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João sempre fora religioso e crente em Deus. Foi um daqueles meninos que todas as mães dos colegas tomavam como exemplo. Bom aluno, educado, gentil, foi um garotinho brincalhão, risonho e cheio de vida. Quando o pai adoeceu e ficou impossibilitado de trabalhar, João assumiu o papel de homem de casa e aos quinze anos passou a cuidar da padaria da família.

Dois anos depois da morte prematura do pai, seu Eulálio, aos 49 anos, João concluiu os estudos do ensino médio, trabalhando de dia e frequentando a escola à noite. Infelizmente o sonho de cursar uma faculdade teria que ficar para outro momento, outro tempo, outra vida talvez. João trabalhava com afinco e em momento algum maldizia a vida ou o destino que lhe privara de concretizar alguns sonhos. O pai, onde quer que estivesse, por certo estaria orgulhoso dele e isso lhe bastava.

Aos vinte e seis anos casou-se com Beatriz, uma antiga colega de escola. Beatriz era daquelas mulheres que tem a beleza emprestada pela juventude, mas que desde cedo se antevê passageira, fugaz. Beatriz era delicada nos gestos e ao falar. Era praticamente impossível olhar para ela sem imaginá-la uma boa mãe para os filhos que viriam. A juras de amor entre ambos eram quase rotina, embora João não soubesse se, no fundo, eram exatamente isso...

Após um ano de casamento os filhos do casal começaram a encher a casa. Dois meninos e duas meninas. Crescidos, todos se tornaram pessoas bem-sucedidas e a vida parecia ir seguindo seu curso normal.

Próximo aos 60 anos João era um homem realizado. Tinha uma vida boa ao lado de Beatriz e, orgulhoso do sucesso dos filhos, já comemorava o nascimento dos primeiros netos. A única dor que tinha era a perda da mãe. Tinha saudade de passar na casa dela todas as tardes, levando pães frescos que eram degustados com café recém coado.

Em uma manhã como qualquer outra, sem que houvesse aviso ou sinal, João sentiu uma pontada no peito, uma dor tão aguda que silenciou o grito que começou a nascer em sua garganta. Em uma fração de segundos João estava morto. O enfarto fulminante que o vitimou encerrou a vida do pai de família aos 59 anos.

Encarado com uma fatalidade, o falecimento de João foi marcado por muitas lágrimas dos filhos, do neto Joãozinho e sobretudo de Beatriz, que ficou inconsolável. Era desolador o sentimento que a invadia, a mais inconsolável de todas as dores que já sentira até então. Beatriz era a personificação da viuvez.

No velório de João estiveram presentes apenas as pessoas da família e amigos mais próximos. João estava vestido como de costume, de forma sóbria e simples. Reunidos em volta do corpo, de mãos unidas, amigos e parentes fizeram uma derradeira oração, uma despedida. E foi aí, nesse momento, que tudo começou. Dentro daquele corpo, daquilo que só deveria ser uma casca, João acordou. Não foi um acordar, entretanto, que se fizesse perceber. Abriu os olhos dentro de si mesmo, mas era incapaz de se mexer, de um único movimento que fosse. Sentiu-se tão amado por alguém naquele ambiente que foi como se o sangue voltasse a correr por suas veias. Ele precisava avisar a todos que não havia morrido!
Primeiro pensou que deveria estar cataléptico e entrou em desespero, mas rapidamente soube-se morto. Algo nele não era mais dele. Não saberia traduzir essa certeza em palavras, mas estava certo disso. Por isso, concluiu, não tinha nem o controle de seus membros. Por certo estava de partida e lhe foram dados esses últimos vislumbres da vida que agora deixaria para trás. Então morrer era assim?

João ficou esperando a morte vir buscá-lo. Alguém deveria fazê-lo, eis que ele não enxergava nenhuma luz para a qual pudesse se dirigir. Mas foi em vão que esperou. João foi enterrado e lá ficou, aguardando o que nem sabia direito o que era. Só que nada aconteceu. Viu seu corpo ser comido pelas larvas e pensou que talvez as pessoas apenas se fossem desse mundo quando seus corpos não existissem mais, mas permaneceu sozinho, entediado e apreensivo. Nem o Céu e nem o Inferno haviam vindo reivindicar sua alma.

Um dia, entretanto, João, que agora era apenas ossos, mas ainda era João, deu-se conta de que conseguia se mover. Depois de muito pensar, concluiu que deveria voltar para casa, para a família que o amava! Com algum esforço, saiu de sua cova e, na calada da noite, retornou ao seu lar. Daria um jeito de não assustar ninguém. Ele ainda seria capaz de conversar, de ser companhia, de dar conselhos, de ser quem sempre fora em essência.
Tão logo se aproximou do portão, encheu-se de alegria quando seu cão de estimação, Xodó, de início hesitante, correu até ele abanando o rabo, deitando-se de barriga para cima para receber um carinho. Procurou Beatriz, que ainda dormia e chamou pelo nome dela. Minutos depois, deixava a casa, desolado.

Beatriz desmaiara de medo e, quando acordara, mesmo ouvindo a voz de João, chamou-o de abominação. Ele não poderia ficar, de jeito nenhum. Não iria torná-los chacota da vizinhança. Ela não tinha culpa se ele não sabia nem morrer direito. Ela amou o João de carne e osso, mas não seria capaz de amar o João esqueleto.

Para onde voltar? O que fazer dessa meia vida? João sentia-se um pária da morte. Deu alguns passos na direção do cemitério quando escutou uma vozinha que o chamava alegre!
_Vovô!! Eu sabia que você ia voltar! Eu rezei para você ficar um pouco mais comigo!

João, que sequer tinha lágrimas, sentiu-se repleto delas. Joãozinho, de pijamas, pedia que o avô viesse até ele, porque queria ouvir mais uma história.
No dia seguinte, ninguém, nem mesmo Beatriz, que contava a todos o pesadelo que tivera, foi capaz de entender o que Joãozinho, cego desde o nascimento, fazia deitado, dormindo na entrada da casa, ao lado do cachorro da família e de um punhado de pó.
Agora já muito longe, João caminhava em direção à luz, inalando um familiar cheiro de café e pão, sabendo que as coisas nem sempre são o que parecem ser, nem mesmo o amor ou a morte...