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Muitas vezes eu tenho a impressão de que os dias se avolumam e, ao mesmo tempo, se diluem, passando tão depressa que mal me dou conta. Venho com essa sensação já há bastante tempo, mas nesse ano, em específico, isso ganhou proporções especiais e paradoxais.

Na maior parte do tempo as horas me parecem imensas, cheias de minutos infindáveis, como se os meses me aprisionassem, repetindo-se e rodando em círculos. Ao mesmo tempo, por outro lado, ontem mesmo tínhamos a triste notícia do primeiro caso de contaminação por corona vírus no Brasil e de repente choramos as quase duas centenas de milhares de mortes.

Acredito que eu não tenha sido a única a me iludir, em março, que dezembro já seria um mês completamente diferente, com retorno da liberdade cotidiana, dos abraços e beijos sem medo, da volta do antigo normal, repleto do convívio com os amigos e sem as restrições de todas as ordens.

Olhando para trás eu nem sei direito o que fiz nesse tempo, de lá até aqui. Só sei que acordei em dezembro, com 2020 se aproximando do final. De repente me dou conta de que ainda preciso encerrar vários compromissos antes que de fato esse ano termine. Em um minuto os meses dentro de casa eram sinônimo de eternidade e, no instante seguinte foram como fogo de palha, consumidos instantaneamente.

Ainda que pareça, esse não é um tradicional texto de retrospectiva, de considerações finais, até porque ainda há algumas semanas para isso. A minha constatação aqui é apenas de que o tempo, esse elemento tão determinante da vida humana, ousou transcorrer diferente nesse ano, senhor da existência, alheio ao vírus.

Tenho escutado várias pessoas alegarem que, nesses tempos, erram os dias da semana e até perdem compromissos por conta disso. De modo geral sempre fui organizada, mantendo agenda física e no celular. Quando a pandemia mudou minha rotina, deixei de, nos primeiros meses, fazer as minhas usuais anotações e foi quando notei que segundas acabavam sendo iguais às sextas e que muitas manhãs se igualavam às noites.

Esses dias constatei isso quando uma cliente entrou em contato comigo e me disse que determinado fato ocorrera há mais de nove meses, alegação que me causou estranheza. Eu tinha certeza de que nem dois meses haviam se passado. Fomos conferir e ambas estávamos erradas. Quatro meses nos separavam dos acontecimentos, mas nenhuma de nós conseguia localizá-los temporalmente através de nossas recordações.

Confiar na minha percepção do tempo, assim, não se mostrou a melhor estratégia nos últimos tempos. Como advogada, vivo à mercê dos prazos e para evitar quaisquer dissabores eu os anoto meticulosamente, além de acionar lembretes com alarme no meu celular. Se não fizesse dessa forma, teria perdido o prazo que se venceu nessa quarta, quando eu estava certa de ainda ser terça.

No início da quarentena era ainda pior. Não foram poucas as vezes nas quais deitei para dormir em horários não usuais e quando acordei não fazia ideia sequer se era dia ou noite. Com o passar dos dias, entretanto, fui, como as demais pessoas, adaptando meus horários e criando novas rotinas, tudo no desejo de achar um fio condutor, de manter algum controle sobre a minha vida, algo que o vírus também vinha tentando roubar.

De um jeito ou de outro, mesmo sem sabermos exatamente qual o ritmo que o tempo escolheu para nos embalar, confundindo o sol e a lua, inverno e verão, buscamos sobreviver a esses tempos confusos, nos quais até mesmo o passar das horas não faz o sentido que deveria fazer.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada e não está muito certa sobre que dia é hoje – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.