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 desvario

Não sei você caro leitor, mas para mim parece que as pessoas endoidaram de vez. A cada dia mais eu me convenço de que saúde mental é o maior luxo do milênio. Só queria saber se isso sempre foi assim e se agora, diante do aumento de habitantes e com maior facilidade de acesso às informações, apenas temos mais notícia dos escabrosos fatos. Eu realmente gostaria de saber se vivemos em um imenso surto coletivo ou se só agora ficamos cientes disso.

Os exemplos são os mais variados e para todo tipo de desgosto. Em todos os casos, porém, o que se nota é que a imagem tem muito mais valor de mercado do que a vida. Os valores estão completamente invertidos. Ou muita gente perdeu o bom senso ou estamos vivendo dentro do livro O Alienista, obra-prima de Machado de Assis, leitura que considero mais atual do que nunca.

Dia desses, por exemplo, uma moça, flagrada pelas câmeras, adentrou em um salão de beleza na cidade de São Paulo e, após retirar de dentro da bolsa, uma faca de cozinha, enfiou-a nas costas do cabeleireiro. Só não o feriu com mais gravidade, talvez até mortalmente, porque um funcionário a impediu. O motivo? Ela teria ficado descontente com o corte na franja. Então, após ofender por telefone o profissional, achou por bem ir lá meter uma facada nele. Simples assim.

Igualmente revoltante foi o fato dela admitir e ainda, diante das câmeras, já contida por policiais, dizer que achou certo o que fez, afinal de contas a franja dela ficou parecida com o Cebolinha, personagem de quadrinhos criado por Maurício de Souza. As imagens, porém, não mostram nada assim. Mas, ok, ainda que o resultado tivesse desastroso, cabelo cresce. Uma ação de indenização por danos morais seria o meio mais civilizado, creio eu. Exceto se a jovem tiver algum problema psiquiátrico, é assustador pensar em como as pessoas estão reagindo diante de questões de importância menor.

Uma emissora de tevê, ainda, achou por bem entrevistar a moça, algo que eu realmente não compreendo. Indagada sobre o que ela teria a falar à vítima, afirmou que queria explicações. É o rabo abanando o cachorro mesmo! E dar uma facada nas costas das pessoas é perfeitamente normal e aceitável, pelo visto. Quem manda cortar uma franja de forma desfiada?

Vi a entrevista em uma rede social e fiz um comentário, incrédula pelo destaque dado, como se fosse algo justificável. Em menos de dois dias, o comentário conta com mais de sete mil curtidas, mas o que mais me espantou foi receber mensagens de duas outras mulheres, afirmando que “a menina da franja” estava correta, porque os cabeleireiros fazem mesmo o que querem e que nunca são punidos! Outra, afirmou que eu nunca deveria ter saído insatisfeita de um salão de beleza para julgar que um cabelo mal cortado não era coisa séria. Ok, a louca devo ser eu. Machado era um gênio mesmo.

A partir desse momento, os cabeleireiros acabam de entrar no rol de profissões perigosas. Ou deveriam. Pensar que já cortei, amadoramente, o cabelo de tanta gente (a pedido, registre-se) e nunca imaginei os riscos aos quais eu estive sujeita. Detector de metais nas portas dos salões de beleza talvez passe a ser equipamento de proteção obrigatório, já que o bom senso, aparentemente, não é!

 

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e pensa, vez ou outra, ouvir, ao longe, o som das trombetas do apocalipse – /www.escriturices.com.br

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