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Entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904, na cidade do Rio de Janeiro, então capital brasileira, ocorreu a histórica manifestação popular conhecida como a Revolta da Vacina. As pessoas, indignadas com a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, foi às ruas, recusando-se a tomar uma vacina que era feita de um líquido extraído de pústulas em vacas. Corria o boato que quem fosse vacinado ficava com aparência bovina. Em 1908, no entanto, quando a epidemia de varíola se agravou em demasia, o povo, em um movimento contrário, correu para ser vacinado.

Embora tivesse aprendido sobre isso na época da escola, há muito tempo, jamais poderia imaginar vivenciar uma situação parecida. Tudo me parecia surreal, uma realidade distante, algo fruto da ignorância das pessoas daquele início de século XX. Ninguém que eu conhecia havia nascido ou presenciado os fatos e meu pouco conhecimento do assunto vinha dos livros de História.

Fato é que movimentos antivacina sempre existiram. Pouco conheço da realidade de outros países, mas no Brasil há grupos que se opõem a todo tipo de vacina, pelos mais variados motivos, alguns com certo fundamento científico e outros totalmente sem razão alguma, desvairados e irresponsáveis.

Particularmente sou a favor da vacinação de uma forma geral. Todos os anos sou vacinada contra a gripe e sigo também o calendário de outras vacinas, já que a acredito que assim estou zelando pela minha saúde. Desde o início da pandemia, inclusive, venho sonhando com uma cura, remédio ou vacina. Por óbvio que me preocupo com a segurança e eficácia da vacina contra o coronavírus, muito embora me faltem conhecimentos específicos para fazer qualquer análise pessoal quanto a isso.

Desde que comecei a escrever crônicas, há mais de vinte anos, venho mantendo o compromisso de me manifestar com a verdade sobre meus sentimentos e posições, sempre na preocupação de respeitar os limites éticos e legais. Assim, não posso agora omitir que me sinto ainda desconfortável com a vacina chinesa. Nada contra os chineses, individualmente falando, tampouco por vieses políticos. Apenas porque certas coisas me parecem estranhas, mas, como ressaltei, não tenho aptidão técnica para críticas fundamentadas.

Por outro lado, em momento algum incentivei, pessoalmente, nas redes sociais ou nos meus textos, que as pessoas não se vacinassem. Tenho minhas reservas e, se puder, tomarei outra vacina que não a chinesa, mas, caso seja a única disponível, quando o cronograma de vacinação contemplar a minha faixa etária, estarei com meu braço a postos. Quero muito que a vacina seja eficaz, venha ela de onde vier e que possa nos trazer de volta um pouco do que conhecíamos por normalidades.

Não tenho medo de ficar com cara de boi ou de jacaré. Tenho, isso sim, medo de me restar somente a tristeza pelas pessoas que esse vírus maldito levou. Tenho medo da minha cara de pesar diante da distância dos abraços, dos amigos, da alegria dos encontros. Brigas políticas a parte, em cujo mérito não adentrarei, quero mais é tomar vacina, é poder voltar a fazer planos, aceitar convites para festas ou não temer um simples aperto de mãos.

Um dia, talvez daqui há 100 anos, outras pessoas estudarão sobre esse triste momento da história humana, rindo da nossa ignorância ou da nossa credulidade e só nos resta esperar que tenhamos dado o melhor exemplo, na melhor das intenções. Guardemos nossa revolta para outras causas.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária, vai tomar vacina e agora tem um site com seus textos (www.escriturices.com.br) – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.