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Ele conseguira o mais difícil. Foram muitos e muitos dias à espreita, aguardando a oportunidade perfeita. Em muitos momentos ele tivera que ocultar seus verdadeiros instintos, suas reais ambições. As pessoas de fato eram muito ingênuas se não tinham se dado conta de que aquilo era certo, de que era o inevitável a ocorrer.

Por fim o dia havia chegado. Depois de uma longa espera, não apenas ele estava pronto, como a situação era a mais propícia possível. Com certeza ele não poderia ser culpado pelo resultado dos seus atos. Nem seria justo que, no fim das contas, fosse imputado a ele algum propósito menor, algum desejo que ele pudesse ter intenções escusas, quando, na verdade, tudo era muito claro: ele só desejava a liberdade, o livre arbítrio, o poder de se autodeterminar.

Ele se perguntava como era possível que o óbvio assim não fosse para os demais, para aqueles que eram responsáveis pela sua clausura, pela sua privação. Sua essência era selvagem, voraz e intensa. Ao menos era isso que ele pensava sobre si mesmo. Aliás, no fundo, o traço mais importante dele era de que não se importava com o que os outros pensavam.

Naquela manhã tudo parecia ser apenas uma repetição dos seus dias, seus cômodos e cerceados dias. Tomara seu desjejum, inevitavelmente composto por ingredientes frescos, dos quais fazia questão. Não se podia negar que ele era bem tratado por todos, mas não poder fazer o que ele queria, não se livrar daquelas quase invisíveis, mas reais, amarras, era algo que o limitava demais.

Depois de se alimentar e de fazer seus exercícios matinais, obrigatórios por escolha própria, ele voltou ao seu posto de vigília. Não que ele imaginasse que algo daria certo, mas muito mais porque estava acostumado a agir daquela forma. Talvez fosse esperança, talvez fosse tenacidade, ele não sabia ao certo. Quiçá fosse apenas a força do hábito mesmo.

A mulher que vinha todas as semanas e cujo nome ele não se importara em aprender, adentrou o lugar como fazia religiosamente. Assim que ela entrou, fechou a porta atrás de si e ele constatou que novamente teria seus planos de fuga frustrados. Mas foi nesse momento que a sorte dele mudou: alguém começou a gritar do lado de fora e a mulher voltou correndo, abrindo novamente a porta e a esquecendo aberta, sem a tranca.

Por alguns momentos ele não se deu conta do ocorrido. Muitas vezes é difícil se dar conta da sorte, sobretudo quando se está acostumado com a ausência dela. A mulher sempre fora tão cuidadosa ou tão cruel que era estranho que tivesse se descuidado. Quando se há cativos esse pode ser um ato punível severamente pelos supervisores. Definitivamente, essa mulher estaria em apuros quando descobrissem que ele se fora.

Olhando para os lados ele decidiu que era chegada sua chance. Seria naquela hora ou nunca mais. Ele precisaria ser rápido. Eficiente. Invisível. Quase um ninja. Quando dessem conta, ele já estaria longe. Seria livre, enfim. O tempo que levou para se decidir se tornou paradoxal: ele levou um átimo de segundo para se decidir, mas teve a impressão de que toda a sua vida passou diante de seus sempre atentos e grandes olhos.

Lançou-se porta afora, correndo o mais que pode. Assim que se viu livre, tratou de se esconder. Ela poderia voltar antes que ele pudesse estar seguro. Uma vez lá fora, respirou fundo e pode jurar que aquele era o perfume da libertação. Com os pulmões repletos, ele suspirou, quase em êxtase.

Olhou para os lados, procurando pela visão de seus sonhos, mas constatou que não reconhecia nada que havia lá fora. Tudo era barulhento e assustador. Nada era como ele passara a vida imaginando. Ele vivera uma vida de enganos. Fora ludibriado por ele mesmo. Estava irremediavelmente perdido e, confessava, com muito medo. Sentia até os pelos de sua nuca arrepiarem.

Só havia uma única saída! Ele olhou para trás e pode ver que a porta ainda estava aberta. Ele precisava voltar, precisava estar em segurança. Não havia tempo para pensar, para decisões elaboradas. Sorrateiro, aproximou-se o mais rapidamente que pode e, antes que a porta se fechasse atrás dos pés da mulher, ele conseguiu se arremessar para dentro.

Ao menos por enquanto, ele estava seguro. Com certeza não o tinham visto e ele não seria punido. Por hoje haveria comida e garantia de um sono sem sobressaltos. Amanhã seria um novo dia e ele teria tempo de repensar suas estratégias, seus destinos. Para um gato, afinal, ele bem que sabia ser paciente...