A expressão é antiga e em desuso, mas ainda pode ser encontrada em textos literários clássicos. Usada para expressar surpresa, espanto e indignação e é perfeita para ilustrar o que sinto quando escuto as pessoas se referirem exatamente às pombas. Já escrevi vários textos sobre essas aves tão marginalizadas, alvo da ignorância, do descaso e até da maldade, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Minha história com as pombas vem de longa data, desde quando descobri, aos oito anos, que elas gostavam de fazer ninho em um fresta do telhado da casa dos meus avós, em um lugar aquecido pela proximidade de um grande forno a lenha, utilizado na pequena e humilde padaria deles. Encarregada de verificar se havia ovos ou filhotes, sempre dizia que já haviam nascido, porque neste caso poderiam crescer em paz, enquanto os ovos, no intuito de encerrar o ciclo de multiplicação das pombas, deveriam ser destruídos.
Décadas depois, continuo protegendo, como posso, essas aves dóceis, inteligentes e tão equivocamente associadas a múltiplas doenças. Por conta disso, inclusive, já arrumei briga com muita gente. E não me importo, para ser honesta, embora lamente. Sigo e seguirei fiel aos meus sentimentos e minhas crenças.
É certo, porém, que o excesso de qualquer espécie animal em centros urbanos, principalmente do bicho homem, causa desequilíbrios. A propósito, nem conheço outra criatura que cause tanto estrago quanto as pessoas. Em muitos casos, as mesmas que reclamam das fezes dos pombos, pouco se importam de jogar bitucas de cigarro em todo e qualquer lugar, bem como lixo. Basta olhar pelas calçadas para, com um pingo de bom senso, absolver as pombas dos múltiplos males de que são acusadas. Enfim, vê quem quer.
Aqui na minha rua, há uma semana, surgiu um filhote de pombo. De coloração escura, ficava pela calçada ou sobre algum carro estacionado, pedindo comida para os pais. Já estava emplumada, mas notei que tinha algo diferente nela, porque, naquele ponto, deveria ser independente ou quase. Fiquei de olho e até coloquei um pouco de comida e água nas proximidades.
Depois de uns dois dias, concluí que ela talvez tivesse algum problema, porque ainda não voava para longe, circulando pela calçada. Fiquei com medo de que pudesse ser atropelada ou vítima de alguma pessoa maldosa. Em uma noite em que a chuva se anunciava, tentamos pega-la, sem nem saber de fato o que faríamos, exceto fornecer uma noite em segurança. Ela fugiu, mas ficamos preocupados se ela daria conta de sobreviver.
Na manhã seguinte ela estava lá, encolhida, mas fugiu depois de outra tentativa nossa. Entendi que a natureza se encarregaria dos seus mistérios, mas todos os dias eu a procurei com os olhos, mesmo depois de ouvir, ao longe, que a enxotavam da calçada, como se fosse o mal encarnado. Há dias não a vejo mais. Quero acreditar que voou, que foi capaz de se afastar da pequeneza das mentes antropocêntricas. Lamento não ter sido capaz de ajudar, se o destino dela foi outro. No fim das contas, Deus sabe para quem deu asas...