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Há cerca de uns quinze dias foi oficialmente aberta a temporada de extermínio de avós. Na verdade, a coisa é um pouco mais ampla, mas os avôs e avós são os mais vitimados. Antes que o leitor pense se tratar de algum vírus específico que afete idosos eu devo advertir que não. Definitivamente, trata-se de outro fenômeno...

Exerço o magistério jurídico superior desde 1999, e embora a revelação desse fato possa permitir que se façam cálculos etários, nem daria para mentir, sobretudo tendo “infinitos” ex-alunos como testemunhas oculares do que espero, não tenha sido um crime (rs...). A relevância dessa data é no sentido de ilustrar o quanto de tempo tenho vivido a temporada de pobres velhinhos falecidos inexplicavelmente.

Explico-me: tão logo se aproxima o período de fechamento de semestre e de provas, os alunos começam a buscar uma justificativa que possa ser comovente o suficiente e que possa ser usada várias vezes, para a não entrega de trabalhos no prazo e para ausências que podem levar à reprovação.

E adivinhem quem “dança”? Os coitados dos avós. Há várias vantagens em matá-los fictamente. A primeira é que no mínimo é possível ter dois de cada um. O segundo é que se a pessoa se esquecer e for surpreendida ao lado da avó ou do avô, sempre pode dizer que foi outro o que morreu (por óbvio, mas tudo bem!).

Tenho recebido, em todos esses anos, uma longa fila de netos “órfãos”. Com lágrimas de crocodilo, recebo a notícia e faço a minha parte, ou seja, mostro uma cara de comoção, mesmo quase certa de que tudo é um teatro. Daí para ser dizer que a perda da avó ou do avô causou depressão, síndrome do pânico e outras, é um mero passo.

Já recebi, há alguns anos, uma aluna que dizia estar em profunda depressão desde a morte da avó, que com ela residia. Por isso, assim, havia faltado muitas vezes e precisava que eu abonasse dela as faltas, sob pena de que a viesse a perder o ano. Pedi a ela que me passasse o número do RA, a fim de inserir no sistema e verificar a situação acadêmica dela. Como ela tinha se esquecido do número, pegou o celular e ligou para casa dela. Eis o diálogo que escutei:
_ Oi vó! Pega minha carteirinha aí, por favor.

Diante da conversa, eu a inquiri, meio rindo internamente:
_ Ué? Sua avó não morreu?
E ela, vermelha:
_Ah, foi... Mas essa é outra vó...

O detalhe de que ela se esquecera foi de que, no início da conversa, a razão alegada para a tristeza profunda era de que a avó que morrera era a única que restara...
Pedi à aluna que me trouxesse, em três dias, o atestado de óbito, apenas para documentarmos o pedido. Até hoje estou aguardando...

Cinthya Nunes