
O barulho das sirenes indica que algo requer a atenção da polícia e dos bombeiros. Os carros oficiais passam acelerados, com suas luzes de urgência. No início, eu me assustava, mas passados dezenove anos desde que me mudei para São Paulo, pareço ter incorporado esse som à rotina dos dias desta cidade imensa. Raramente sabemos qual o destino das viaturas, tantas e diversas são as ocorrências, embora, em silêncio, sempre deseje que sejam para salvar vidas.
Moro em um bairro razoavelmente tranquilo e bem arborizado, em uma rua de um único quarteirão que, estreita, não é eleita pelos apressados e pelos veículos de grande porte. Na imensa maioria do tempo, apesar dos aviões que parecem passar perto demais, é possível ouvir o cantar dos muitos pássaros que vivem na região e para os quais, todas as manhãs, coloco frutas na varanda. O canto do laranjeira faz uma inusitada e acalentadora trama entre os barulhos da metrópole, criando uma trilha sonora única.
Em uma madrugada recente, o sabiá-laranjeira, velho morador das árvores de nossa rua, estava especialmente inspirado. Cantou tanto e tão lindamente, que era impossível não pensar que estava apaixonado, recitando poemas de amor para sua amada, alheio ao mundo que o cerca. Dormimos embalados por uma rima que entendíamos sem explicação, capaz de reverberar acima dos murmúrios e lamentos de uma cidade que nunca descansa.
Ainda que haja bastante verde por aqui, a luta é constante. Para cada pessoa que planta, há outras tantas que arrancam, que se incomodam com folhas e raízes como se a vida fosse naturalmente advinda do concreto. Entristecida, notei que ao substituírem, aqui ao lado, faixas verdes de todo um quarteirão, não se incomodaram em preservar um pé de café que já produzia pequenos e vermelhos grãos. Infelizmente não cheguei a tempo de resgatá-lo, e seu destino acabou sendo o lixo.
Ali bem perto, em um fino canteiro central de outra rua, um homem, sozinho, vem plantando, há anos, diversas frutíferas, cujo crescimento acompanho, entre as caminhadas com minhas cachorras, admirando o maracujazeiro que escala uma grande árvore e que já se enfeita de botões. Somente quem jamais viu as flores do maracujá é capaz de ignorar o espetáculo que se anuncia. Do outro lado daquele mesmo quarteirão, após lotarem de cimento o que sobrou do tronco de uma árvore cortada sem justificativa, uma pequenina planta, hercúlea, achou um cantinho entre o concreto e o tronco morto, tal qual uma minúscula bandeira pela vida.
Da minha pequena sacada, enquanto recolhia as cascas das frutas devoradas, parei alguns instantes para notar que meu velho ipê, com seus quase setenta anos de existência, neste ano produziu ainda menos flores. Creio que pouco mais de uma dúzia delas, em amarelo ouro, as quais admiro como se fossem centenas. Foi quando notei uma abelha fofa, preta, gordinha, cuja espécie não sei precisar, que entrava em uma delas, sumindo por alguns instantes até sair de ré, surgir carregada de pólen, esse pó de pirlimpimpim, que carrega beleza, nutrição e vida, mágico como só a natureza consegue ser.
Entre sirenes, aviões, abelhas e sabiás, é preciso desacelerar, encontrar o meio-termo no qual a vida se faz possível, assim como é imperativo fazer o que nos é viável, ainda que seja cantar sozinho de madrugada ou produzir uma dúzia de flores. No fim das contas, a gente nunca sabe ao certo quem nos ouve, nos assiste, nos espera ou nos lê.
Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e sabe que a vida é feita de contrastes – /www.escriturices.com.br
