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Acreditei no Papai Noel até uns 8 anos de idade. Um belo dia resolvi perguntar se o bom velhinho existia mesmo. Diante da minha insistência meu pai acabou me contando, com a condição de que eu não revelasse o fato as minhas irmãs mais novas. No minuto seguinte à resposta dada eu me arrependi de ter perguntado. O mundo não era mais o mesmo. Tive muita vontade de dar com a língua nos dentes, mas cumpri o combinado.

Não tenho filhos, mas percebi que meus sobrinhos não se deixaram enganar muito tempo com essa estória de trenó voador. Em tempos de tecnologia, qualquer criança de pouca idade consegue dar um Google em “Papai Noel existe?” Enfim, complicado manter certos segredos nos dias de hoje. De toda forma não penso que há grandes prejuízos psicológicos em se acreditar no fantástico, no imaginário. Nem vou entrar no mérito da questão da cultura do consumo e adjacências, até porque é muito possível acreditar no Papai Noel e ainda assim ter presentes conscientes, porque tudo, no fim das contas, é uma questão de bom senso.

Já estou naquela fase da vida em que por óbvio fica complicado acreditar em renas voadoras e duendes fabricantes de brinquedo sem que isso implique em usar uma camisa de força, mas ainda me resta alguma fé sobre as pessoas e suas boas intenções e foi assim que, nessa semana eu brinquei de ser aprendiz do bom velhinho, tudo começando quando achei uma cartinha em minha caixa de correio.

Em um envelope feito de uma folha de caderno, era endereçada ao Papai Noel, tendo como remetente um menino morador de uma favela da cidade de São Paulo. Ao menos é o que o endereço me indicou após uma consulta ao Google Maps. Dentro havia uma pequena cartinha, pedindo um sapato de presente. Inicialmente fiquei confusa, pois ao que eu saiba, essas cartinhas devem ser retiradas diretamente nos Correios, coisa que eu vinha me propondo a fazer há alguns anos, mas nunca fiz.

Sondei pela vizinhança e me parece que foi mesmo o carteiro quem deixou, tendo feito o mesmo em outra casa, embora ninguém tivesse certeza. Resolvi, a despeito de qualquer coisa, atender ao desejo do garoto, o João Victor. O problema é que não veio o número do sapato, mas saí fazendo algumas pesquisas sobre o tamanho que em média um menino de 9 anos usaria. Escolhi um modelo do qual gostei e embalei em papel de presente, mas não queria enviar algo impessoal, então escrevi eu também uma cartinha para ele.

Fui postar a caixa e me informaram que como eu não tinha retirado na agência, teria que pagar a postagem e não consegui deixar de pensar que o carteiro me sacaneou, eis que o preço da postagem quase daria mais um presente, mas mantive o espírito natalino e fiquei no desejo de que o presente e a carta cheguem ao seu destino.

Não faço ideia do resultado disso, pois não me iludo muito a respeito. Também, sem qualquer falsa modéstia, não foi nada demais perto do que muitos fazem pelo próximo, mas gosto de pensar que talvez uma criança possa ter alguma semente de esperança, algo a ser colhido no futuro dela. Fácil perceber, por outro lado, como tive uma infância feliz, sem que fosse preciso desejar encontrar um simples sapato embaixo da árvore de Natal. Bem que o Papai Noel poderia mesmo existir...

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e se ressente de não ter o telefone de um certo local no Polo Norte – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.