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Penso que algumas coisas, certas obsessões nascem conosco. Assim, desde bebês manifestamos preferência por determinado alimento, por exemplo, enquanto parecemos abominar outros.

Talvez seja possível explicar isso através da ciência, da psicologia ou mesmo da religião. Pode ser, inclusive, que nunca tenhamos certezas nesse ponto. Fato é que, de minha parte, reconheço que trouxe comigo, sabe-se lá de onde, paixões bem definidas.

Acredito, como já escrevi outras tantas vezes, coisa por sinal bem característica de quem tem fixações, que meu amor pelos animais é parte intrínseca do que sou. Curiosamente, noto essa mesma propensão em duas de minhas sobrinhas, sendo uma delas de bem tenra idade. Suponho, desse modo, que há marcas em nosso comportamento, em nossa alma ou no nosso intelecto que são indeléveis e que sobrevivem às inúmeras experiências que a vida nos apresenta ou impõe.

Com as letras eu vivo o mesmo amor. Quis escrever mesmo antes de desenhar e me frustrei ao descobrir que não aprenderia a ler no primeiro dia de aula do pré-primário. Quando as palavras deixaram de ser apenas sinais sem sentido, passei a devorar os livros que encontrava pela frente, quase em frenesi. Friso que nunca fui uma leitora totalmente seletiva, no entanto. Embora refute alguns poucos gêneros acredito que é preciso ler para conhecer.

Escrever foi quase uma consequência, já que chega um pouco em que surge o desejo não apenas de fazer parte do mundo das pessoas por detrás dos livros, como também a necessidade de desocupar parcela da memória, de aliviar a profusão de ideias e palavras que vão se amontoando em algum recôndito inacessível de nós.

Comecei poeta, brincando com rimas simples, achando graça nos sons que pareciam brincar juntos, de mãos dadas. Escrevi diários e cartas de amor que jamais foram lidas por alguém além de mim. Em meus pensamentos criei universos inteiros antes de arriscar me expor. Escrevi tantas redações com ajuda de professores que buscavam domesticar adequadamente minhas palavras selvagens e sem regras que em certo momento concluí que não sabia escrever.

A primeira crônica que submeti à análise de terceiros voltou tão cheia de observações que tive vontade de traga-la de volta para mim, como se fosse possível jamais tê-la parido. Tempos depois recomecei e mais de vinte anos passados sigo tentando fazer a mesma coisa. Comprei e li dezenas de livros sobre o assunto, matriculei-me em muitos cursos sobre como escrever melhor.

Nesse momento, inclusive, faço parte de um grupo de trinta pessoas que vivem as mesmas angústias, que também se sentem incompetentes em vários momentos das linhas e que pensam em desistir no mesmo dia em que decidem que vão prosseguir, parágrafo por parágrafo.

Nem sei dizer se isso me conforta a curto prazo, no entanto, ou se me desespera em outra medida. Saber que as palavras atormentam mentes de diferentes idades, convicções e formações até acalenta, mas também dá a sensação de que pode não haver muita saída. E talvez a grande questão seja exatamente essa, não haver saída. Tal como uma servidão, uma ordem que nos impele a tentar o tempo todo, mesmo que não dê em nada.

Sou aprendiz de escritora. Busco lapidar minhas ideias, transformando-as em palavras que possam causar boa impressão, sentimentos e até indignação. Sei que terminarei meus dias, pouco importando quantos serão, cercada pelos livros e ameaçada pelas milhares de páginas em branco que me desafiam a todo instante, até porque não há outra escolha pra mim.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e escreve porque não sabe como não fazer isso – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br