
Minha tia era uma figura. Tinha um sorriso largo e uma gargalhada que parecia ter esquecido como terminar. Costumávamos dizer que qualquer hora ela iria sufocar de tanto rir e isso a fazia rir ainda mais. Enganava-se, porém, quem acreditava que ela era dócil, pois estava mais para uma onça pintada. Não levava desaforo para casa. “É só não pisar no meu pé” – dizia ela” que, nesse sentido, mais parecia uma centopeia.
Era o xodó do meu avô e o braço direito da minha avó. Morou com eles até que se fossem embora deste mundo. Única filha entre três homens, era um pouco mais nova do que meu pai, mas gostava de mandar em todo mundo. Talvez seja por isso que dispensou, um a um, os candidatos a marido que apareceram na juventude, encantados com seus olhos cor de mel e suas fartas curvas. Ouvi dizer que um deles, apaixonado, até conseguiu emprego na padaria dos meus avós, para ficar por perto, mas ela o botou para correr. A lenda familiar era de que se apaixonara pelo primeiro namoradinho que a trocara pela filha de um rico comerciante local e que, depois disso, se desiludira. Ela, porém, negava essa história, rindo e quase se engasgando como sempre.
Como acontecia com tantas mulheres à época, estudou para ser professora, embora acalentasse o sonho de ser astronauta. Estava sempre olhando para as estrelas, como se parte dela já até morasse por lá. Deu aula de ciências durante vinte e cinco anos e, de olhos fechados, descrevia as constelações, sempre as desenhando em qualquer pedaço de papel que tivesse às mãos. Para nós, era a tia que vivia no mundo da lua. Quando se aposentou, firmou um dos pés no chão e seguiu ao lado dos pais. O outro, no entanto, cada vez mais se esticava para o satélite da Terra.
Assim como minha avó o fazia, minha tia apreciava a companhia de um copo de cerveja bem gelada durante as refeições. Dizia que era para se hidratar, para ser possível viver naquela cidade tão quente quanto o forno onde meu avô assava os pães que vendia na padaria. Lamentavelmente, tia Cema, às vezes tia Ira, conforme o humor que desfilava, não tinha o menor dom culinário. Embora tenha tentado aprender o ofício do pai, desistiu assim que os pães em formatos pouco convencionais e atrativos vieram ao mundo. Com um afago na cabeça, meu avô a consolou, dizendo que as estrelas precisavam mais dela do que a massa do pão. Quando ele morreu, porém, ela me acompanhou na empreitada de fazermos alguns pães, cujo sabor superava a aparência imperfeita.
Com os sobrinhos, se fazia de brava, mas não perdia oportunidades de dar abraços apertados e intermináveis. Eu fingia querer sair dali, mas adorava sentir o cheiro de lavanda que exalava de seu colo. Até hoje é um dos meus aromas favoritos, capaz de me transportar no tempo. Baixinha, era uma gigante, em cujas mãos havia amor, segurança e pó de estrelas.
Minha tia Iracema não está mais entre nós. Morreu antes mesmo de completar dois anos de idade, mas eu gosto de imaginar como ela teria sido, porque, de um jeito estranho, eu sempre pensei nela, em como minha avó contava que a morte dela os fez sofrer, naquele tempo em que os bebês morriam sem muita explicação.
De alguma forma, ela mora mesmo nas estrelas, ao lado dos meus avós e de tantos outros que já partiram. Nas memórias da minha imaginação, quem sabe um dia ela me ensine a desenhar constelações, de olhos fechados...
