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celular academia

Faço musculação porque me sinto obrigada, compelida mesmo, pelo meu desejo de manter um corpo que aguente me carregar por aí, dignamente. Nunca fui fã, porém. Gosto de outras modalidades esportivas, não sou sedentária, mas o ambiente das academias nunca foi capaz de me seduzir e olha que comecei muito antes da existência dos celulares, quando as pessoas só iam basicamente para se exercitar mesmo. Ok, nem todos, mas, naquela época, décadas atrás, a maioria frequentava com essa única finalidade.

Desde muito, porém, o público já se dividia em “clãs”. Claro que tinha o pessoal que ia para paquerar (ainda se fala assim?) e derivados, bem como aqueles que iam por questões de saúde, médicas até. Isso sem contar aqueles que só frequentavam financeiramente, com as mensalidades em dia, mas a presença nem tanto. Os outros, seguiam em busca dos músculos mais definidos e/ou de um corpo saudável.

Nem tenho mais pudor em dizer que acho tudo isso muito chato, por mais que seja ótimo para saúde, se feito adequadamente. Então, estando naquela fase da vida em que é melhor prevenir do que remediar, crio coragem e vou algumas vezes por semana, nos meus horários livres, mas vou no modo raiz: sem grandes produções, até porque vou para me exercitar, tão somente e, para isso, prezo pelo conforto e praticidade.

Assim que chego, já calculo quanto tempo precisarei para fazer todas as séries necessárias, conforme consta do plano de treino que eu já nem sei onde está há meses. Vou meio que seguindo pela memória, ainda digna de alguma confiança. Meu objetivo é fazer tudo rapidamente, com atenção e foco e voltar para casa o mais rápido possível, para fazer coisas de que realmente gosto ou aquelas das quais não posso me eximir.

E é aí que começa o meu estresse: querer otimizar meu tempo em meio a uma multidão sem qualquer pressa. Até aí, é só uma chatice da minha parte, porque cada um administra o tempo como pode, quer ou gosta. E se tem gente doida que ama musculação, isso é problema deles, mas o que me deixa louca são os folgados do celular, aquela galera que faz dois movimentos nos aparelhos e passa dez minutos olhando para os celulares, esquecidos de que não são os donos dos aparelhos, nem mesmo estão em processo de usucapião.

Nesta semana mesmo, movida pela força do ódio (um tico de exagero, mas só um tico mesmo), lá fui eu para academia, no melhor look quase mendiga, com um desejo (o de ir embora) e uma garrafa de água. Mapeei meus objetivos, mas quase todos estavam ocupados. Pacientemente (mentira) fiquei aguardando, mas se alguém lesse meus pensamentos, sairia de perto, com medo de ser atingido pelos pedaços de celular que eu queria fazer voar.

O que leva uma mulher a se sentar em um dos aparelhos, alheia ao mundo ao seu redor, rindo como sons de vídeos de bobagens, e lá ficar por mais de quinze minutos, sem fazer um único exercício, eu não sei, mas sei o que é capaz de levar outra (eu) a quase cometer um crime. Seria uma nova forma de exercício, talvez? Se fosse malhar por osmose, já queria a fórmula, mas acredito que fosse apenas a velha falta de educação e respeito pelo próximo.

Desisti, convicta de manter minha primariedade penal e fui para outro setor. Talvez fosse o destino, mandando-me malhar os braços, até para estar mais preparada para conflitos futuros. Enquanto os monitores passavam entre os alunos, em passos de misses, sorrindo e acenando, dois rapazes faziam selfies, testando os ângulos, (in)devidamente ocupando aparelhos que estavam no meu radar. Esperei o quanto meu humor permitiu. Antes de me tornar a chata da academia que iria registrar uma reclamação, dei o treino por encerrado, bebi minha água e, toalha na mochila, voltei para casa, caminhando e lamentando não ter conhecimento tecnológico capaz de criar um aplicativo que desse choque em quem fica ensebando a vida alheia ou que transformasse mau-humor em músculos.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e já nasceu impaciente – /www.escriturices.com.br

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