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Durante os mais de vinte anos que venho escrevendo crônicas, não foram muitos os momentos nos quais não achei assunto, não encontrei palavras para ocupar o espaço em branco. Ainda assim, naqueles momentos, sempre foi mais por algum cansaço pontual ou simples falta de inspiração. Diferente do que me ocorre hoje, por infelicidade.

Desde o início dessa tragédia mundial em que ainda estamos, tentei não concentrar meus textos apenas em sentimentos ruins, ressaltando também, na medida do possível, o que nos restava de bom, o que poderia ficar depois que tudo acabasse. Acredito que o fiz não apenas na tentativa de dar algum alento aos que leem o que escrevo, mas também para apaziguar meu próprio coração.

Houve instantes nos quais ousei sonhar que caminhávamos para o melhor, sobretudo quando a vacina se anunciou. Tive, por esperança ou inocência, vislumbres de dias melhores, de abraços reencontrados, de risadas amigas ocupando mesas mais fartas. Acreditei que 2021 pudesse nos oferecer alguma salvação.

Tentei, a todo custo, evitar o pessimismo e o tom de desgraça dado por muitos veículos de comunicação. Fiz o meu melhor, dentro das tantas limitações que possuo, como cronista e como ser humano. Na vida privada, escondi minhas lágrimas e meus medos em ligações de vídeo, buscando rir daquilo que ainda tem alguma graça.

Agora, embora insista em crer que um dia essa pandemia irá arrefecer, esse horizonte me parece mais longe do que minhas pernas conseguem andar, do que minhas palavras sabem traduzir. Essa sensação de desalento se instala em mim a cada notícia de novas perdas, dos números assustadores de desconhecidos e de amigos que essa doença maldita nos arrebata.

Esse ano, que mal encerra o primeiro trimestre, já nos roubou tanta gente, já calou tantos sorrisos, deixou órfãos tantos amores, que realmente não sei mais o que pensar. Não dá, simplesmente não dá, para fechar os olhos e pensar que ao menos ainda tenho comida na mesa, que minha família está bem, mesmo porque isso também é relativo e volátil.

Nessa semana vi amigos queridos se despedindo da vida. Vi nos olhos dos meus pais a dor de novas e sempre irreparáveis perdas. Não se trata mais de notícias sobre números, pois a cada dia mais eles são nomes e rostos familiares. Não há alienação protetiva que resista e estar dentro de casa, fazendo tudo que é recomendado para sobreviver quase não basta, já que a morte nos alcança também no luto alheio.

Só me pergunto como ainda há quem acredite que tudo isso seja uma conspiração, uma bobagem qualquer. E frise que essa afirmação de forma algum tem teor político, já que me refiro à população de um modo geral. Gente idiota insistindo em fazer festas, em não usar máscaras, em viver como se nada estivesse acontecendo de mais.

Assim, hoje, peço desculpas pela falta de palavras, daquelas que eu gostaria de escrever, do repertório que queria cheio dentro de mim. Sinto-me esvaziada, oca diante das lágrimas dos meus amigos, de saber dos precoces espaços vazios, das serestas que nunca mais serão.

Não sei quando esse texto será lido, mas eu o escrevo em um Sexta-feira Santa. Para os católicos, hoje Ele se foi. Termino por aqui, desejando que no Domingo, seja isso quando for, a Páscoa se faça presente, que haja ressureição para a esperança também.

Cinthya Nunes é advogada, jornalista, professora universitária e está de luto literário – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. /www.escriturices.com.br