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cinema

Passar pela roleta era adentrar um local mágico, um portal para um mundo diferente, no qual sons e imagens pertenciam a outras dimensões. O cinema era um encantamento sem precedentes, sobretudo em um mundo sem internet e com televisão reduzida a pouquíssimo canais e opções. Ir ao cinema era um evento social, um acontecimento digno de habitar planos e demandar preparativos especiais.

Se a memória não me falha, a primeira vez em que estive no cinema, ainda bem criança, na cidade de Lins, foi para assistir ao filme Marcelino Pão e Vinho. Sentadinha no escuro, ao lado do meu pai e de uma de minhas irmãs, chorei quando o protagonista ficou entre a vida e a morte. Enquanto devorávamos balas de sabor tutti-frutti, habitávamos também aquele mundo, atravessando a quarta parede, contagiadas pela magia da sétima arte. Décadas depois, continuo apaixonada pela imersão de sentidos que o cinema proporciona.

Entre as lembranças sobre as minhas idas ao cinema, algumas, da infância, são peculiares, como a de tentar ler as legendas do filme A noviça Rebelde para minha irmã, dois anos mais nova. Como eu mal havia aprendido a ler, nem sempre era capaz de acompanhar o ritmo das cenas. E ela, segurando minha mão, ficava atenta, no desejo de entender o que se passava, aceitando como absolutamente verdadeiras, a minha tradução simultânea. Embora me esforçasse ao máximo, admito que, talvez já exercitando a criatividade, adaptei um pouco os diálogos.

Outra lembrança curiosa é a de que, vez ou outra, com a anuência do funcionário, passávamos, minhas irmãs e eu, por baixo da roleta, sem que tivéssemos ingressos. Dali íamos direto para a bomboniere, comprar balas, pipoca e refrigerante. Ainda que o fizéssemos com autorização, havia certa emoção naquilo, que nos fazia sentir especiais, daquele jeito que somente as crianças entendem.

Certa vez, nem me lembro qual era o filme, exceto que estava frio. Enquanto minha mãe comprava os ingressos na bilheteria, eu me distanciei um pouco, entretida com os cartazes dos filmes. Ao longe eu a vi a jaqueta azul escura que ela vestia e corri para perto, com receio de me perder no meio das pessoas que aguardavam a liberação para entrada. Como só havia uma única sala, era preciso aguardar a saída dos demais, quando havia sessão anterior. Segurei-a pela jaqueta e a segui, cinema adentro, até me dar conta de que uma mulher, que não era minha mãe, me olhava curiosa. Em pânico, enchi os olhos de lágrimas e meu coração só normalizou os batimentos quando encontrei a dona da jaqueta correta. Naquele dia, no escuro do filme, chorei baixinho por alguns instantes, só de pensar em como seria uma vida em que eu perdesse minha mãe de vista para sempre.

Naquela época, era importante chegar cedo no cinema, para encontrarmos os melhores lugares, aqueles que não ficavam muito distantes, nem muito perto da tela e que ainda fosse possível nos sentarmos todos juntos, família ou amigos. Assim, as luzes deveriam ainda estar acesas. Até porque não queríamos perder um segundo que fosse daquela experiência. Hoje, continuo com a mesma preocupação, mas confesso que isso, agora, diz mais sobre um lugar de fácil acesso e o medo de tomar um tombo.

Frequentei o mesmo cinema por toda minha infância e adolescência, comemorando a cada novo filme dos Trapalhões, Indiana Jones, Star Wars, ET, De volta para o Futuro, entre tantos outros que marcaram gerações. Tempos depois, aquele cinema fechou as portas, lacrando com ele, emoções vividas por todos que ali estiverem. Um marco da história se encerrou, no lamento triste de um país que, culturalmente, não preserva sua memória, sua história, sua arquitetura.

A juventude e a maturidade me apresentaram a novas emoções dentro das mais diferentes salas de cinema. As novas tecnologias acrescentaram sentidos, experiências inimagináveis para quem conheceu o cinema no início da década de oitenta. A televisão, a internet, as plataformas de filmes e mesmo a pandemia, ceifaram uma parte do público dos cinemas, mas acredito que, enquanto estivermos por aqui, as gerações que por ele se apaixonaram, ainda haverá quem, com um balde de pipoca na mão, sonhe pertencer, no escuro, a mundos e vidas diferentes.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e fã do cinema – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br