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estrelas

Serão infinitas as estrelas sobre nós? Quanto de vida haverá no Universo? E quem será que nos espia do lado de lá? Desde criança me faço essas perguntas, encantada com a imensidão que a noite revela aos olhos humanos. Quando pequena, sonhava que um dia seria possível viajar até a Lua ou mesmo visitar planetinhas simpáticos, repletos de seres incríveis, de formas e cores impensáveis.

Certa vez, creio que na passagem do Cometa Halley em 1986, fui com meu pai até um observatório ao ar livre, no qual estava alocado um poderoso telescópio. Recordo-me perfeitamente da emoção que me invadiu quando pude observar a lua e os anéis de saturno. As estrelas, outrora apenas distantes pontos luminosos, também pareciam estar ao alcance das pontas dos pés.

Naquela época, morávamos, minha família e eu, em uma cidadezinha do interior do Estado de São Paulo, chamada Clementina. Nossa casa ficava em uma chácara, no limite entre a zona urbana e a rural. Naquela época, à noite, havia pouca iluminação e era possível contemplar o mapa das estrelas no céu e aos poucos fui decorando o nome e a posição de várias pequenas constelações.

Com minhas irmãs, primos e amigos, costumava deitar no gramado que havia em frente de casa, tudo para poder olhar melhor as estrelas. Conversámos sobre tudo e sobre nada, iludidos que a eternidade nos pertencia. Naqueles dias, já tão distantes, eu procurava estrelas cadentes e, quem sabe, alguma nave alienígena que estivesse tentando passar despercebida.

Muito tempo depois, já adulta, comprei um pequeno telescópio com o qual me enamorei novamente da Lua, mesmo ofuscada pela claridade da metrópole paulistana. Só que nunca mais foi a mesma coisa, porque hoje sei que, a não ser em meus pensamentos, é muito improvável que meus pés venham a pisar solo extraterreno. Do mesmo modo, exceto se já viverem entre nós, escondidos, dificilmente terei contato com algum alienígena.

Comparada aos astros, a vida humana é menor do que a mínima fração de um respirar. Não temos tempo para compreender de fato os mistérios que nos envolvem e muitos de nós sequer se lembram de olhar para cima. Às vezes acho que as pessoas perdem o chão porque também perderam antes o teto.

Em um ano que foi especialmente difícil não perder o chão, eu me surpreendi, nas primeiras horas de 2021, olhando o céu, admirada com as estrelas que não era mais capaz de ver. Naquele instante, enquanto um novo ano nascia, eu observava as luzes de estrelas que já nem existem mais, mas que ainda assim iluminam sonhos alheios, guiam viajantes e intrigam astrônomos, amadores ou profissionais.

Maravilha-me pensar que as estrelas estão o tempo todo sobre nós, mas apenas quando o Sol se esconde e o clarão sutil da Lua o substitui, somos capazes de ver delas aquilo que se deixam mostrar. Tão incrível pensar que vivemos em uma ínfima esfera solta no espaço e que, apesar de tudo isso, ainda haja tanta gente se achando o centro do universo, mesmo diante dos superpoderes de um vírus global.

Não sei mais os nomes ou as posições das constelações, mas continuo apaixonada pelo que é invisível aos olhos e, quando sonho, permito-me viajar pelo Universo, pendurada em alguma estrela cadente. De olhos abertos, concentro-me em prosseguir, em fazer o melhor que puder e quem sabe, um dia, mesmo quando não estiver mais fisicamente por aqui, ainda seja possível me tornar como pó de estrelas.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e por muito tempo quis pegar carona nessa cauda de cometa, ver a via láctea, estrada tão bonita... Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.