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Em tempos de redes sociais há a falsa impressão de que as pessoas estão com suas vidas completamente expostas, sem que haja nada mais a ser mostrado ou conhecido. Acredito, contudo, que seja exatamente o contrário. Nunca se soube tão pouco sobre o outro. Ao menos sobre a realidade dos outros. Nas redes sociais as pessoas encenam uma espécie de teatro e, competindo entre si quanto ao número de seguidores, quanto à foto mais curtida e qual a repercussão das postagens, sobre as auto ficções que criam. E no afã de tanta exposição, escondem-se do mundo real.

O senso comum impera no sentido de que as pessoas somente mostram nas redes sociais aquilo que lhes convém, a superfície polida e reluzente de uma carapaça que usam para proteger o que realmente são. Assim, quem se dispuser a fazer comparações com o que se publica na internet, inevitavelmente irá sofrer, almejando ou invejando uma vida de mentira.

As pessoas publicam, como regra, os melhores recortes de seus momentos, as fotos que exibem o melhor ângulo, o melhor filtro. Ninguém quer ser infeliz publicamente, embora eventualmente seja inevitável. Não sou contra as redes sociais, no entanto. Acredito que podem ser úteis e divertidas. Apenas que não são a melhor fonte para quer saber de fato sobre alguém. Há que se ter em mente que, assim como as vitrines são apenas amostras do estoque de vivências de alguém.

A nossa vida é aquilo que acontece o tempo todo, essencialmente quando não temos câmeras nas mãos. Dentro de cada casa, seja luxuosa ou um simples barraco, existe alguém protagonizando suas próprias histórias, vivenciando seus dramas ou alegrias. Fosse possível espiar dentro das milhões de janelas, incógnita, sei que teria o que escrever até o fim dos meus dias sobre os mais variados e ricos enredos reais.

Gosto de observar e imaginar a vida secreta dos outros sempre que posso, procurando aquilo que não se vê na superfície. Quase sempre como passageira, passo o percurso todo de carro dentro da cidade olhando para as casas e apartamentos alheios. Quando estou a pé faço o mesmo, tomando o cuidado para que ninguém me considere uma bisbilhoteira ou alguém imbuída de más intenções.

Vários aspectos podem dar pistas interessantes. Por exemplo, reparo quando há plantas e o cuidado que os moradores dedicam a elas. Se cuidam com esmero ou se as deixam secar, abandonadas. Observo também as condições dos animais de estimação. Vejo cachorros solitários que latem para todos, de dentro dos portões, como se guardiões também dos segredos alheios. Vasilhas de água suja e potes sem comida infelizmente contam histórias.

Existe ainda uma espécie de trilha sonora da vida das pessoas. Assim, de algumas emana música, de outras vozes raivosas, risadas de crianças, latidos de cachorros, gritos ou silêncios, ora acalentadores, ora de ausências. De um modo ou de outro, as moradias narram o que nas redes sociais não se quer expor, seja por medo, vergonha ou preservação da intimidade.

As relações humanas são muito mais complexas e ricas do que simples fotos ou comentários são capazes de relevar. Casais passeando de mãos dadas revelam muito mais do que fotos sensuais, publicadas com caras e bocas. Em um mundo digital, muita gente se protege sob seus próprios avatares, projetando a vida e a aparência que gostariam de ter, esquecidos de que a vida real é a que temos para viver.

No fim das contas, os melhores enredos de livros e filmes não tratam da vida plastificada, perfeita e falsa da internet, mas sobre a vida secreta dos outros, aquela que acontece quando ninguém está vendo, quando os flashes estão apagados, quando as coisas nem sempre dão certo, imperfeitas como devem ser, dentro de cada janela.

 

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e uma observadora curiosa das milhares de janelas que vê por aí – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.