Minha casa já foi palco de crimes bárbaros. Admito isso apenas porque sei que a lei não me atingirá com sua espada, muito embora, quando muito, eu pudesse ser acusada de algum ato culposo. Com os autores do crime sendo inimputáveis, porém, não me restava muito o que fazer. Apesar disso, sabendo que estive sem alternativas, a dor das perdas continuarão como fantasmas sobre minha cabeça, eternamente.
As duas primeiras mortes aconteceram há pouco mais de dez anos. Tudo em um dia qualquer, sem anúncios, premonições ou outro indicativo de que sairia do ordinário do trabalhar e voltar para casa. Quando chegamos, porém, somente algumas horas depois de termos saído, a cena era de total devastação. Restos mortais estavam espalhados pela área de serviço e, após muito grito e choro, encontrei os corpos, parcialmente escondidos.
O criminoso, porém, olhava-me enviesado, um tanto tremendo por ser descoberto, ainda que aparentasse nem saber ao certo a dimensão dos atos covardes e tristes. Tive que dar alguma dignidade aos falecidos, ocultando, assim, igualmente, os corpos e a conduta daqueles que eu amava. Tornei pública a minha dor e segui minha vida, terrivelmente magoada com o algoz, o qual mantive, também por amor, sob o meu teto, cuidando dele até que partiu, vítima de um coração intenso e já cansado.
O tempo passou e as coisas seguiram tomando seu rumo. Novamente, um outro dia comum, sem prenúncios ou riscos. Enquanto eu almoçava, tentando assimilar notícias que precisaria comentar publicamente, ouvi uma correria, uma barulheira indistinta e, por fim, um grito de terror. Larguei meu prato, meus pensamentos lógicos e segui para o quintal, com o coração aos pulos. Em um primeiro olhar, nada vi de errado, mas a ilusão durou segundos, pois logo avistei o que me pareceu uma refilmagem de mau gosto. Um raio cai sim no mesmo lugar, concluí.
Desta vez, a criminosa era do sexo feminino, ficha limpa e com um olhar de derreter os corações mais incautos. O crime não tem cara, meus amigos. Carregando o corpo frágil, tal como quem segura um brinquedo, largou a prova delituosa tão logo ouviu meus gritos, audíveis em toda vizinhança. Eu não podia acreditar que vivenciava aquilo novamente. Era surreal. Assim como da outra vez, o que se passou longe dos meus olhos será um mistério quase absoluto. Não havia câmeras no local e, as testemunhas presentes, ou não falam meu idioma, ou são cúmplices.
Restou-me a triste tarefa de cuidar do corpo, quase encharcado pelos meus lamentos de incredulidade. Neste caso, havia um agravante e uma atenuante. Um sobrevivente: o viúvo. Em um ato de desespero, compreendi que deveria tomar uma providência urgente, antes que uma queima de arquivo pudesse dar fim também a ele. Ao meu redor, a assassina, olhando-me sem entender, à espera de um afago.
Agora no programa de proteção de testemunhas, Elvis, a calopsita, prova que viúvo é quem morre, já estando devidamente instalado na casa da Di Bonetti e do Paulo, meus amigos e vizinhos, ao lado da Vicky, sua nova companheira. Prossigo, apesar dos pesares, amando a Gigi, minha cachorrinha confusa, que ama carregar brinquedos pela casa, trazendo-os aos meus pés.
O amor perdoa, é fato, mas há em mim, apesar do texto descontraído, a tristeza, a saudade e a certeza de que, agora, Kiko, Sol e Pompom estão onde sempre deveriam ter estado: no Céu, livres. E que Deus, se puder, me perdoe, pois ao Peteco e à Gigi, com certeza já o fez, assim como eu.