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Depois que minha vida deu uma reviravolta há alguns meses, deixei de ser uma pessoa com mil compromissos de trabalho para me tornar outra com uma agenda bem mais flexível. Quem me conhece sabe que gosto de sair da minha zona de conforto e de experimentar coisas novas. Assim, com tempo e curiosidade, aventurei-me em mais um curso, agora de Ilustração de Livro infantil.

Pra começo de conversar eu descobri logo na primeira aula que eu não sabia de verdade sobre o que era o curso! Aprendi que livro ilustrado não é a mesma coisa que livro com ilustrações. Eu tinha vivido na escuridão da ignorância até aquele momento e saber a diferença foi uma revelação que mudou toda a forma como eu vejo livros infantis. Em resumo, de forma muito simples, posso dizer que um livro com ilustração é aquele em que no meio do texto há desenhos, ilustrações isoladas, enquanto um livro ilustrado é aquele no qual o ilustrador é tão autor quanto o escritor, pois os desenhos também contam, em seu ritmo, a estória.

Já nos primeiros minutos de aula a professora Vanessa, ilustradora de livros infantis, perguntou aos então cinco alunos sobre os seus desenhos, se tinham levado um portifólio para que ela conhecesse o traço de cada um. Fiquei em pânico! Eu tinha pinturas isoladas, coisas que fiz em aquarela, giz pastel, mas nada autoral. Ver os colegas sacando seus cadernos e pastas repletos de desenhos lindos, divertidos e criativos fez com que eu tivesse certeza de que era uma estranha no ninho. Eu estava nadando com tubarões!

Desistir, contudo, não era uma opção. Decidi que é preciso saber do que sou capaz, ainda que eventualmente minhas ilustrações não passem muito de versões de bonecos palito. Na primeira tarefa, confesso, quase entreguei os pontos, pois tive que quebrar muito a cabeça para produzir algo feito com recortes de papel cinza, de formas geométricas, que representassem, apenas no abstrato, palavras como agitado e estático.

Em todas as aulas a professora pedia que guardássemos os pedaços de papel que sobrassem, por menores que pudessem ser. Ela dizia que valiam ouro. Eu achava um pouco de exagero ficar guardando aparas de papel colorido que também poderia ser chamado de lixo, mas depois de algumas aulas eu pude compreender que aquilo realmente era precioso.

Quando pudemos pegar aqueles papéis todos e, em uma colagem livre, irmos formando personagens, mesclados com traços de desenho, percebi que tudo pode ganhar vida, mesmo um simples pedacinho de papel colorido. Foi como se uma porta de abrisse para mim, encontrando um lugar secreto ao qual eu não tinha acesso. Aos poucos fui ilustrando minha alma com cores e formas que eu desconhecia existirem dentro de mim...

Ainda continuo não pertencendo aquele mundo e os desenhos de meus colegas de classe em muito superam qualquer coisa que faço, mas estar ali, em meio a pessoas jovens, criativas e talentosas faz com que eu queira ser capaz também. Não sei para onde estou caminhando, mas sigo desenhando os degraus. De toda forma, sempre poderei requisitar um exército de bonecos palito para irem em minha defesa no meio da assustadora folha de papel branco...
Cinthya Nunes é jornalista, advogada e professora universitária. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.