Gosto muito de caminhar pelas ruas, observando as construções, as pessoas, os espaços verdes. Muitos dos meus textos, inclusive, nasceram de tais momentos, fossem boas ou tristes inspirações. Uma coisa, porém, tem sido uma constante, uma premissa que, embora tão óbvia, parece ter sido esquecida de forma geral.
Nunca deixei de me indignar com a falta de compaixão, de consciência coletiva e civilizatória. São lixeiras destruídas, cocô de cachorro embalado em saquinho e deixado na rua, toda espécie de lixo descartado sem critério, plantas vandalizadas, tudo como se nada importasse e, penso, para parte da população, de fato, ao que parece, não importa mesmo.
Tempo de chuva, bueiros entupidos, alagamentos, rios transbordando, perdas patrimoniais e pessoais. As pessoas amaldiçoam o clima, o Poder Público, que tem sim sua parcela de responsabilidade, mas se esquecem de que, se cada um fizesse a sua parte, por menor que possa parecer, na soma das coisas, tudo seria melhor. Infelizmente, no entanto, é sempre mais fácil e simples delegar responsabilidades, ser pedra ao invés de vidraça.
Uma simples caminhada pelas ruas ao redor de casa, em um bairro considerado “bom”, é possível encontrar uma quantidade impensável de lixo espalhado pelas calçadas, nos canteiros, nos bueiros, que me faz pensar no tipo de gente que passa por aqui. Isso sem dizer na triste situação das plantas que são arrancadas por algum prazer mórbido de dar fim ao verde, sem que haja qualquer justificativa que seja.
Na calçada de casa há uma planta que floresce o ano todo, com flores brancas em forma de trombeta. Eu a plantei ali, no início da pandemia. Dá gosto de ver a quantidade de minúsculas abelhas que a circundam, entre outros pequenos polinizadores. Não raro, entretanto, encontro vários galhos quebrados pelas pessoas que querem colocar seus carros ali, sem sequer serem moradores da nossa rua de um único quarteirão. Fiz uma muda com um desses galhos e a dei de presente a um amigo que a plantou em outro canteiro. Dois dias depois e a muda desapareceu, arrancada saber-se-á por qual razão.
Por outro lado, admiro o quanto a natureza é resiliente, o quanto tenta nos ensinar, a nós, esses filhos tão ignorantes. Vejo plantinhas que nascem em espaços minúsculos, mas que a despeito do que poderá acontecer, seguem crescendo, fazendo a parte que lhes cabe. Noto que jovens ipês, germinando das muitas sementes espalhadas pelo vento, nascem em cantos nos quais não irão prosperar. Amoreiras e mamoeiros minúsculos despontando em calçadas, em míseras frações de terra escondidas entre o concreto. Impulsionadas pelo Divino, as plantas seguem no propósito que lhes é dado, onde todo dia novo é vida, onde cada folha é verbo.
Seja pelo muito que a admiro, seja porque, ser vivente, também só tenho cada dia, embora nem sempre seja simples prosseguir sem temer, busco absorver as lições da Natureza, na certeza de que é lá que Deus vive, nos pequeninos gestos, na certeza de que é preciso fazemos nossa parte, escrevermos nossas linhas, eis que, sozinhos, somos menos do que o mato que cresce abaixo do nosso caminhar.