encontrados embaixo de nossos assentos.

Após as portas fechadas, o pessoal do dinheiro foi acomodado em confortáveis assentos e os pobres foram levados a outro setor, sem luxo ou glamour. Percebi que na nossa sessão nem havia visores para apreciarmos a paisagem celeste. O lugar era apertado, abafado e durante a viagem de cinquenta e oito horas não poderíamos sair dali. A tal Lei das Igualdades aparentemente não se aplicava ao espaço.

Tão logo minha vizinha de cadeira abriu um recipiente de comida, clandestinamente trazido no turbante, o cheiro de repolho com linguiça empesteou o lugar.

Senti as porções de alimento compactado servido a bordo, querendo sair pela minha garganta. Por sorte nossos celulares começaram a receber sinal de Wi Fi ao deixamos a órbita terrestre. Ao menos eu poderia ter notícias da Terra e lá de casa.

Abro a primeira mensagem: era de Soralice. Queria aproveitar e me contar sobre sua inesperada e não planejada gravidez. Ah, todos os viajantes teriam acesso ao 10G ilimitado durante a estadia na Lua, escreveu-me ela, mas eu havia me esquecido de levar o carregador. Restavam apenas 10% de bateria de discussão virtual com minha filha. Gravidez? Como assim? Quando eu voltasse da Lua ela ia ver só!

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e não se esquecerá de levar o celular em sua primeira viagem à Lua – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br