O céu sempre me encantou. Os azuis dos dias ensolarados, com seus matizes variados. Outonos e primaveras são meus favoritos, mas os grises dos dias de inverno também têm seu charme. Nada, porém, desperta tanto minha curiosidade e meu sonhar quando o céu dos astros, o manto noturno.
Desde pequena, quando meu pai me ensinava sobre as constelações, lá na chácara em que moramos durante três anos, na cidade paulista de Clementina, onde a ausência de luz artificial de postes e habitações humanas, fazia ressaltar a imensidão da Via Láctea. Cruzeiro do Sul, Ursa Maior, Ursa Menor, Três Marias, Órion, eram alguns agrupamentos de estrelas que eu sabia identificar e das quais me enamorei.
Deitada na grama, mirando o céu, eu esperava pelas estrelas cadentes, fazendo pedidos que eram importantes para uma menina de nove anos e dos quais hoje sequer tenho lembrança. Imaginava como seria poder viajar entre as estrelas, pelos mundos que sempre acreditei existirem acima de nós. Naquela época, tudo era possível, alcançável. Talvez eu me tornasse astronauta.
Em uma daquelas noites, um movimento diferente desviou a minha atenção. Uma luz que se movia em zigue-zague, cortando o céu, para depois sumir, desaparecer. Ninguém acreditou em mim, uma criança com imaginação aflorada. Era um avião, disseram-me. Ou uma estrela cadente. Jamais me esqueci do que vi, porém. Continuei, muitas e muitas noites depois, procurando pela mesma luz ou algo parecido, mas nunca mais tive qualquer vislumbre semelhante.
Tempos depois, minhas irmãs e eu, criamos um céu de papel fosforescente no quarto de nossa infância. Tentamos imitar as constelações, colocamos planetas e até estrelas cadentes para os pedidos que mudavam a cada noite. Foi incrível dormir sob um céu permanentemente estrelado. De certa forma, astronauta, posso me transportar para lá em um simples fechar de olhos.
Décadas depois, comprei um telescópio, mas o céu da capital paulista, tímido diante de tantas outras luzes, não me permitiu muito mais do que examinar, com mais detalhes, a superfície da lua. As estrelas e o infinito que se estende por detrás delas, ainda despertam em mim a menina astronauta. Agora, porém, ciente de que meu corpo, em vida, não chegará até lá, envio meus pensamentos, minhas letras e minha alma. O céu, assim, nunca foi o limite.
Escrevo, hoje, um dia após um eclipse lunar. Segundo informações que colhi, a chamada Lua de Sangue, seria visível em todo o Brasil, sendo melhor observado entre 3h26 e 5h48. Cansada de um dia de trabalho, dei uma conferida no céu antes de dormir, um pouco depois da meia-noite. A lua, imensa, cheia, estava ainda lá, sem qualquer mancha de sangue.
Como sempre acontece, levantei-me de madrugada para minha ida noturna ao banheiro, reflexo do hábito de beber água o dia inteiro. Conferi as horas: duas e meia. Voltei a dormir, na certeza de que acordaria em tempo de observar o Eclipse. Quando o relógio tocou, as 6h20, já era tarde demais. Ficará para próxima, infelizmente. O sono e um pouco de preguiça foram vencedores. Em algum lugar dentro de mim, porém, uma menina está decepcionada pelo mínimo esforço despendido.
Não sei se somos ou não, poeira de estrelas, mas talvez isso explique a saudade que sinto de um lugar em que nunca estive, exceto em meus sonhos, na minha escrita ou na imaginação, mirando o céu, o infinito insondável sobre nós.