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E infelizmente chegou o dia de dizer adeus. Depois de quase dezesseis anos juntos, foi a vez do Peteco se despedir desse plano. Lembro-me da primeira vez que o vi, lá na casa dos meus amigos Cláudio e Rosana. Ele era minúsculo. Lindo. Cheio de vida. Mal parecia ter pernas, de tão curtinhas que elas eram. Dois meses depois do nosso primeiro encontro ele entrou por definitivo em nossas vidas.

Quando ele chegou, já um pouco maior, era muito medroso e foi difícil conquistar a confiança dele. Nós o chamávamos, mas ele não vinha, tremendo de medo. Aos poucos, no entanto, fomos vencendo suas barreiras. Eu o colocava no colo e entoava um verso de uma canção que, em sua versão para o português dizia “se eu me apaixonar, tem que ser pra sempre, ou não vou me apaixonar”. Ele me encarava, com olhos grandes, como quem me desafiasse à paixão.

Apaixonei-me, irremediável, profunda e infinitamente. Tivemos um longo caso de amor. Em pouco tempo ele se transformou em minha sombra, seguindo-me para onde eu fosse. Ele foi um cãozinho terrível em vários aspectos, no entanto. A despeito de seu tamanho, meu “salsichinha” exercia seu papel de guardião, latindo sempre que alguém estranho se aproximava.

Quando era deixado sozinho em casa, ao lado de seu amigo Floquinho, dava um jeito de passar o tempo destruindo alguma coisa. Podiam ser plantas, portas, cobertas, pequenos roedores, aves e até mesmo paredes. Era certo que ao chegarmos em casa haveria alguma surpresa, quase sempre desagradável, envolvendo coisas da casa e muito, muito xixi.

Confesso, agora com imenso pesar, que muitas vezes perdi a paciência com ele, ficando brava quando pisava numa poça de xixi, usando somente meias ou quando encontrava uma porta parcialmente comida. Fico agora pensando no quanto desperdicei da vida de nós dois. Agora não há mais xixi a limpar, assim como não há quem levar para passear ou para entoar tolas canções de amor.

Transformei em textos muitas das aventuras do Peteco, como quando ele pegou na rua uma cabeça de porco que estava no meio de um “despacho” e saiu correndo, carregando-a pela orelha. Foram tantos os textos e fotos em redes sociais que, com o advento de sua morte, tive que dar a notícia a tantos que dele gostavam.

Tudo se deu de forma muito repentina. Naquele domingo fatídico, sem nada sabermos sobre o futuro, saí com ele para passear uma pouco. Como de costume, ele saiu carregando a coleira na boca, feliz da vida. Cheirou tudo o que pode e, cansado, voltou-se na direção de casa.

À noite, para incentiva-lo a comer mais, fiz seu petisco favorito: salsichas! Sem delongas ele tratou de comer uma inteira e dormiu em sua caminha forrada com um grosso cobertor. Horas depois começou a chorar e eu o encontrei caído, tendo uma síncope. Entendi que o coração dele estava parando e, metaforicamente, o meu também.

Estive junto com ele até que sua alma deixasse por completo aquele corpinho comprido e de pelos brancos. Assim como chegou em nossas vidas, ele se foi, colocando um ponto onde só havia exclamações. Não tenho mais palavras, só lembranças. Vivo com a sensação de que ele está esperando seu petisco noturno. Revivo as lembranças de longos passeios e de boas risadas. Vivo inundada de saudades, escorrendo pelos olhos. Ele se foi e eu não aprendi dizer adeus...

Te amei Pepê e não foi pouco. Desculpe pela minha pequeneza. A gente se vê por aí...