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Que o vírus mudou e continuará mudando para sempre a vida da quase totalidade das pessoas, penso eu, é inegável. Somente para ficarmos em alguns aspectos menos sombrios, pensemos no uso das máscaras. Obrigatórias para todos, caseiras, profissionais ou descartáveis, esse nada desejado acessório faz parte agora da rotina daqueles que precisam sair de casa, seja a que pretexto for.

Anteriormente restrita aos profissionais ligados à saúde ou à estética, pouco usada, infelizmente, por muitos que trabalhavam com alimentação, o uso das máscaras se faz imprescindível na busca da contenção dos casos da Covid-19. Como leiga no assunto, procurei me informar e, ao que me consta, usar a máscara, em princípio, não protege diretamente a quem a usa, mas sem aos demais e, se todos usarem, a proteção se faz efetiva.

Particularmente eu me sinto mal usando a máscara, eis que sou ligeiramente claustrofóbica e parece que vou sufocar. Contudo, por um dever até cívico, não me furto da companhia dela. No início da pandemia ganhei várias descartáveis de alguns amigos, já que naquele momento elas sumiram das prateleiras, chegando a faltar para quem mais precisava, como médicos e enfermeiros, por exemplo.

Algum tempo depois, formou-se o consenso (ou quase) de que o uso de máscaras caseiras, feitas de tecido, também era eficiente. Desencavei minha já esquecida máquina de costura e posse de tutoriais de internet e da orientação de uma amiga, confeccionei várias, destinadas a vizinhos e ao nosso uso em casa. Nesse meio tempo muita gente também viu nisso um negócio e tratou de fazê-las comercialmente. A preço justo, tornaram-se fonte de renda para muita gente que se viu em situação financeira difícil.

Por outro lado, lamentavelmente, também vi nos noticiários que algumas grandes marcas de grife lançaram máscaras customizadas a preços obscenos. Pura e ridícula ostentação em um momento mundial tão triste. Uma das empresas, ainda, justificou que o valor seria doado para caridade. A lorota não colou e, talvez com vergonha ou medo da repercussão, tiraram a dita máscara do mercado. Literalmente, a máscara caiu.

Máscaras bem engraçadas também apareceram por aí, além de outras bem bonitas. Não vejo pecado algum nisso, a propósito. Não se está zombando, com isso, da situação, mas, apesar dela, buscando-se alguma alegria. Eu mesma usaria sem nenhum problema uma máscara de gato ou outro tema alegre. As que confeccionei, em sua maior parte, além de pretas, são floridas.

Fico eu aqui pensando que as máscaras, em parte, são democráticas, eis que igualam praticamente todo mundo na aparência do rosto. O que está ali detrás, buscando sobreviver e respirar, é somente um ser humano. As máscaras nos privam em parte da vaidade e nos permitem reflexões que ultrapassam nossas faces. O que iremos tirar disso, de fato, ainda não estou certa, mas de todas as máscaras possíveis, essa é a única que faz bem.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e, ultimamente, mascarada – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.