
Chá de boldo se estiver com fígado atacado. Pode ferver as folhas ou macerá-las frias em um pouco de água. Corte uma cebola e coloque açúcar sobre ela. Deixe-a na geladeira por uma noite e, no dia seguinte, em que pese o cheiro e o gosto, teremos um eficaz xarope para tosse. Dor de barriga? Suco de limão, de caju, de goiaba. Desidratação? Água de côco ou soro caseiro. Garganta inflada? Gargarejo com água morna, vinagre e sal. Para muito além desses exemplos, cresci vendo os mais velhos manejando esses remédios caseiros para serem usados como coadjuvantes em tratamentos de saúde ou, na ausência de outros recursos, como tábua de salvação.
É claro e óbvio que não estou afirmando que as pessoas devam substituir os remédios tradicionais, sem qualquer amparo ou orientação, mas há situações nas quais eles poderiam servir de importante ajuda. Creio, porém, que um dos maiores problemas seja que a população, sobretudo os mais novos e os moradores dos grandes e médios centros urbanos simplesmente desconhecerem, em absoluto, tais possibilidades.
Nascida no interior do Estado, neta de pessoas que conheciam os benefícios e utilidades das plantas, tendo morado por alguns anos em uma chácara, com contato direto com a terra, uma curiosa nata sobre a natureza, tentei absorver todo conhecimento que pude e, ainda assim, desconheço muita coisa. Fico chocada, porém, quando percebo que grande parte das pessoas é incapaz de identificar uma árvore, além de adultos completamente desconectados da natureza. Ao meu sentir, vivendo em um país de terras férteis, com muitas pessoas abaixo da linha da pobreza, enquanto outras vivem se equilibrando para não cair nela também, alguma coisa está bem errada.
Sim, sei que cheguei naquela fase da vida na qual as reminiscências do passado vão se apoderando das palavras e dos pensamentos, porque, exceto se eu me tornar centenária, há mais passado nas minhas costas do que futuro a frente dos meus pés. Mas, correndo esse risco de parecer pura nostalgia, entendo que faz falta uma escola na qual as crianças aprendam a plantar, a entender o tempo de colher, certas de que é preciso dedicação para ter resultados. E isso, meus queridos leitores, nem diz respeito apenas sobre plantas.
Dia desses, conversando por mensagem com uma conhecida, uma pessoa bem humilde e sem muita instrução formal, sugeri que, diante da ausência do xarope gratuito no posto de saúde, que ela fizesse um natural, como auxílio para a tosse forte. Ela já havia recebido do SUS todos os outros medicamentos receitados, menos o xarope. Respondeu-me que não sabia fazer nenhum. Enviei receitas e expliquei como fazer alguns com ingredientes muito simples, ao menos para tomar naquela noite, até que fosse possível comprar o outro, tradicional (que também era de mel e limão, registre-se). Respondeu-me evasivamente, dizendo que faria. Acredito, porém, que não tenha se dado ao trabalho.
Em outra oportunidade, sugeri a ela que plantasse, em pequenos vasos, hortelã, boldo, capim santo. Prontifiquei-me a dar as mudas ou as sementes. Mãe de muitos filhos, poderia ser útil para situações simples, mas creio que ela nunca o fez. Quando vi que um dos filhos dela, já adolescente, ao avistar um mamoeiro, indagou-me se era uma mangueira, não pude deixar de lamentar. Lamentei e lamento a imensa falta de conhecimento que, ouso arriscar, a imensa maioria dos brasileiros tem sobre o que vem da terra, nossa mãe, nossa origem.
Sei que vivemos o mundo da tecnologia e eu, particularmente, adoro. Creio, porém, que um conhecimento não deveria excluir o outro, até porque tem objetivos e resultados distintos. Saudades dos tempos do grão de feijão crescendo no algodão, das hortas escolares. Talvez as pessoas não passassem tanta fome mesmo diante das frutas que caem das árvores nas calçadas e tivessem mais consciência ambiental e ecológica. Falta investimento, vontade política, desejo de ter uma nação menos ignorante. Enquanto se desviam recursos, verbas públicas, não resta tempo para preparar cidadãos, seja a legenda política que for. E haja chá de boldo!
