
Eu evitei o quanto pude. Apaguei inícios de vários textos, mas ficou impossível não escrever sobre o que está acontecendo em nosso país. Não se preocupe o leitor, porque não vou aqui defender direita ou esquerda. Não sou cabo eleitoral de ninguém, ainda que tenha as minhas convicções e até meus alvos de rejeição.
Venho aqui trazer apenas algumas reflexões sobre a crise institucional que estamos vivendo. Isso sem dizer que, se está complicado para quem é da área jurídica entender alguma coisa, posso imaginar a dificuldade dos outros. Decisões de ministros que um dia atribuem responsabilidades e no outro retiram. É autoridade afastada e reconduzida em menos de um dia. É o velho “pega para capar”, um tiroteio de palavras acusatórias que atingem todo mundo, menos os alvos.
O brasileiro tem assistido, atônito, a um reality show no qual a prova do líder está relacionada com o destino da nação. Nem dá mais para saber quem é quem e nem quem não está envolvido, de alguma form,a com dinheiro escuso. Enquanto a compra do supermercado só fica mais cara e a gente vai fazendo revezamento de recursos, escolhendo os gastos prioritários, os grandes de Brasília usam números com tantas casas decimais que eu só fico pensando se o Vorcaro, na verdade, não tinha era uma impressora de dinheiro com carga infinita.
De uma hora para outra, os acusadores viraram acusados, os investigados querendo ser acusadores e os julgadores pedindo vista ou querendo fazer sessões longe das vistas alheias. E o povo, já escaldado, só imaginando onde a pizza vai ser servida. Difícil acreditar em mudanças estruturais e de base, porque neste país faz muito tempo que o rabo é que abana o cachorro e que uma caneta, nas mãos dos poderosos, transforma verdade em mentira, mentira em boato e faz mais estragos do que mil canhões.
Dizem que “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, mas eu tenho a sensação de que aqui, em terras tupiniquins, onde nunca deixam de nos espoliar o bolso e a liberdade, quem tem um olho corre risco de enxergar demais. Melhor, por precaução, fingir-se de cego, como cega cada vez mais é a Justiça? Sinceramente não sei. Dentro de mim ainda subsiste, do tamanho de um grão de mostarda, a tal da esperança de que, no meio dos maiores lodaçais, também podem surgir belas flores.
Metáforas à parte, tudo o que se espera é transparência, prestação de contas à sociedade. Caso contrário, se for para admirarmos o Olimpo, que ao menos, lá esteja Zeus no comando.
