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etica

Só duas pessoas compareceram ao evento. A oficina gratuita de Escrita Criativa era uma das atividades previstas em comemoração ao Dia Mundial da Criatividade e Inovação, que é celebrado no dia 21 de abril. Descobri meio por acaso e já havia me inscrito havia semanas, principalmente porque seria a poucas quadras de casa.

Fiquei constrangida ao ver que a organizadora havia feito pequenos kits e blocos de rascunho, marcadores e lápis para os participantes e, dos quinze inscritos, só duas pessoas estavam lá, entre elas eu. Duas meninas, universitárias, presentes no local para dar suporte ao evento, acabaram participando também, para dar algum volume ao curso.

Quem já organizou algum evento, principalmente gratuito, sabe que é quase sempre assim. Acho triste. Foi muito legal, a propósito, mas se não fosse, a educação me impediria de ir embora, deixando uma única outra aluna no local. Creio, inclusive, que ela passou pelo mesmo dilema ético. Saí de lá com novos conceitos e ideias e, caminhando em um típico dia outonal, voltei observando as calçadas, na minha velha indignação com o lixo que se espalha sem qualquer criatividade pelas ruas.

Ainda sobre o evento, não é ilegal não comparecer, até porque há imprevistos, mas acho pouco provável que seja esse o caso de todos os ausentes. Contudo, há certo comportamento ético que se espera em uma sociedade supostamente civilizada. Talvez esse um dos dilemas atuais: as pessoas pouco ou nada se comprometem, num tempo em que a palavra só vale se autenticada em cartório.

Assistindo a uma aula, dias depois, o professor tecia considerações sobre a moral, o direito e a ética. Nem tenho repertório para reproduzir o que foi dito, mas uma coisa em especial me chamou a atenção, quando o tema resvalou para ética e inteligência artificial, esse último um assunto que será pauta de inúmeras discussões pelos próximos anos

Terá a IA limites éticos? E se a resposta for positiva, de quem serão os parâmetros éticos iniciais que a alimentarão? E depois, ela será capaz de estabelecer seus próprios limites?

Se é verdade que o teletransporte e os carros voadores ainda não deixaram o mundo da ficção, ao menos não em escala, por outro lado as questões sobre os desdobramentos da IA são atuais e demandam reflexões e a análises que nos impactarão em médio e longo prazo.

Em verdade, ao que me consta, já vivemos cercados de vários dispositivos regidos pela IA. Quem se vale de assistentes pessoais como Alexa, por exemplo, já tem uma certa familiaridade com esse “ser” cujas respostas, vez ou outra, fogem do convencional. Eu, por ora, prefiro não ter outra mulher falando aqui dentro de casa.

De volta a minha aula, o professor, quase ao final, perguntou aos alunos se já tínhamos perguntado para Siri, a assistente virtual dos telefones da Apple, se Deus existe. Óbvio que nem esperei a aula terminar para perguntar: —E aí Siri? Deus existe? A resposta, admito, não era o que eu esperava: “Os humanos se valem da religião. Siri se vale do silício”. Ou seja, respondeu e não respondeu. Filosofou total.

Na hora pensei que só essa reposta daria uma crônica inteira, mas a filosofia não é lá meu forte e achei melhor deixar que cada um analise de acordo com o que entendeu ou que não entendeu. Só não sei se foi ético da parte dela me responder com uma espécie de enigma, mas enfim, se não entendo as pessoas, quanto menos as não-pessoas.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e tem medo da inteligência artificial tanto quanto da burrice natural – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br