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Os brasileiros, de modo geral, completaram pouco mais de cem dias em isolamento social recentemente. Nem sei se “pouco menos” seja expressão que se aplica, em verdade. A sensação está mais próxima de “muito mais”. Sei bem que o fato de estar sem ir a praticamente lugar nenhum há quase quatro meses, trabalhando muito menos do que gostaria e precisaria, bem como sem interagir diretamente com família e a amigos, em nada se compara com as vidas perdidas por conta da COVID-19. Ainda assim, é praticamente impossível não pensar que esse ano de 2020 está sendo único em muitos sentidos.

Em meio a tudo isso, no entanto, a vida vai tentando achar um novo normal, um jeito de prosseguir, porque, por mais triste que seja (e é!), quem está vivo, sobrevivendo, tem que continuar. Fico pensando em como deve ter sido horrível, infinitamente mais, ver as pessoas morrerem às toneladas, em tempos de grandes guerras. Agora entendo que, conforme relatos que li, sobreviver a tragédias também tenha seu preço, pois é como se fosse errado continuar sorrindo ou cavucando motivos para manter sorrisos e esperanças.

Com as devidas proporções, é quase o que vem ocorrendo nesses tempos de pandemia. As redes sociais, que no início de março eram inundadas de mensagens de otimismo e solidariedade, rapidamente se transformou também em um lugar de ódio. O curioso é que, em muitos casos, tal sentimento acaba se voltando contra quem está vivo e tentando ficar bem, como se isso fosse um desrespeito a quem se foi. Uma coisa, de fato, não exclui a outra. Em minha opinião isso é lamentável e fora de propósito.

As baixas pelo vírus, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, parece-me, ainda estão longe de cessar. Talvez quando houver uma vacina possamos estar relativamente a salvo. Mas até lá é preciso buscar, onde quer que seja, pequenas ilhas de paz, nas quais seja possível manter a sanidade mental. Choramos pelos falecidos, pelas histórias que não viverão e pela saudade que deixaram naqueles que os amaram, mas nada disso os trará de volta.

A propósito, quem está vivo ainda tem que lidar com ameaça de gafanhotos invasores, com tornados que destroem casas e nuvens de poeira que atravessam o oceano, vindas do Deserto do Saara, para tornar ainda mais nebulosas as coisas no Brasil. Até mesmo invasões alienígenas já foram aventadas em tabloides menos ortodoxos, previstas para esse ano. Nada animador, ainda mais depois que a China (olha ela aí outra vez) identificou outro vírus com potencial pandêmico, agora relacionado aos porcos.

De todas dez vezes nas quais se falou sobre fim do mundo, confesso que essa é a primeira em que estou achando que há potencial! Como dizem por aí: está tudo coisado! E ainda brigam com quem tenta “descoisar”? Até mensagens sobre transição planetária iminente eu tenho recebido por WhatsApp. Pelo sim e pelo não, se for possível partir levando a família, meus bichos e meus livros, estou topando vaga nas próximas saídas, embora espere que os ETs façam uma triagem prévia para não levar as mazelas daqui para outro planeta. Caso contrário, vou ficando e, enquanto o Universo me permitir, sobrevivendo ao ano mais louco da minha vida.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e está aceitando cotações de viagens interplanetárias que acompanhem seguro saúde – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.