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Nunca deixo de me surpreender com o fato de que vivemos em completa ilusão sobre a natureza da existência humana. Talvez até por pura falta de opção, passamos nosso tempo nesse mundo certos de sermos feitos de algum material indestrutível, como se fosse aço e não pele, sangue e osso a compor nossa forma física.

Penso também, por outro lado, que a falsa sensação de imortalidade decorra do fato de que, íntima e subconscientemente sabermos que nossa essência reside em nossa alma e essa sim é imortal. Quiçá seja esse reconhecimento que nos impulsione para frente, que nos dê a ilusão de que essa casca física é mais forte do que de fato é.

Há algumas semanas eu andava por uma das lojas do Pão de Açúcar e abaixei-me para pegar uma caixa de aveia. Quando me levantei senti uma dor tão forte no alto da cabeça e percebi que havia batido em algo. Meio desacorçoada, demorei alguns instantes para entender o que me atingira. Havia um imenso monitor de TV, no qual propagandas da rede ficavam passando e que estava extremamente mal posicionado, representando um risco para os desavisados e distraídos como eu.

A dor que senti foi tamanha que achei que fosse desmaiar. Passando a mão pela cabeça eu senti que um imenso galo se levantava pronto para cantoria. Sem saber o que fazer, peguei um pacote de um produto que ia comprar congelado e fiquei terminado de fazer as compras com ele na cabeça, enquanto lágrimas teimosas, de dor e raiva, desciam pelos meus olhos. Sinceramente, na hora nem me importei com o que os outros estariam pensando daquela cena, mas agora fico até curiosa.

Fiquei pensando, enquanto andava por ali, que tudo muda em única segundo. Em como nosso corpo é frágil, quebrável mesmo. Se fosse algum idoso ou criança no meu lugar, o estrago seria feio. Lembrei-me de uma conhecida que, por uma tragédia, enquanto caminhava rumo à Aparecida do Norte, perdeu a vida após um imenso galho se soltar de uma árvore, atingindo-a. E ela só estava indo rezar, cumprir uma promessa.

A gente fica achando que a morte manda avisos, mas ela não o faz. É tudo mesmo como se fôssemos uma simples fagulha. Qualquer brisa pode nos extinguir. Ter consciência disso não significa viver pensando na morte, contudo. Sabermos disso deveria provocar em nós os melhores sentimentos, principalmente o senso sobre o que e quem é realmente importante.

Essa semana tive a notícia de que a filhinha de uma ex-aluna querida veio à óbito. Uma enfermidade a levou desse mundo com apenas seis anos de vida. Fico imaginando a dor, o vazio do impreenchível e que tudo muda em um piscar de olhos. É a máxima segundo a qual para morrer basta estar vivo e nada mais. Absolutamente nada mais se faz requisito.

Sei que para tocarmos nossas vidas é necessário seguirmos adiante, destemidos, mas creio que vale a lembrança de que a vida é um frágil cristal e que todo tempo que nos é dado ou a quem amamos é uma dádiva ímpar. Vivamos com alegria, com gratidão. O final, inevitável, sempre nos alcançará, ainda que nos esqueçamos disso.