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rir

Acredito na terapia do riso, no poder da risada contra muitos males. Defendo o riso solto, verdadeiro, inspirado pela graça, pela alegria. Aquele nos pega de jeito, mudando as linhas dos nossos lábios, curvando a reta dos dias. Rir é bom demais. Quando conseguimos rir de algo, mesmo nos nossos piores momentos, é sinal de que ainda resta em nós a chama que mantém a vida.

Aprecio os temas sérios, é óbvio. A vida adulta é repleta deles, mas não precisa ser apenas deles. Nasci, creio, atraída pelas pessoas engraçadas. Sempre foram as minhas favoritas, a propósito. Gente que ri e sabe fazer rir, genuinamente. Nada mais bonito em um rosto, do que uma expressão feliz. Um rosto sorridente é capaz de transmitir muitos sentimentos positivos. E a gente não sorri somente com os lábios, porque o riso contagia os olhos e coloca músculos em exercício.

É claro que não se confunde a alegria, o bom humor, com o deboche, com o escárnio. Não se trata de rir do outro a qualquer custo. Há limites que são óbvios, morais, culturais e indispensáveis. Não há graça se o outro sofre. Risada boa mesmo é a coletiva, aquela que nasce sozinha e se amonta, como um imenso abraço.

Por isso, creio, goste tanto de comédias. Elas me fazem rir de coisas simples, relativizando o peso daquilo que é concreto demais. Fazer rir é, por outro lado, um dom. Nem todo mundo sabe ser engraçado e, talvez, por isso, muitas produções são forçosas, de humor duvidoso, apelativo e, não raro, ofensivo.

Certo que o senso de humor pode variar bastante, a depender de cada cultura, de cada pessoa, mas, penso, de modo geral, onde quer que se esteja no mundo, humanos que somos, há lugares, dentro de nós, nos quais habitam deuses do riso, gatilhos que nos evocam alegria, paz, que liberam hormônios capazes de nos fazer crer em dias melhores. Onde há um riso capaz de nascer, há esperança.

Não acredito que seja à toa que os pais, os amorosos, ao menos, buscam fazer sorrir os bebês, comemorando cada vez que isso acontece. Passamos nossa vida, de forma geral, caçando sorrisos no rosto daqueles que amamos. Não há sorrisos verdadeiros em meio à dor, à guerra, diante do medo, do desespero, do abandono.

Rir é bálsamo que expelimos de dentro para fora e que absorvemos de fora para dentro. Rir contagia, salva. Difícil não devolver um sorriso sincero que alguém nos direcione. Os melhores encontros entre amigos, entre família, entre amantes, são aqueles em que, para além de qualquer coisa, há risos, há alegria estampada, escancarada.

Nem sempre é possível rir, é claro. A vida não permite. Nem sempre há céu de brigadeiro. Porém, mesmo no caso de pessoas que vivenciam momentos de extrema dor, como o luto, por exemplo, há um instante de delicada virada. Quando um sorriso, ainda que pequeno, discreto, for capaz de surgir, legítimo, por vezes envergonhado por existir, é sinal de que a vida vai encontrar um caminho para voltar aos trilhos.

Se os olhos são as janelas da alma, o sorriso é a campainha. Botox nenhum no mundo rejuvenesce um rosto triste, amargo. As risadas eternizam as crianças que não deixamos se perderem dentro de nós. Se nem todos têm a chance de sorrir, façamos nós, pela vida, que, ainda que possa ser centenária, é muito, muito curta, para ser chata, incolor, insípida e inodora.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e prefere, sempre, rir, a chorar – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br