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dia dos pais

Entre uma garfada e outra, o pai olhava para o filho. Estavam somente os dois, sentados à mesa do restaurante, frente a frente. O filho comia sozinho, mas sob o olhar atento do pai. Ao redor do prato havia um pouco de comida espalhada, que escapava das garfadas meio descoordenadas. Vez outra, com um guardanapo, o pai limpava a boca do filho, que comia com vontade, meio alheio à bagunça que o cercava.

De onde eu estava, igualmente almoçando, em um dos raros encontros com toda a família - pais, companheiro, irmãs, cunhados e sobrinhos – eu tentava acompanhar nossas conversas que, difusas, pareciam sem sentido em meio às risadas, a frases escutadas pela metade e broncas que era distribuídas aleatoriamente. Daquele jeito das famílias que ainda têm a alegria de estarem inteiras, estávamos felizes, mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de observar a mesa à nossa frente.

Chegamos ao restaurante quando eles já estavam lá e nos levantamos enquanto eles ainda permaneciam. O filho comia devagar, mas o pai também era lento em seus movimentos. Com um olhar cansado, o corpo já se curvando pelo tempo, o pai passava uma das mãos pelo cabelo branco, enquanto respirava fundo. Não havia uma mãe por perto e eu supus que, talvez, estivesse doente ou até já fosse falecida. Pela dinâmica entre os dois, porém, imaginei que aquele homem vinha, sozinho, há tempos cuidando do filho, uma criança de alma em um corpo maduro.

Sempre que vejo cenas assim, fico emocionada. Enquanto alguns devotam aos descendentes somente o desamor, a violência, a crueldade, outros dedicam amor incondicional. Todo filho é eterno, mas alguns são mais. Aquele filho seguia alheio ao que o cercava, ao contrário do pai. O amor e o cuidado, porém, não se faziam alheios a quem quer que observasse a cena. Ninguém que habita este mundo vive para sempre, mas naquele instante, pedi a Deus que permitisse àquele pai viver o suficiente para cuidar do filho.

Saímos de lá saciados da fome, repletos da alegria de mais um encontro. Dentro de mim, porém, a cena permaneceu ecoando. Neste momento em que escrevo, se aproxima mais um Dia dos Pais e é para os pais de verdade que dedico este texto. A paternidade está muito além de um fator meramente biológico. Ser pai em muito difere de estar pai. Pai poderia ser a sigla de Para Amar Incondicionalmente, seja o seu filho quem ele for. Ser pai também é repreender, é entender que a mão que afaga também educa; é dosar o elogio e a repreensão; é saber que ninguém é perfeito; é limpar a boca de um filho de cinco ou de cinquenta anos.

Como ontem me falou uma amiga querida (Di Bonetti): no Dia dos Pais, que alegria ter um pai para chamar de seu. Tenho ainda esse privilégio. Meu Luizinho, prestes a completar 83 anos neste mês de agosto, foi e é um exemplo de ser humano, perfeito em todas as suas imperfeições humanas. Meu primeiro leitor, meu mentor, meu porto seguro, tenho certeza, seguraria meu garfo se preciso fosse. A ele e a todos os pais de verdade, vivos e/ou em memória, todo meu respeito e minha gratidão por fazerem do mundo um lugar melhor. Feliz Dia dos Pais.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e tem um pai para chamar de seu – /www.escriturices.com.br

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