
Saímos para uma caminhada rápida com as cachorras, minha mãe e eu. Ela me fazia uma visita, vinda do interior, para passarmos o Carnaval em família. Todos juntos, pais, irmãs, cunhados, marido, sobrinhos. Do nosso jeito, com as nossas qualidades e nossos defeitos, tentamos criar novas memórias sempre que temos oportunidade.
Mesmo com a casa lotada, as cachorras não deixam passar em branco o sagrado horário do passeio matinal, mesmo que seja por poucos quarteirões. Nesses momentos, costumam parar para cheirar tudo o que encontram pelo caminho. É preciso tomar cuidado para não xeretarem tudo e se apropriem, indevidamente, de ossos jogados com lixo e comida.
Quando uma delas parou para bisbilhotar o que parecia ser uma pilha de papeis rasgados, notamos que saiam de uma caixinha de madeira, rústica, de aparência envelhecida. Os papéis, em verdade, eram receitas recortadas de revistas, jornais, livros e/ou embalagens, caprichosamente coladas em fichas. Alguém havia se dado ao trabalho de, por muito tempo, colecionar receitas e guardá-las.
Paramos, por alguns minutos, olhando para aquela cena. Não eram apenas simples papéis, mas registros de uma vida, ou de parte dela. Neste sentido somos muito parecidas, minha mãe e eu. Tenho certeza de que a mente dela traçou tantas possibilidades quanto a minha. Tentei imaginar quem as teria guardado, se as teria testado, se foram usadas em momentos especiais, mas, principalmente, porque terminaram jogadas, como lixo, em uma sarjeta qualquer.
Tivemos que seguir o passeio, fosse porque as cachorras já estavam impacientes, fosse porque nos esperava, igualmente sem paciência, em casa, o restante da família, ansiosos pelo almoço em uma típica cantina italiana de São Paulo. Entre as receitas, também havia a de espaguete ao molho branco, com alcaparras, como bem reparei. Lamentei não estar com meu celular, para registrar a cena, tão repleta de camadas de significados.
Como dizem, o luxo de um é o lixo do outro. Provavelmente, nunca saberei a origem daquela caixinha de madeira, convertida em lixo urbano, desalojada, com as entranhas de papel espalhadas pela calçada, mas sei que nunca me esquecerei daquela cena, da sensação pungente de que não há tempo a perder, de que as receitas e os projetos não devem viver para sempre no papel.
Desejo muito que tenham se convertido em almoços, jantares, cafés com bolo, encontros entre amigos ou consigo mesmo, porque, no fim das contas, não há receita para vida, exceto viver, seja lá como for.
