images/imagens/top_2-1-1024x333.jpg

volta as aulas

Comprar uma caixa nova de lápis de cor, um estojo e uma mochila ou uma lancheira sempre eram a parte preferida das minhas voltas às aulas. Na infância as férias eram um tempo quase infinito, no qual os ponteiros do relógio pareciam fazer um trato com o calendário e todos diminuíam o passo. Quando aquele hiato para as brincadeiras, passeios e sessões de televisão com pipoca acabava, era hora de comprar os novos materiais, de preparar para mais uma jornada de estudos, de novos desafios e de estar com os colegas de classe.

Durante a faculdade, olhando agora, da distância que se agrava a cada ano, as férias também eram longas e representavam tempo com amigos de infância, voltar a dormir no quarto com minhas irmãs, fazer viagens curtas com o namorado. Voltar às aulas era retomar o caminho para a vida de adulto, construindo o projeto de se podia sonhar de futuro. Comprar os livros, todos físicos, em várias parcelas, organizando-os ao lado das canetas e marca-textos, ajustando o cenário no qual mais um semestre de estudo de leis, doutrina e jurisprudência.

Mal deixei de ser aluna e logo me meti a ser professora. Voltar às aulas ganhou muitos outros significados. Saber para quais turmas eu lecionaria, quais as matérias, horários e até locais, passou a ser a grande preocupação. Preparar ou fazer parte das reuniões iniciais de professores, organizar salas de aula, avaliar orçamentos, currículos e entrevistas de novos docentes, recepcionar os alunos, também fez parte de muitas de minhas voltas às aulas.

Neste meio de tempo, entre sair da faculdade e me tornar professora, foram várias as pós-graduações, um mestrado e um doutorado. Tenho mania de escola, ao que parece. Talvez seja sina, hábito, apego, sei lá. Fazer parte de uma família de bisavó, pais, tios e irmãs professores, de carreira ou não, por certo tem algum peso igualmente. Temos vínculos com o estudo que ultrapassa muitas gerações.

Além disso, acompanho, todos os anos, minhas sobrinhas e sobrinho em suas próprias jornadas escolares. Adoro saber de tudo que queiram me contar e muitas foram as vezes nas quais me vi comprando estojos de lápis de cor e canetas coloridas, após ouvir minhas irmãs reclamarem que não sabiam como era possível que essas coisas desaparecerem a cada semestre, como se as crianças tivessem se alimentado do material escolar.

A volta às aulas impacta o mercado, o trânsito e outros tantos setores que se ligam, direta ou indiretamente aos períodos escolares de todos os níveis de ensino Mesmo para quem não é estudante ou professor, a volta às aulas é um marco. Para os pais, é um misto de alívio com pavor. Os filhos voltam para a escola, seguem suas rotinas, mas os gastos com material escolar, uniforme, transporte e lanches dão as mãos para gastos como IPTU, IPVA e outros tantos que assolam o início do ano dos assalariados, sobretudo da classe média, sem bolsa família ou outros auxílios governamentais.

Várias décadas depois de meu primeiro dia de aula, estou eu também, uma vez mais, retornando às aulas. Não há mais cadernos encapados com meu nome em uma etiqueta, nem mesmo minha mãe me leva até o portão da escola, sendo obrigada a esperar que algum colega chegasse antes dela mesma poder seguir para ensinar os filhos dos outros. Agora eu ligo para contar a ela sobre minhas novas turmas, o que espero seguir fazendo por muitos e muitos anos.

Não deixo, porém, de imaginar, a cada aula inaugural, como serão os alunos e se serei capaz de contribuir, de algum modo positivo, a formação dos futuros profissionais do direito. O aprendizado, de muitas formas, é sempre meu. No espelho da minha alma, continuo vestindo uniforme, com minha lancheira pendurada no pescoço, com o coração a mil, certa de que a escola sempre fará parte de tudo que sou.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e aluna por vocação – /www.escriturices.com.br

Share on Social Media