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Acredito que poucos aromas são tão universalmente sedutores quanto o de pão saindo do forno e o de café recém passado. Onde quer que estejamos no mundo, esses verdadeiros perfumes são capazes de nos trazer reconhecimento, de nos transportar para lugares familiares. Particularmente, sempre associei os dois a boas e afetivas lembranças, desde as fornadas de pães nas casas dos meus avós paternos e maternos, até o cheiro de café que me saudava pelas manhãs nas quais eu ainda morava com meus pais.

Talvez seja por isso que minha refeição preferida, de longe, é o café da manhã, no qual, a despeito das modas “low carb”, não dispenso uma fatia de pão e uma xícara fervendo de café fresco. Degusto esse momento com vagar, feliz por ser capaz de fazê-lo e, nesse ato, preparo-me para mais um dia da minha história pessoal. Há alguns dias, no entanto, acresci a esse ato mais um forte sentimento.

Iniciei, há umas duas semanas, a leitura, quase sempre noturna nesse caso, de um livro chamado “Os bebês de Auschwitz”. Preciso registrar que nunca gostei muito da temática do Holocausto ao qual os judeus e outros foram submetidos durante a 2ª Guerra Mundial, essencialmente por não ser capaz de ler a respeito de algo tão triste. Entretanto, arrisquei-me a essa leitura após ver a sinopse.

Não vou aqui contar a história do livro ou, como se diz mais modernamente, dar “spoilers”, mas gostaria de compartilhar uma passagem que acrescentou outro significado ao meu ritual alimentar matinal. Em dado momento, algumas prisioneiras dos campos de concentração, famintas, doentes, esquálidas, destituídas de toda a sua dignidade, a fim de manterem o mínimo de sanidade mental que lhes restava, faziam jogos orais de imaginar o que comeriam quando saíssem de lá e, como regra, o alvo dos desejos não era nada demais, mas tão somente uma xícara de café quente e uma fatia de pão fresco.

Ler essa passagem específica do livro me deixou muito sensibilizada e não sei se pelo fato de pensar em como não damos o verdadeiro valor às coisas mais simples e triviais da nossa vida ou se foi por pensar que a quase totalidade delas nunca mais chegou a ter essa alegria, perdendo suas vidas pelas doenças ou pela câmara de gás. Mais do que toneladas de corpos, essa guerra (como tantas outras, inclusive), sepultou uma infinitude de sonhos e de desejos, mesmo os mais singelos deles.

Posso vir a me esquecer da totalidade do que foi narrado nesse livro, cuja leitura recomendo, mas estou absolutamente certa de que jamais serei capaz de olhar para minha xícara de café e para o meu pãozinho, ambos quase sempre feitos por mim mesma, sem reverenciar a memória daqueles que sequer podem se dar a esse mínimo, a esse luxo, sem que me venha à mente as mulheres judias que sonhavam somente com aquilo que a maioria de nós faz quase dormindo, todos os dias, todos os santos e abençoados dias...