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viagem

Tirei uma semana de férias. Uma curta viagem aos estados do Paraná e de Santa Catarina. Já fazia alguns anos desde que estive lá pela última vez. Algumas semanas antes, a previsão do tempo era de bastante frio. Organizei, então, uma mala com roupas quentes, mas como o espaço para as malas era estratégico, tive que escolher um único casaco mais grosso, que mandei para a lavanderia a fim de deixá-lo preparado.

Nos dias que antecederam a viagem, porém, a previsão do tempo já era mais amena, o que me decepcionou um pouco. Não gosto de frio extremo para dias de trabalho, mas para comer guloseimas e passear por lugares turísticos, já é outra história. Como sou péssima para arrumar malas, seja na organização, seja na escolha do que levar, deixei para última hora. E sabe-se lá o porquê, mudei de ideia e resolvi levar um casaco diferente.

No dia em que chegamos à nossa primeira parada, o frio estava mais intenso e saquei minha jaqueta de couro marrom, forrada parcialmente com lã, bem confortável e quente. Passaríamos o dia todo ao ar livre, em atividades que envolviam movimentação constante. Em certo momento, porém, notei que a manga da minha jaqueta tinha um leve descascado. A peça de roupa tinha passado bastante tempo guardada e imaginei que fosse apenas um ressecamento, planejando levá-la para consertar, na volta. Doce ilusão.

No decorrer do dia, como se estivesse tomada por alguma praga, a jaqueta começou a descascar em lugares distintos, em progressão geométrica. Eu passei de incrédula a revoltada. A roupa era de uma marca famosa (uma de minhas únicas, por sinal) e havia sido pouquíssimo usada, mas inegavelmente, estava dando seus derradeiros suspiros. Conforme eu andava, seguia deixando meus rastros, marcando como João e Maria, meu caminho pelo parque.

Assim que voltei ao hotel, enrolei a dita cuja em uma sacola e me despedi dela. Pela previsão do tempo, porém, ainda teria ao menos dois dias frios pela frente. Por sorte, eu havia levado algumas roupas intermediárias e, vestida como uma cebola, em várias camadas, segui como foi possível, decidida a comprar outra blusa na cidade seguinte na qual nos hospedaríamos.

Em tese, o plano era bom, exceto pelo fato de que não encontrei nenhuma boa loja, exceto uma na qual qualquer peça custava cerca de quinhentos reais. E eu só pensava que nenhuma era bonita e que o meu armário estava cheio de outros casacos. Porque eu tinha que ter escolhido exatamente uma roupa em estado de decomposição, só Murphy seria capaz de explicar.

No fim das contas, achei um colete super grosso, que até parecia daqueles de salva-vidas, mas que era bonitinho e que estava com cinquenta por cento de desconto. Como era de se esperar, o frio se foi e eu não o usei em momento algum. O pior, porém, é que ele não cabia na minha mala e veio para seu novo lar funcionando como um travesseiro sobre o qual me apoiei durante a viagem de volta.

Enquanto estávamos lá, porém, o frio estava aqui em São Paulo, juntamente com minhas roupas e com o casaco preterido na última hora. Agora preciso arrumar uma utilidade para o colete gigantesco ou esperar que ele se desfaça, em alguma próxima viagem.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e não gostou de sair esfarelando pela estrada afora – /www.escriturices.com.br

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