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Para além de toda tragédia que envolve essa pandemia e da tristeza que isso envolve, a vida continua, inexoravelmente. Já escrevi sobre isso em outros textos e sempre me parece que é preciso justificar a continuidade, como se houvesse alguma culpa em prosseguir. Enfim, por mais injusto que seja, o mundo não para quando morremos, embora nosso mundo pare quando perdemos alguém querido.

Assim, enquanto os dias se sucedem, nossas células continuam seu trabalho de crescer, alheias a nossa vontade. Os cabelos e unhas que o digam. Em relação às últimas é bem mais simples resolver, já que cortá-las não exige grande habilidade na maior parte das vezes. As unhas das mãos, sobretudo, têm suas pontas facilmente extirpadas com o uso de cortadores. Claro, se a pessoa enxerga bem ou tem o mínimo de coordenação motora.

As unhas dos pés já têm graus de dificuldade diferentes. Conforme somos mais velhos ou menos flexíveis, já fica complicado alcançá-las. Mesmo nesse caso não é tão difícil encontrar um voluntário que se disponha a apará-las. O nível de exigência estética e de habilidade técnica para isso é baixo. Óbvio que não estou me referindo ao trabalho bem feito de uma manicure ou de um podologista, mas somente a não deixar as unhas parecidas com garras.

Já com os cabelos a coisa é diferente. Moldura do rosto, tem uma relação muito mais complexa no que respeita à identidade, a autoimagem da pessoa. Assim, excluídos os casos dos carecas ou das pessoas que tem menos apego às madeixas, aceitando mudanças mais radicais, em geral não é fácil cortar o cabelo alheio ou o próprio. Nesses dias de quarentena, estou certa, muita gente vivenciou o pequeno dilema de arriscar ou não.

Aqui em casa, por exemplo, resolvi, a pedidos, comprar um kit de tesouras profissionais pela internet e, mediante uma declaração de isenção de qualquer responsabilidade de minha parte, bem como de possíveis e futuros danos morais (rs), fiz uma maratona de vídeos sobre cortes de cabelos pelo YouTube. Depois de certa tremedeira, fiz meu primeiro corte masculino. Com o cuidado de fazer fotos do antes e do depois, pude conferir que, contrariando as previsões, meu amadorismo rendeu um bom resultado.

Verdade que diante de mechas crescidas e já sem forma, qualquer coisa razoável já seria melhor, mas submetidas as fotos aos jurados familiares, houve unanimidade de aprovação. Ou de mentiras, rs. O fato é que depois disso eu já cortei o mesmo cabelo duas vezes, sempre a pedidos. Juro que sem qualquer espécie de coação. Ou isso é confiança ou muito medo de ir até o barbeiro/cabelereiro. Segredos da quarentena que jamais serão revelados.

Após mais de cem dias sem encontrar minhas irmãs, arriscamos, em prol de uma necessidade maior, estarmos juntas por alguns dias. Para minha surpresa, pediram-me para levar as tesouras e foi assim que acabei cortando cabelos de sobrinhos e, o maior desafio, o cabelo de minha irmã. E o medo de estragar tudo? Pensei e olhei mil vezes até ter coragem de arriscar deitar as madeixas já curtas ao chão. Acho que nem respirei. Nem acreditei quando vi que tinha ficado bom!! Ao menos ela não vai precisar, além da máscara, de colocar um lenço nos cabelos quando tiver que sair de casa.

A única questão em tudo isso é que ainda tenho certo receio de ir ao salão de beleza cortar os meus próprios cabelos e ninguém da família tem a mesma coragem ou desvario de se arriscar. Assim, enquanto as coisas não se ajustam, ando pelo mundo com cabelos compridos como nunca os tive. Estamos todos presos: eles e eu, para nossa segurança.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e anda pensando em fazer um curso de cabelereiro, já que nunca se sabe o dia de amanhã – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.