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Diante de tantos fatos escabrosos que vem ocorrendo ultimamente, eu não tenho me sentido muito confortável para dizer que somos uma sociedade civilizada, não no sentido de que nos tratamos um ao outro com respeito, com observância aos limites alheios e à vida do próximo.

Fico imaginando se as pessoas sempre foram assim ou se, agora, tudo ficou mais visível, menos velado e mais globalizado. Se somos moldados todos do mesmo barro, porque alguns de nós são capazes de tamanhas atrocidades, de tanta indiferença e violência? Vejo tanta gente preocupada com a diferença da cor de pele, de condição econômica, de preferências por times, de sexo, de beleza, mas pouco ouço dizer de um inconformismo geral quanto a diferenças mais profundas, mais significativas, como caráter, ética, moral, bom senso, piedade...

Não consigo achar normal que alguém mate outra pessoa, sobretudo quando o faz porque deixou de ser amado, porque não quis entregar seus pertences ou pela ausência de motivos. Aliás, nem sei se há motivos que sejam justificáveis para tirar uma vida, nem humana, nem animal. Embora eu não seja vegetariana, nunca deixo de me perguntar se, de fato, eu precisaria tirar outra vida para manter o deleite da minha. Assim, qualquer morte me incomoda, mesmo que em aparente paradoxo.

Tenho, até por hábito de advogada, o cuidado de acompanhar as notícias na mídia com certo distanciamento, pois nem eu e nem ninguém deveria se permitir ser fantoche de certos espetáculos destinados a causar histeria e revolta, à custa da exposição alheia, mas é quase impossível o alheamento absoluto.

Nos últimos dias, a notícia de um ciclista atropelado, vítima de um motorista aparentemente e salvo melhor juízo, embriagado, causou-me horror. Não pelo atropelamento em si, infelizmente tão comum, ainda que indesejado, mas pelo que se deu a seguir. Com o acidente, o ciclista teve seu braço arrancado, o qual ficou preso no veículo e que foi descartado pelo motorista, que o jogou dentro de um rio, como quem se desfaz de uma folha que atrapalha a visão, surgida no para-brisa...

Questiono-me como isso é possível, sob o ponto de vista do mínimo de consideração ao próximo? Será que esse é o futuro do que chamamos civilização? Se é para tamanha indiferença, para tanto desamor com a própria espécie, melhor teria sido nem descermos das árvores... Não tenho orgulho do que temos nos tornado como sociedade. Mais do que nunca, vale a lição do filósofo de que “o homem é o lobo do homem” e o pior é que pouco há para onde fugirmos...