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Houve um tempo em que eu gostava de brincar o Carnaval. Algo entre minha adolescência e juventude. Esperava ansiosa pelos dias nos quais passaria dançando nos clubes ao som de marchinhas e sambas clássicos. Depois de cinco dias de olhares furtivos, de alguns beijos roubados, de risadas e confissão de amores juvenis, restava a certeza de que às vezes a vida nos permite a fantasia.

Por outro lado, nunca me encantei com o Carnaval apoteótico, de luxo e luxúria, das passarelas das pequenas ou imensas sapucaís. Não aceitei Momo como meu sumo imperador e sequer assisto aos desfiles pela televisão. Não venho aqui, no entanto, fazer uma crítica aos que curtem a festa. Embora eu discorde de várias atitudes tomadas nesses dias e em função deles, acredito que a cada um apetece o que lhe é bom ou conveniente.

Da mesma forma como aconteceu com muitas outras datas festivas, o Carnaval virou, há muito tempo, um grande negócio. E até aí tudo bem, porque negócios fazem a economia girar e as pessoas precisam trabalhar para pagar suas contas. Então sem problemas as pessoas faturarem costurando fantasias, vendendo alegorias, bem como o turismo de um modo geral se beneficiar, só não gosto mais é de ver a quantidade de penas de pássaros que são utilizadas em roupas, com o sofrimento de milhares de aves, por exemplo. Na minha infância, eu desconhecia isso e a ignorância é quase sempre uma dádiva ou um bálsamo.

A falta de educação das pessoas que descartam todo tipo de lixo pelas ruas, seja nas concentrações dos desfiles, seja pelas ruas mesmo, é algo inimaginável. Só que seria hipocrisia afirmar que isso só acontece no Carnaval. Antes fosse. Difícil admitir que a idade vai me transformando, pouco a pouco, em alguém cujo olhar não se limita a mirar o belo, o lúdico, pois é com pesar imenso que constato o estado das vias públicas, bem como das praias e parques após grandes festas populares.

Fato que nunca gostei de aglomerações, pois sou um pouco claustrofóbica. Assim, óbvio que tenho passado pela vida evitando ambientes lotados, ainda mais em época de coronavírus, mas acho muito bacana esse retorno às ruas dos bloquinhos de carnaval nos bairros, muitos dos quais repletos de crianças, boa música e alegria. Nessas horas eu me pego cantarolando os sambas que marcaram minha vida e até ensaio uns passos desajeitados.

Atualmente, gosto do Carnaval mais pelo feriado, pela oportunidade de poder utilizar alguns dias livres para fazer o que me apraz, seja viajar, assistir séries, ler um bom livro ou mesmo me reunir com amigos. Quando jovenzinha, eu teria horror de me ouvir dizer isso, mas, como se diz, o tempo passa e quando nos damos conta estamos vestindo as roupas dos nossos pais, literal e figurativamente.

Inconteste é que, carnavalescos ou não, estamos todos esperando que agora o Brasil comece a funcionar de verdade. Finda a brincadeira, jovens ou nem tanto, porque “a tristeza nem pode pensar em chegar”, é hora de colocarmos mãos à obra. Feliz Ano Novo a todos os brasileiros e que não tenhamos o desejo de estarmos noutros carnavais.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e já sambou para toda sua existência – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.