
Não notei o momento exato em que ela chegou. Minúscula, colocou-se sobre a tela do meu notebook e ali ficou por quase toda a aula que eu ministrava online. Depois dos quarenta e tantos, passei a precisar de óculos para perto, padecendo do “braço curto”, ainda que de longe eu enxergue perfeitamente. Mesmo de óculos, porém, não consegui identificar, naquele instante, se era uma micro abelha ou uma mosquinha, exceto que, aparentemente, estava interessada em Ética da Advocacia.
Não maior do que uma cabeça de alfinete, dos pequenos, tinha olhos alaranjados ou vermelhos, imensos para o tamanho do restante de seu corpo. Eu a fotografei, mas quando ampliei a imagem para vê-la melhor, perde-se a nitidez. Em uma busca rápida na internet, porém, descobri que era uma drosófila, a mosca das frutas, moradoras contumazes da minha fruteira, com a diferença de que “as minhas” costumam ser escuras, enquanto essa era colorida, parecendo estar maquiada. Admito que a achei bonitinha, sentindo mais simpatia pelas queridinhas de Mendel.
O curioso é que ela se instalou e ali ficou, quietinha, por mais de uma hora, imóvel, mas com os olhos coloridos voltados para mim. Como se estivesse hipnotizada, não conseguia evitar de olhar, eu também, para ela. A visitante ousada, em certo momento, abaixou as perninhas, como quem descansa e desejei ser capaz de enxergá-la melhor, porque a cena era estranhamente fofa. Na mesma hora me senti meio culpada pelo extermínio em massa que já provoquei nas primas dela.
Por mais que eu coloque todo tipo de repelente natural, que já tenha usado raquetes de choque, nunca consegui me livrar delas. Eu, que normalmente não mato nada, sou assassina confessa das moscas da fruta, mas admito que nunca havia visto uma tão simpática. Não é de hoje, porém, que sou fascinada pelo mundo das minúsculas criaturas, daquele universo que nos escapa aos olhos, mesmo àqueles que não precisam de uma lupa para ler uma simples bula de remédios. Se eu pudesse, sugeriria ao Criador que nos colocasse um zoom nos olhos. Se bem que, pensando melhor, é bom não enxergar tudo, como rugas no espelho e sujeira nos móveis. Deus é O cara mesmo, sem dúvidas.
Fico imaginando que minha inusitada hóspede, possivelmente, prestasse mais atenção no que eu falava do que o faziam alguns alunos, com suas câmeras fechadas e silêncios sepulcrais. Quando eu já estava prestes a tocar em algum assunto que também fosse de seu interesse, somente para inclui-la, lembrei-me de que precisava fazer a chamada. Assim que finalizei, depois de conferir as presenças de mais de cinquenta alunos, ela esticou as asinhas e se foi. Voou pela janela, em um vôo lento. Registrei a presença na minha agenda, mas somente parcial, pois ainda tínhamos mais de meia hora de conteúdo.
O grande problema, agora, é que terei que arrumar algum outro meio de afastar essas mosquinhas da minha cozinha, sem apelar para violência. Eu seria incapaz, depois de ter uma delas como aluna. Seria uma falta de ética tamanha de minha parte. De um tamanho bem pequeno, mas seria.
