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Às vezes eu penso que essa folha branca a minha frente, quando inicio meus textos semanais é uma espécie de confessionário. Nesses vinte anos escrevendo semanalmente eu já contei praticamente tudo o que podia ser publicamente contado da minha vida. Não porque eu pense que minha vida seja de interesse público, mas porque acredito que dividir experiências seja uma coisa útil.

Nesses dias de quarentena, nessa confusão de sentimentos que, estou certa, ocorre com praticamente todo mundo, fica complicado escrever sobre temas não pessoais, por exemplo. Recuso-me a escrever sobre especulações quanto ao pico da epidemia, sobre qual remédio presta ou não presta, se os governantes estão certos ou errados. O que posso escrever sobre isso se nada sei? Aliás, talvez apenas que ninguém sabe coisa nenhuma, isso sim.

Cansei de ler e ouvir abobrinhas. Tomo mundo tem uma teoria da conspiração, um vídeo de um especialista em generalidades e saúde pública que garante que o vírus vai dizimar a população toda, enquanto outro já diz que não é bem assim. Uma olhada que seja nas redes sociais e só se vê gente que odeia o ódio de forma muito contundente e ofensiva. E ainda prosseguem dizendo que se você não odeia junto, se você fica quieto, é um omisso hipócrita e imbecil.

A despeito e apesar de tudo que vem acontecendo no mundo, temos que seguir vivendo. Os dias se abrem quando acordamos e é preciso preenchê-los da melhor forma que pudermos. Muitos de nós estão, inclusive, trabalhando quase normalmente, eis que desempenham funções essenciais e nem puderam parar. Outros, como eu, trabalham em casa por enquanto e ainda carregam as tarefas domésticas como adendo. Na prática, nem sobra tempo para muita coisa, além de um cansaço físico e mental.

Em tempos de distanciamento social necessário ou imposto, acredito que nunca antes a internet desempenhou um papel tão vital. Computadores, celulares e tablets se transformaram em sala de aula, em academia, em divã. Óbvio que essa não é uma realidade para todos os brasileiros, sobretudo porque vivemos em um país no qual muitos vivem em locais sem nem mesmo saneamento básico.

Para aqueles que tem acesso à internet, no entanto, tem sido possível e talvez inevitável um mergulho rede adentro. Há muita coisa boa disponível na rede mundial de computadores. Sabendo separar o joio do trigo encontramos uma variedade imensa de cursos gratuitos ou mesmo com preços bem módicos. É possível aprender a fazer artesanato de todos os tipos, estudar idiomas, interagindo, inclusive, com estrangeiros em tempo real, aperfeiçoar os dotes culinários, entre muitas outras coisas legais.

Mais do que nunca precisamos achar razões e sentidos para mantermos nossa sanidade mental. A meu modo vou tentando, equilibrando dias bons com dias nem tanto. Como gosto de pintura, sigo navegando pela rede e nessas marés encontrei alguns canais* no YouTube muito legais. Passo alguns minutos assistindo artistas testando materiais interessantes e coloridos. Inspiro-me com as cores que vão cobrindo superfícies e vou buscando trazê-las também de volta aos meus dias.

Creio que, mais do que nunca, as palavras de ordem sejam resiliência e reinvenção. Temos que suportar a barra desses dias e, para ressurgimos, temos que nos reinventar. O mundo não será jamais o mesmo e não sei se para o melhor, mas é fato que mudará e mudaremos. Naveguemos para onde for preciso e para onde nossos braços encontrarem forças. Tomemos fôlego porque em breve precisaremos voltar à terra, firme ou não. Por ora, sigo colorindo, protegendo-me, talvez egoisticamente, da escuridão, do cinza da pandemia e do ódio dos falsos pacifistas.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e, nesse momento, prefere não falar do que desconhece – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
*para quem gosta de pintura a lápis, giz pastel e marcadores, dentre outros, sugiro conhecer o divertido canal da Renata Celi no YouTube.