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1 aula remota

Em junho de 2019 minha vida deu uma reviravolta profissional. Após 20 anos de docência, fiquei fora das salas de aula e, embora uma pausa fosse necessária para aliviar o cansaço acumulado, eu me senti como um peixe fora d’água. Resolvi tirar um tempo para mim, para poder recuperar as energias e redirecionar meus esforços. Inicialmente seriam seis meses, a metade de um ano sabático.

Quem poderia, no entanto, imaginar o que 2020 reservava para o mundo? Foi um ano que pegou a todos de surpresa e muitos planos e metas tiveram que ser cancelados ou suspensos. De março em diante tudo ficou em stand by e em meio ao medo do desconhecido, do vírus que apresentava suas piores faces à humanidade, decidi permanecer afastada de muitas coisas, inclusive da docência.

Como a esperança sempre se deita por último, acreditei que as coisas melhorariam logo, mas veio dezembro e excetuando a expectativa da vacina, pouca coisa mudou. Mas eis que um convite inesperado surgiu e voltar para a sala de aula, mesmo que virtual, pareceu-me uma mudança bem-vinda.

Assim, desde fevereiro estou novamente em meio aos alunos, agora vivenciando uma nova experiência. Embora o ensino a distância não seja novidade para mim, nem como professora e nem como aluna, jamais estive em tempo real, separada apenas por uma tela, com turmas de quase 100 alunos.

Sei que há toda uma polêmica envolvendo o retorno das aulas presenciais, sobretudo no que se refere a crianças e adolescentes e me esforço para entender os dois lados. Quanto ao ensino superior, no entanto, acredito que os resultados podem ser muito bons se houver interesse genuíno dos envolvidos.

É claro que alguns cursos possuem particularidades que podem tornar mais difíceis ou custosas as transições entre o presencial e o online, diferentemente do que acontece no curso de Direito, sobretudo nas disciplinas teóricas. Em verdade, conforme a plataforma de ensino escolhida, não é tão distante da realidade de uma sala de aula não virtual.

Desde que eu era estudante universitária já imaginava que um dia seria também professora, independentemente dos outros rumos aos quais o Direito me levasse. E descobri, ao retornar ao convívio com os alunos, que o magistério ainda é uma paixão, uma vocação hereditária que abraço novamente com todo empenho e amor.

Embora eu veja tão somente as fotos e os nomes dos meus muitos alunos, aos poucos vou conhecendo-os de outros modos, pelas intervenções que fazem nos chats ou pelas poucas vezes nas quais abrem o microfone para alguma pergunta ou intervenção. Lamento apenas sermos privados do contato pessoal, mas estar com os alunos, interagindo com eles, auxiliando-os em seus propósitos de vida, confere a minha própria vida um propósito maior.

Os meus alunos me redimem, fazem de mim alguém mais feliz apenas pelo privilégio de com eles dividir algumas horas semanais. Ao retornar me dei conta de quanto tudo isso me fazia falta. Ser chamada de professora é algo que considero honroso e que me esforço para merecer, porque sei que nunca nos esquecemos daqueles que nos ensinaram, que conosco dividiram suas horas e conhecimento.

Meus sinceros e eternos agradecimentos aos meus professores, eis jamais deixarão de sê-lo em minhas melhores memórias. Que Deus me permita habitar as salas de aulas por muito tempo, virtuais ou não, porque a alguns chamados não podemos ignorar.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e se orgulha de ser filha de dois professores – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br