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sapateado 1

É engraçado como algumas lembranças se sobrepõem a outras. Há tantas coisas das quais não me lembro mais ou para as quais preciso de alguma ajuda para fazê-lo. Para o bem e para o mal, a memória humana é limitada e algum dispositivo desconhecido ou maluco escolhe as lembranças que permanecerão, mandando para algum lugar misterioso, talvez eternamente inacessível, todas as demais.

Dito isso, ainda que nada esclarecido, por alguma razão eu me lembro de que, quando tinha uns 16 anos, fui assistir a uma apresentação de sapateado no antigo Clube Linense, em Lins-SP, onde morei por toda minha adolescência e a maior parte da infância. Fiquei encantada com a coreografia dos dançarinos e com o som que faziam com os toques ritmados dos sapatos junto ao chão.

Justamente eu, desprovida de coordenação motora, nascida com dois pés esquerdos, imaginei, por alguns momentos de êxtase, que seria capaz de fazer como os artistas que se apresentaram. Seria incrível dançar e cantar, executando coreografias que deixariam a plateia boquiaberta. Eu já podia até imaginar uma futura carreira. Sonhei, naquele momento, como só se pode fazer quanto a vida ainda é só futuro.

Ao final do espetáculo, quando anunciaram o sorteio de duas vagas para o curso de sapateado, pensei que a sorte estava me rodeando. Admito que vivenciei um misto de alegria e frustação quando meu número foi sorteado e ganhei um sapato de sapateado, de tamanho 39. Na época eu já calçava o tamanho máximo que meus pés alcançariam e sem chance de aumentarem mais três números. Fiquei sem saber o que fazer com meu prêmio, o símbolo de uma carreira sonhada por dez minutos.

Durante algum tempo acalentei a esperança de que fosse possível trocá-los ou vendê-los. Ainda havia alguma chance de usar o valor para fazer algumas aulas de sapateado ou para simplesmente comprar um sapato para sair com minhas amigas. Cogitei que meu pai pudesse se tornar um Fred Astaire, tomando posse do sapato, porque ele, ao menos, sempre dançou bem, mas calçar 40 impediu que mais um membro de nossa família fizesse carreira artística.

Não me recordo exatamente quando, mas somente depois de vários anos eu me livrei dele. Até lá, era como uma peça de museu, uma atração, retirado de sua caixa branca e exibido aos amigos e parentes. Às vezes eu até os calçava e ensaiava alguns passos. Ao menos meus pés dançavam lá dentro, na diferença dos números que serviram de justificativa para minha não incursão pelo mundo da dança, o fato de eu ser péssima, pouco importando na equação.

Um dia, o sapato que nunca dançou, que nunca estreou um espetáculo, se desfez pela umidade, pelos longos anos de uma aposentadoria precoce. Eu o encontrei moribundo, desprendendo-se da placa de metal que lhe dava (ou deveria dar) voz. Foi para o lixo, longe da ribalta e dos aplausos, tudo por conta de três números a mais, como eu me convenci a crer.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e já aceitou a não carreira de dançarina – /www.escriturices.com.br

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