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Empresto para esse texto o título da célebre obra de George Orwell, publicado em 1945, mas em nada quero comparar o comportamento dos animais ao dos homens. Entretanto, o mundo vivenciava um momento de muitas perdas à época, com o fim da 2ª Guerra Mundial, à semelhança da batalha que seguimos travando, no presente, com o vírus.

Ocorreu-me que em meio a tudo isso, a par de muitas reflexões, às quais já dediquei outras linhas, há uma que é também muito relevante, sobre o papel dos animais. Inicio relembrando que, mesmo havendo divergências, o provável início do vírus se deu por conta de hábitos alimentares pouco convencionais dos chineses. Nem me refiro aos animais que são ou que eram comidos lá, até porque há uma questão cultural envolvida, mas sim quanto a práticas como comer animais ainda vivos, além de outras práticas cruéis. Então, ao menos para mim, resta uma pergunta: estaríamos todos, em alguma medida, pagando por isso, na ordem de causa e efeito do Universo?

Praticamente no mundo todo há relatos dos animais retomando seus espaços, “invadindo” locais que atualmente se encontram esvaziados dos seres humanos. São vários casos, tanto de animais de grande porte quanto de pequenos roedores e aves circulando pelas ruas, estradas e parques. Aqui mesmo, em São Paulo, pude constatar, na rua de casa, um fato curioso. Há muito tempo não ouvia o barulho de cigarras e creio que, com a diminuição da poluição dos carros, elas tenham ressurgido. E isso tudo em menos de dois meses de afastamento das pessoas. É de se pensar.

Uma outra notícia chamou minha atenção nesses dias de quarentena. Alguns abrigos de animais ficaram sem animais para adoção, eis que muitas pessoas, diante da solidão do isolamento, buscaram a companhia dos animais, abençoadamente não transmissores, de forma direta, desse vírus. Minha irmã caçula, médica, lidando com pacientes doentes, acabou se contaminando.

Felizmente na forma menos grave, mas ficou privada do contato físico com filhos e marido. No entanto, podia abraçar a cachorra da família, encontrando nela um conforto que somente o calor de outro ser vivente é capaz de proporcionar.

No Brasil ainda temos muitos animais em abrigos superlotados, esperando alguém que lhes abra espaço, que os receba em seus corações. Infelizmente ainda vivemos uma situação precária nesse sentido. Além do mais, particularmente eu temo essas adoções motivadas por uma circunstância mais extrema, talvez sem muita reflexão, eis que, não raro, podem terminar em abandonos. Seja como for, no meu caso, os dias de confinamento tem sido bem menos pesados e até divertidos, respeitada a gravidade da coisa, na companhia de cinco gatos e duas cachorras.

De outro lado, nem tudo são flores. Muitos animais restaram abandonados, diante do desespero, do descaso ou da morte de seus tutores. Outros, aprisionados em zoológicos ou congêneres, agonizam à míngua, sem poder procurar por alimento. A ausência da liberdade, a falta de convívio com a família, o aprisionamento emocional e outras privações de sentidos pelas quais estamos passando, espelham o calvário ao qual a humanidade submete muitos animais. Jaulas e gaiolas ganham outra representação e agora vivemos outro lugar de fala. Complicado mantermos as mesmas convicções ou as mesmas indiferenças.

Falta-nos a consciência de que animais somos todos. Alguns somente são melhores do que nós. De todo modo, não sei se o vírus irá nos modificar a ponto de evoluirmos em relação às demais vidas desse mundo, mas resta-nos a esperança, a musa que varre os despojos pós-guerra, coveira das perdas e mãe do futuro.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e acredito que os animais são a melhor forma de vida do planeta, doa a quem doer – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.