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doce surpresa

Naquele fim de tarde, olhei com mais atenção para o que, à primeira vista, tinha considerado ser mato. A plantinha, com pouco mais de trinta centímetros de altura, havia nascido e crescido espontaneamente em um vaso onde uma orquídea estava. As folhas, verdinhas, lembravam corações alongados. Acho até que, em outros momentos, eu arrancara outras idênticas. Desta vez, porém, notei que havia pequenas estruturas penduradas nos poucos galhos, parecidas com campainhas japonesas, como se fossem mini balões, igualmente verde claros.

Achei muito fofos e resolvi deixar a planta em paz, como aliás, tenho feito há algum tempo. Aprendi que denominamos de mato, em geral, plantas que não conhecemos, desprezando a existência de flores delicadas, aromáticas, bem como de plantas medicinais. Então, de forma geral, deixo que tudo cresça onde nasce. Aquela plantinha e seus balõezinhos, entretanto, deixaram-me curiosa.

No dia seguinte, com uma luz melhor, fui examiná-la mais de perto, notando que tanto as folhas como as lanterninhas, pareciam cobertas de uma espécie de veludo minúsculo e delicado. Nada na minha memória foi capaz de identificá-la, mas tive a ideia de procurar ajuda na internet. Fiz algumas fotos e as inseri em um programa de identificação de plantas e, segundos depois, tive uma grande surpresa.

Admito que fiquei bem desconfiada e segui investigando, mas todas as fontes indicaram que se tratava de um pé de Physalis ou Fisális e que aquelas campainhas, em verdade, eram as frutinhas, que, até amadurecerem, permanecem protegidas, escondidas nos balõezinhos. Para quem não conhece, é uma frutinha que há algumas décadas começou a ser utilizada no Brasil na confeitaria, servindo como adorno comestível em docinhos de festa.

A pergunta era: como foi nascer ali, em um vaso no meu quintal, no meio da cidade de São Paulo? Segundo informações disponíveis na internet, as sementes, minúsculas e comestíveis, assemelham-se às do tomate ou do kiwi e são dissipadas pelo vento e pelos pássaros. Alguém, então, em algum lugar por aqui, deve ter plantado um pé ou algum passarinho abocanhou uma sobremesa e veio se aliviar no meu quintal. O fato é que mesmo sem qualquer cuidado especial, além de água e sol, a produção foi incrível.

Até que eu colhi a primeira campainha, ainda duvidava de que a frutinha estivesse lá dentro, amarela e doce como as que eu já havia experimentado. Esperei que a parte externa estivesse bem seca e começasse a se abrir, quando vislumbrei, sem dúvida, uma physalis. Não resisti e a comi em duas mordidas. Deliciosa e perfumada, colhida no meu quintal.

Depois que comi, porém, ocorreu-me que poderia ser uma falsa physalis. Talvez tivesse uma espécie venenosa e eu a comera, sem pensar na hipótese. Fiquei atenta a qualquer sinal estranho, mas como nada aconteceu, deixei para pesquisar se existia alguma planta venenosa parecida, no dia seguinte. O peixe e as pessoas impulsivas do signo de peixes podem morrer pela boca.

Por sorte, embora haja realmente uma planta com frutos muito parecidos e venenosos, não se trata do meu exemplar, com folhas, flores e balõezinhos diferentes. Agora, sem ter morrido, já colhi quase todos, ansiosa por degustá-los, à exceção de um que irei separar para, agora, dolosamente, haver novas plantas iguais nos meus vasos. Fiquei pensando em quantas vezes não arranquei outras plantas, outras pessoas, outros sonhos, antes que pudessem me surpreender, antes que os frutos viessem e quantas vezes, no afã de um impulso, estive perto de envenenar meu corpo e minha alma...

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e acredita em sementes de esperança – /www.escriturices.com.br

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