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zeus

As portas automáticas se abriram e o homem entrou no vagão, abaixando a cabeça. Impossível não reparar que, perto de todos os demais ocupantes, ele parecia um gigante. Ou talvez ele fosse mesmo um gigante. Fosse ou não fosse, estava em maus bocados, porque, diante da ausência de assentos livres, teve que seguir em pé, com a cabeça encurvada. Acho que era isso ou seguir de joelhos. Naquela segunda-feira, que começara despretensiosa, a visão do quase-gigante fora apenas um dos momentos curiosos.

Mais cedo, no mesmo dia, fomos até o bairro da Liberdade, no centro da cidade de São Paulo, para resolver questões profissionais. Era para ser um bate-e-volta, mas como já estávamos por ali, resolvemos almoçar. Nossa escolha foi um restaurante de comida típica de Taiwan, um lugar que já frequentamos há mais de quinze anos, mas ao qual há tempos não íamos. Encontramos tudo repaginado, bem diferente do lugar acanhado e gerenciado por uma família conhecida. Porém, depois de um delicioso yakissoba e um copo de suco de limão com semente de chia, concluímos que a comida, ao menos, continuava igualmente deliciosa.

Há tempos eu tenho acompanhado, pelas redes sociais, que o bairro recebeu muitas novas atrações e, como uma delas era logo ao lado do restaurante, fomos conferir. Dentro de uma pequena galeria, em um cantinho acanhado, um rapaz, em gestos quase circenses, usando um maçarico, flambou um triângulo de marshmallow com sorvete de morango dentro. Admito que, para o meu gosto, a coisa toda era mais bonita do que gostosa, mas talvez seja porque prefiro sobremesas menos doces.

E já que estávamos por ali, fomos conferir o que havia dentro da galeria, encontrando uma lojinha de perfumes árabes, cujo dono era um egípcio, vindo do Cairo há menos de quatro anos e que já fala português melhor do que muita gente que eu conheço. Simpático, bom vendedor e bom de conversa, teve zero dificuldade para nos vender perfumes cujas embalagens já parecem um enfeite e cujos aromas, somados a preços muito bons, valeram o passeio. Parcelado, como se diz, a gente compra de quase tudo.

Por uma questão de logística, resolvemos voltar de metrô. No guichê, um homem maltrapilho, ao lado de um cachorro imenso, branco e lindo, aguardava na esperança de receber uns trocados. Mal encostamos e ele nos pediu dinheiro para comer. Tirei uma nota e entreguei a ele, que me olhou nos olhos para agradecer. Elogiei o cachorro, bem cuidado, de roupinha, perguntando como se chamava. Só agora percebo, com certa vergonha, que tão apenas me interesse em saber sobre o cão.

— Zeus - respondeu-me ele.

Tão logo repeti o nome, o cachorro ficou sobre duas patas, colocando as outras duas sobre mim, com a guia na boca, oferecendo-a. O rapaz ficou com medo de que eu achasse ruim, mas relaxou visivelmente quando acariciei o Deus do Olimpo. Com um sorriso ele me disse que o cachorro era sua família, o protetor do sono dele, o vigia dos seus poucos sonhos. “Mesmo a gente não tendo nada, moça, ainda nos roubam enquanto dormimos”, afirmou, com meio sorriso triste.

Entramos na estação nos despedindo de Zeus e de seu tutor zeloso. Na sacola, um perfume vindo do outro lado do mundo, no estômago, uma comida oriental e, no coração, um desconforto nacional, uma sensação de que o mundo é mesmo imenso, minúsculo, estranho e injusto.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e professora universitária – /www.escriturices.com.br

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